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- Author, Ayelén Oliva
- Role, BBC News Mundo
Tempo de leitura: 9 min
Em uma loja de roupas baratas em Miami Beach, nos Estados Unidos, quatro argentinos vasculham as araras, escolhem peças sem entrar no provador e empilham roupas no carrinho.
“Viemos comprar roupas nos EUA porque os preços são muito mais baixos do que na Argentina“, diz Macarena, de 29 anos, em seu primeiro dia na cidade.
Para os argentinos que podem viajar ao exterior, comprar roupas em Miami — ou, mais perto, em Santiago, no Chile — virou um dos principais incentivos na hora de viajar.
“Antes de viajar, me organizei financeiramente para levar dinheiro suficiente, já reservando espaço na mala para voltar com as roupas que compraria”, acrescenta Macarena.
Enquanto enchem carrinhos de compras em Miami, muitos argentinos tentam prolongar o uso de roupas gastas, recorrem a lojas de roupas de segunda mão e ao parcelamento com juros altos para renovar o guarda-roupa.
Segundo um relatório da Secretaria de Comércio da Argentina publicado em março do ano passado, a Argentina tem as roupas mais caras da região.
O estudo concluiu que uma camiseta de uma marca internacional pode custar na Argentina até 95% mais do que no Brasil, antes da redução das tarifas de importação de produtos têxteis determinada pelo governo do presidente da Argentina, Javier Milei.

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Há vários anos, os preços das roupas na Argentina são tema de debate e dividem opiniões no país.
No início deste ano, o ministro da Economia, Luis Caputo, gerou polêmica ao afirmar: “Nunca comprei roupas na Argentina porque era um roubo”. Ele acrescentou que os altos preços das peças “prejudicam quem tem menos [dinheiro]”.
Segundo um relatório da consultoria Fundar, os preços das roupas na Argentina são, em média, mais altos do que no restante da região. Apesar disso, embora haja consenso de que as roupas “estão caras”, não existe acordo sobre qual seria a solução.
Enquanto o setor têxtil defende a redução de impostos e proteção por meio de um câmbio mais alto, o governo de Milei aposta na abertura da economia a produtos importados, incluindo mercadorias da China.
O presidente da Câmara da Indústria Têxtil e do Vestuário da Argentina, Claudio Drescher, define o momento atual como uma “destruição da indústria têxtil na Argentina”.
Mas por que as roupas custam mais caro no país?
Impostos sobre o setor
“Mais da metade do valor pago pelo consumidor por uma peça produzida no país corresponde a impostos”, afirma Drescher à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
Segundo Drescher, representante do setor têxtil argentino, o preço de cada peça inclui uma série de tributos, começando pelos 21% do imposto sobre valor agregado (IVA), um tributo nacional indireto cobrado sobre o consumo de bens. O IVA é a principal fonte de arrecadação do Estado argentino.
Além do IVA, há o imposto do cheque de 1,2% sobre movimentações bancárias, cobrado a cada transferência de dinheiro entre bancos. O tributo foi criado em 2001 como medida temporária, mas permanece em vigor há mais de 24 anos na Argentina (há similaridades com a extinta CPMF brasileira).
“Esse é um imposto que a maior parte dos países não costuma ter”, explica à BBC News Mundo, Juan Carlos Hallak, doutor em economia pela Universidade Harvard, nos EUA, e professor de economia internacional na Universidade de Buenos Aires, na Argentina.
“É um imposto cumulativo. Isso significa que, se um parafuso é vendido e depois incorporado a uma peça, que por sua vez entra na fabricação de uma máquina, o tributo é cobrado em cada etapa do processo, nesse caso, três vezes”, acrescenta Hallak, que dirigiu a subsecretaria de Inserção Internacional do governo do então presidente argentino Mauricio Macri (2015-2019).

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A esses tributos se soma ainda uma taxa de 1,8% para pagamentos feitos com cartão. E, quando a compra é parcelada, como ocorre em quase 90% das compras de roupas no país, o parcelamento adiciona ainda quase 15% em custos financeiros ao valor final.
“Uma peça produzida na Argentina e vendida no país custa entre 25% e 30% mais do que custaria se essa mesma peça fosse vendida no Chile”, afirma Drescher, da Câmara da Indústria Têxtil e do Vestuário da Argentina.
Segundo dados da entidade, as vendas de marcas argentinas caíram, em média, 38% nos últimos 18 meses, o que levou ao fechamento de mais de 1.600 lojas.
Além disso, mais de 10 mil trabalhadores formais da indústria de confecção perderam o emprego. Especialistas estimam que o setor têxtil gere cerca de 300 mil postos de trabalho na Argentina.
O governo argentino diz que “é falso que empregos estejam sendo perdidos”.
Na semana passada, Milei afirmou durante um fórum empresarial que o que ocorre é uma “realocação da força de trabalho” e que trabalhadores demitidos poderiam “migrar mais rapidamente” para setores mais competitivos da economia.
Desde que Milei assumiu o governo, foram derrubados 24 impostos. As medidas, no entanto, não atingiram a indústria têxtil, mas outros setores da economia.
“O governo reduziu impostos internos sobre produtos como carros de luxo. Na minha opinião, neste momento de transição vivido pela Argentina, teria sido preferível reduzir o imposto sobre movimentações bancárias”, afirma Hallak, das universidades Harvard e de Buenos Aires.
Abertura para importações
O preço alto das roupas não é explicado apenas pela elevada carga tributária e pelo chamado “atraso cambial”, que torna produtos fabricados na Argentina caros tanto dentro quanto fora do país.
Segundo especialistas, o problema também está ligado às barreiras à importação de roupas em vigor há anos na Argentina e que o atual governo vem reduzindo.
Antes do governo de Milei, que assumiu o poder no fim de 2023, roupas produzidas no exterior pagavam tarifa de 35% para entrar na Argentina.
“Em geral, os países cobram tarifas de importação, mas as taxas aplicadas pela Argentina ao setor têxtil eram bastante altas”, explica Hallak sobre as medidas de proteção à indústria têxtil.
O atual governo afirma que essa política de proteção transforma alguns empresários argentinos em “caçadores de zoológico”, expressão usada para descrever produtores que, sem concorrência externa, conseguem definir preços com maior liberdade.
Por isso, no ano passado, o governo anunciou a redução das tarifas de importação para roupas e calçados vindos do exterior, que passaram de 35% para 20%, “com o objetivo de reduzir os preços locais e aumentar a concorrência”.
“A Argentina continua sendo o país com as roupas mais caras da região e do mundo”, afirmou Caputo, ao anunciar a medida. “Seguimos reduzindo impostos e tarifas para estimular a concorrência e continuar reduzindo a inflação”, acrescentou.

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Além de reduzir tarifas de importação, o governo passou a permitir pequenas compras internacionais via courier, sistema que possibilita comprar produtos pela internet diretamente de lojas no exterior.
Muitos argentinos comemoraram a possibilidade de fazer compras online em marcas como a Shein, que oferecem peças muito mais baratas do que as produzidas na Argentina, algo até então incomum no país.
Vale lembrar que, em 2024, o Brasil seguiu um caminho diferente ao adotar uma lei que estabeleceu a taxação em 20% para compras internacionais de até US$ 50 em plataformas internacionais como Shein, Shopee e AliExpress, popularmente conhecida como “taxa das blusinhas”. A taxação foi uma resposta do governo ao pleito de varejistas, após o forte aumento das compras digitais durante a pandemia, e diante da diferença de carga tributária entre produtos nacionais e aqueles importados através das plataformas online.
A medida brasileira, criticada por parte dos consumidores por causa da elevação do custo, teve como efeito a redução das importações e um aumento da arrecadação fiscal.
Macarena, a argentina citada no início desta reportagem que faz compras em Miami, ainda não se sente segura para comprar roupas pela internet diretamente da China, mas diz que pretende experimentar porque amigas já fizeram isso e “deu tudo certo”.
Além da redução das tarifas de importação e da liberação do comércio eletrônico, o governo argentino também extinguiu as chamadas “licenças não automáticas de importação”, como parte da abertura comercial.
A medida reverteu uma decisão do governo de Alberto Fernández (2019-2023), que exigia autorizações obrigatórias para importadores. A regra, uma barreira não tarifária, tinha como objetivo restringir a entrada de determinados produtos estrangeiros.
Na prática, empresas estrangeiras precisavam obter autorização especial para importar roupas para a Argentina.
“Isso levou a regulações discricionárias. Se você tem o poder de conceder permissões, decide para quem concede e para quem não concede”, explica Hallak, das universidades Harvard e de Buenos Aires.
Efeitos sobre os preços
As medidas recentes adotadas pelo governo argentino provocaram um forte impacto no setor têxtil argentino.
Segundo a Câmara da Indústria Têxtil e do Vestuário da Argentina, os preços das roupas subiram 15% no último ano, bem abaixo da inflação acumulada de 33% registrada até fevereiro de 2026. Ao mesmo tempo, a produção local de roupas caiu 15% no período.
Para os representantes do setor, a abertura às importações, somada aos altos impostos, à queda do consumo interno e ao chamado “dólar caro”, reduziu a competitividade dos produtos argentinos.
Ou, como dizem os argentinos, faz com que a indústria jogue “com o campo inclinado” — expressão usada para indicar uma competição em desvantagem diante de produtos importados, principalmente da China, como os vendidos pela Shein e pela Temu.
Na semana passada, Milei voltou a defender sua política de abertura econômica.
“Não vamos produzir de tudo. Vamos produzir algumas coisas, aquelas em que somos melhores. Naquilo em que somos ruins, não teremos chance”, disse Milei no fim de abril diante de um grupo de empresários argentinos.

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Milei afirmou que a falta de competitividade da indústria têxtil argentina diante da China não está relacionada apenas aos custos, mas também à inovação.
“A Itália tem salários mais altos do que os nossos e, ainda assim, possui uma indústria têxtil forte. Como isso é possível? Eles competem por meio do design. Precisam encontrar uma saída”, disse o presidente argentino.
“Culpar os estilistas e dizer que precisamos nos virar para competir com a China me parece uma perversidade como nunca vi na vida”, respondeu o estilista argentino Benito Fernández.
Para Hallak, das universidades Harvard e de Buenos Aires, a abertura econômica é um sinal positivo para a economia argentina no longo prazo, mas a velocidade das mudanças preocupa.
“É uma abertura às importações muito agressiva em um setor extremamente sensível. Colocar pressão demais sobre esse setor de uma vez, sem dar tempo para adaptação, pode ser um erro”, afirma Hallak.
Ele defende que a indústria têxtil tenha mais prazo para implementar mudanças e competir com produtos importados nos segmentos em que possa ser competitiva.
“Tudo isso leva tempo. Se o processo for rápido e abrupto, empresas que poderiam sobreviver, se adaptar e apostar em competitividade acabarão desaparecendo”, conclui Hallak.
Enquanto isso, argentinos como Macarena seguem buscando maneiras de renovar o guarda-roupa.
Reportagem adicional de Thais Carrança, da BBC News Brasil
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


