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22 de maio de 2026

Os vinhos cheios de frescor que vêm dos Açores – 22/05/2026 – Isabelle Moreira Lima

Os vinhos cheios de frescor que vêm dos Açores – 22/05/2026 – Isabelle Moreira Lima

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No seu ABC do vinho, qual seria o vocábulo da letra A? No novo alfabeto que a crítica inglesa Jancis Robinson publicou no Financial Times, a letra A é representada pelo vocábulo Açores, o arquipélago de Portugal composto por nove ilhas situadas no oceano Atlântico. Aposto que a responsabilidade por essa escolha recai pesadamente sobre um produtor cujo nome também começa com a letra A: António Maçanita.

Enólogo e produtor português, que vem ao Brasil na próxima semana, ele resgatou castas esquecidas na Ilha do Pico e também produz vinhos premiados no Alentejo, no Algarve, no Douro e na Ilha da Madeira.

Nascido em Lisboa de mãe alentejana e pai açoriano, Maçanita tem longa história com a região porque passou a vida tirando férias na ilha de São Miguel, a maior entre todas, de onde vem a família do pai. Depois de caminhos tortos que o levaram a cursar enologia, passou a sonhar em plantar um vinhedo na região.

Aos 20, ainda durante a graduação, fez a primeira tentativa, mas as vinhas logo foram destruídas por uma tempestade. Apesar da frustração, essa foi a gênese do que viria a ser a Azores Wine Company, que hoje mudou a paisagem local e recuperou castas antigas como a terrantez do Pico.

O Pico dá nome à ilha, mas é também a maior montanha de Portugal, com 2.351 metros de altitude, um vulcão semelhante ao Etna. Isso garante um solo muito interessante para alimentar as videiras, mas o produtor gosta de dizer também que o que marca aquele terroir não é o que ele tem, mas o que falta: o sol.

A montanha força as vinhas para junto do mar, onde é mais quente e há mais luz. As melhores vinhas ficam onde “se ouve o cantar dos caranguejos”, disse Maçanita numa longa prova que realizou em São Paulo com vinhos feitos nos seus diferentes projetos (do Alentejo à Ilha da Madeira).

No Pico está sempre meio nublado e há ventos fortes o tempo todo. É por causa deles que ali foram construídos os chamados currais, construções históricas reconhecidas pela Unesco erguidas para proteger as videiras contra a ventania perene mas também contra a salinidade. Apesar da proteção, os vinhos dali felizmente carregam a nota salina na boca e uma acidez que só uma terra fria consegue gerar, características celebradas e pelas quais esses vinhos são sucesso comercial e de crítica. Prova disso é o preço da uva.

Voltando à terrantez do Pico: quando Maçanita chegou à ilha, eram 89 plantas da variedade. Era uma casta mal amada porque adoecia facilmente, amadurecia antes da hora. Em 2015, o preço do quilo girava em torno de 70 centavos de euro. Hoje, com o sucesso comercial, são 4 euros e 39 hectares plantados. Outras três castas foram recuperadas pelo produtor, que de certa forma ajudou a salvar a atividade vitivinícola local, mas também inflacionou seus vinhos.

No Brasil, os vinhos de Maçanita feitos nos Açores são vendidos pela World Wine, sob a etiqueta de Azores Wine Company. Há hoje cinco rótulos disponíveis, entre eles o delicioso Arinto dos Açores, um vinho branco leve e elétrico, de acidez cítrica, mas cremosinho, tipo uma limonada suíça. Há também o varietal da famigerada terrantez do Pico, que tem um pouco mais de estrutura, mais sal, e uma acidez um pouco mais redonda.

Mas o trabalho de Maçanita não se restringe a essa região nem está apenas nesta importadora no Brasil. No alfabeto deste português, a letra A poderia ser também para Alentejo, onde faz os vinhos Fita Preta, importados no Brasil pela Grand Cru, e para Algarve. Faz também vinhos no Douro e na pequena Porto Santo, parte do arquipélago da Ilha da Madeira.

O projeto, chamado Companhia de Vinhos dos Profetas e Villões, vendido por aqui pela EmiWine, traz castas também pouco conhecidas no Brasil, como os varietais de listrão, que tem ótima untuosidade e persistência; cerceal, que traz notas de grama cortada e hiperacidez; e tinta negra, que faz um tinto leve com notas que lembram o Madeira clássico.

Como se vê, são muitos os vinhos de António Maçanita. A boa notícia é que vários chegam ao Brasil; a má é que é preciso desembolsar algumas centenas de reais por eles.

No entanto, no próximo fim de semana, será possível provar muitos desses rótulos na 13ª edição do evento Vinhos de Portugal, que reúne 77 produtores portugueses no Shopping JK Iguatemi.

Além de Maçanita, vale conferir nomes como Carlos Agrellos, enólogo da Quinta da Romaneira; Manuel Lobo de Vasconcellos, enólogo da Quinta do Crasto e criador do projeto Lobo de Vasconcellos; Sandra Tavares e Jorge Serôdio Borges, à frente da Wine & Soul; Paulo Nunes, referência do Dão, com a Casa da Passarella, além de Luís Pato, Anselmo Mendes (e seu filho Tiago Mendes) e Tiago Alves de Sousa. Ingressos disponíveis no site vinhosdeportugal.com.br.


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Fonte.:Folha de São Paulo

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