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24 de maio de 2026

A inteligência artificial sabe investir? – 24/05/2026 – De Grão em Grão

A inteligência artificial sabe investir? – 24/05/2026 – De Grão em Grão

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Durante décadas, investidores procuraram o especialista perfeito. Agora começaram a procurar o algoritmo perfeito. E existe algo quase irresistível nisso tudo. Afinal, se algo foi chamado de inteligência artificial, parece existir um acordo implícito: ela deveria errar menos do que nós. Afinal, é a inteligência.

Talvez por isso tanta gente esteja começando a terceirizar decisões financeiras para ferramentas de IA. O processo impressiona. Em segundos aparecem percentuais exatos, justificativas econômicas sofisticadas, gráficos organizados, explicações sobre juros, inflação, Bolsa e diversificação.

Tudo parece extremamente inteligente e preciso. O problema é que muitos solicitam uma carteira, mas poucos testaram o resultado. Afinal, como criticar algo que é inteligente até no nome.

E talvez esse seja justamente o perigo.

Assim resolvi provocar a própria inteligência artificial. Usei o ChatGPT para o exercício. Pedi que ela montasse três carteiras para o Brasil, assumindo que estivéssemos em 31/12/2019: uma conservadora, uma moderada e uma agressiva. Havia apenas uma regra: ela só poderia usar as informações disponíveis até aquela data.

A resposta parecia saída de um grande relatório de estratégia com explicação para escolha das alocações. A tabela abaixo contém a alocação para cada tipo de investidor.














AtivoConservadorModeradoAgressivo
Tesouro Selic 202555%35%10%
Tesouro IPCA+ 202625%0%0%
Tesouro IPCA+ 20350%25%0%
Tesouro IPCA+ 20450%0%20%
Tesouro Prefixado 202610%10%0%
Tesouro Prefixado 20290%0%15%
BOVA115%20%35%
SMAL110%0%10%
IFIX5%10%10%
Total100%100%100%

Para o investidor agressivo, por exemplo, a IA alocou mais em Bolsa, small caps, fundos imobiliários e títulos longos indexados à inflação. A justificativa fazia sentido naquele momento. O Brasil parecia entrar em um novo ciclo estrutural de juros baixos, investidores migravam da renda fixa para ativos de risco e o mercado doméstico parecia preparado para anos positivos.

Já o investidor conservador ficou mais concentrado em pós-fixados e inflação curta. O moderado buscava equilíbrio entre renda fixa e risco.

Tudo extremamente coerente.

O problema é que o mercado financeiro tem uma habilidade quase cruel: destruir narrativas que parecem perfeitas.

De 2020 até 2025, nenhuma das três carteiras conseguiu vencer o CDI acumulado. Nem a conservadora. Nem a moderada. Nem a agressiva. Na tabela abaixo, descrevo o resultado em cada ano e no acumulado.











AnoConservadorModeradoAgressivoCDIIHFA
20205,30%7,10%8,90%2,76%5,51%
20211,20%-2,70%-7,20%4,40%2,04%
202210,70%9,30%8,80%12,39%13,66%
202314,20%16,80%21,70%13,04%9,31%
20245,50%2,20%-1,80%10,88%5,76%
202510,60%7,60%4,90%14,32%15,33%
Acumulado 2020-202557,80%43,90%37,70%69,40%60,40%

O investidor agressivo aceitou mais volatilidade, mais risco e mais oscilação. Ainda assim, terminou vários degraus abaixo do simples CDI. E talvez exista um detalhe ainda mais desconfortável: as três carteiras também ficaram abaixo do IHFA, índice que representa o desempenho médio dos fundos multimercados brasileiros.

Ou seja, a inteligência artificial não conseguiu sequer superar a média dos gestores multimercados do país, mesmo para o investidor conservador.

Mas aqui existe um ponto importante. A IA não “falhou” porque fosse ruim. Na verdade, ela fez exatamente aquilo para o qual foi treinada.

Ela reorganizou o passado de forma brilhante.

Talvez você diga: Michael, mas o cenário mudou muito nestes cinco anos. Então repeti o exercício, mas agora iniciando no fim de 2023.

Realmente, com a mudança do mercado de 2020 a 2023, a própria inteligência artificial mudou completamente o discurso. Passou a defender mais títulos indexados à inflação, argumentou que juros reais elevados poderiam permanecer por mais tempo, mas ainda assim reduziu o prazo de alocação para investidores agressivos. Explicou que o risco de Bolsa estava maior, mas não alterou significativamente a alocação.

Novamente, a lógica parecia excelente. A alocação resultante está na tabela a seguir.











AtivoConservadorModeradoAgressivo
Tesouro Selic 202950%25%10%
Tesouro IPCA+ 203530%30%20%
Tesouro Prefixado 20295%10%15%
BOVA115%20%35%
SMAL110%5%10%
IFIX10%10%10%
Total100%100%100%

Compare as duas carteiras sugeridas e pode perceber que elas mudaram muito pouco. O que sugere uma falha para a IA se você faz uma solicitação simples. As carteiras sugeridas parecem carteiras médias que se encontra em sites de bancos. O cenário muda, mas elas nunca se alteram muito. Ou seja, a IA pode ou simplesmente estar fazendo uma varredura sobre o que é sugerido ou estar usando modelos importados e que dão errado para o Brasil.

E aqueles que acham que ao perguntar a IA estão fugindo da indicação de bancos ou de sugestões tradicionais, podem estar caindo na mesma rede.

O resultado desta nova alocação para cada ano seguinte pode ser visualizado na tabela abaixo.







AnoConservadorModeradoAgressivoCDIIHFA
20247,80%5,60%1,90%10,88%5,76%
202511,90%10,20%8,40%14,32%15,33%
Acumulado 2024-202520,60%16,40%10,50%26,80%21,90%

Novamente, todas as carteiras ficaram abaixo do CDI e do índice de fundos multimercados.

Talvez porque investir não é apenas conectar informações passadas ou buscar dados na internet. Investir é, principalmente, lidar com aquilo que ainda não aconteceu. Ou seja, montar cenário, entender o que o investidor deseja e ter sensibilidade sobre o risco.

E talvez esse seja o verdadeiro risco da inteligência artificial no mercado financeiro: ela pode gerar a sensação perigosa de que a incerteza finalmente ficou controlável.

Mas não ficou.

Uma resposta rápida e que parece confiante, não torna a resposta mais inteligente ou precisa.

A inteligência artificial pode ser extremamente útil para organizar dados, comparar estratégias, montar dashboards, encontrar inconsistências e até ajudar investidores a raciocinarem melhor. O problema começa quando confundimos sofisticação com capacidade preditiva.

Muitas investidores estão procurando na inteligência artificial algo que ela talvez ainda não seja capaz de entregar. A procura por alguém ou algo que prometa transformar incerteza em conforto pode resultar em frustração.

Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.





Fonte.:Folha de S.Paulo

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