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1 de junho de 2026

‘Meu Pai, Hamlet’ une Shakespeare e skate no palco – 01/06/2026 – Mise-en-scène

‘Meu Pai, Hamlet’ une Shakespeare e skate no palco – 01/06/2026 – Mise-en-scène

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O que acontece quando o palco deixa de ser o lugar do fingimento e passa a ser o território do risco? Nascido no confinamento de 2021, o espetáculo “Meu Pai, Hamlet” propõe uma revisão da tradição teatral. A diretora Julia Pedreira e seu pai, o percussionista e skatista Marco Monteiro, transformam o espaço cênico em um laboratório onde o tempo cronológico é suspenso por um relógio sem números, questionando a lógica de uma sociedade que invisibiliza os mais velhos.

A montagem se estrutura a partir de uma troca de ofícios, sem personagens. No palco, Marco Monteiro, homem de mais de sessenta anos, assume o texto de Shakespeare e diz as palavras de Hamlet com a crueza de um não-ator. Em contrapartida, Julia Pedreira assume as baquetas para executar a estrutura rítmica de “A Sagração da Primavera”, de Igor Stravinsky. Ao deslocar o pai de sua zona de domínio musical e colocá-lo diante do texto, a peça expõe o envelhecimento como um processo de abertura e de aprendizado sem hierarquias.

A encenação transita entre o documentário e o happening, costurando elementos cotidianos e artísticos. No mesmo espaço em que ficam os tímpanos sinfônicos e ecoam os versos ingleses, ouve-se o ruído das rodinhas de um skate. Marco transita entre a orquestra e a rua, unindo memória e risco físico. Julia atua como a âncora cênica dessa dinâmica, sustentando o andamento e o humor do jogo em cena.

O que se apresenta em “Meu Pai, Hamlet” vai além do registro familiar. A encenação utiliza o relato íntimo para falar sobre relações geracionais, lutos e heranças. Ao adotar o erro e o imprevisto como opções estéticas, o espetáculo busca a presença do real no palco, mostrando que o teatro pode deslocar a alta cultura de seu pedestal para transformá-la em diálogo e tempo compartilhado.

A imagem do pai-atriz e da filha-musicista permanece como um chamamento para uma experiência sensível e singular, mas a profundidade dessa experiência permanece como uma promessa a ser confirmada.

Se o espectador vai ao teatro esperando o rigor de uma engrenagem dramática perfeita, a peça parecerá fragmentada e amadora. Mas, se ele aceita o convite para testemunhar um happening, a própria falha ou o nervosismo deixam de ser erros e passam a ser os momentos mais honestos da noite.

Três perguntas para…

… Julia Pedreira

Como foi o processo de dirigir o próprio pai, deslocando-o da música para o texto shakespeariano, e ao mesmo tempo se colocar no lugar da execução musical?

Foi um processo orgânico e desafiador. Existia um espanto em experimentar o ofício um do outro e se ver alternando entre os papéis de aprendiz e professor. Meu pai vem de uma formação rigorosa da música sinfônica, em que a partitura, o ritmo e a repetição organizam o corpo. Ao trazer ele para o texto, eu não queria que ele “atuasse”, mas que pudesse existir ali, numa zona mais vulnerável e imprevisível. Ao mesmo tempo, eu precisei me aproximar da lógica dele: da contagem, da métrica, do gesto repetido.

Nesse processo, me dei conta de um paradoxo: quanto mais eu tentava me tornar percussionista, mais percebia em mim uma atriz quase “erudita”, ligada à precisão e ao controle. E meu pai, quanto mais adentrava a cena, se revelava um ator da ginga, do improviso e da entrega. É como se estivéssemos nos reencontrando com nós mesmos ao nos deslocarmos para outras práticas.

Você atua como uma “âncora cênica” para o Marco na peça. Como é o trabalho invisível de sustentação e improviso para garantir que o jogo flua, mesmo diante do imprevisto?

Existe um trabalho de escuta muito intenso e de abertura que tem me ensinado muito. Não posso desligar um minuto, e isso me dá uma sensação de presença muito forte. É como se eu estivesse tecendo a dramaturgia ao vivo. Essa peça foi construída a partir da presença, do ritmo e da relação. Então, preciso estar o tempo todo atenta às respirações, hesitações e pausas do meu pai, enquanto ele segue movimentando as peças do jogo.

Ao invés de tentar controlar o imprevisto, fomos incorporando certa instabilidade à própria peça. Assim, a falha, o atraso e o esquecimento também fazem parte dela. É muito bonito perceber como o “erro” ou descompasso são tão importantes quanto o “acerto”. Não há hierarquia entre essas duas coisas; são apenas possibilidades distintas que se sobrepõem.

Ao retirar a alta cultura de seu pedestal, “Meu Pai, Hamlet” propõe um diálogo geracional direto. Que tipo de fissura você espera abrir na tradição teatral ao cruzar o teatro clássico com a performance e o cotidiano?

Nunca pensei em “quebrar” a tradição. A peça nasceu porque meu primeiro papel na Escola Livre foi justamente o fantasma, pai de Hamlet, e meu pai guardava a memória de ter me visto em cena naquele dia. Comecei a me reaproximar dessa peça pelos olhos dele; assim como ele se reencontra com a “Sagração da Primavera”, de Stravinski, a partir da minha memória. Esse intercâmbio é muito fundante no trabalho.

Fomos nos aproximando de “Hamlet” e da “Sagração” não como monumentos da alta cultura, mas como matérias vivas da memória, capazes de entrar na sala de casa, no humor e nas dúvidas. Me interessa quando o clássico perde um pouco a solenidade e pode ser contaminado pela vida comum, e quando a vida comum também pode ser atravessada por essas obras.

Teatro Estúdio – rua Conselheiro Nébias, 891 – Campos Elíseos, região central. Sábado e domingo, 17h. Até 14/6. Duração: 50 minutos. Classificação indicativa: livre. A partir de R$ 40 (meia-entrada) em sympla.com.br


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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