Tem uma garrafa que eu sempre associo ao recomeço. Não é a mais cara. Não é a mais famosa. É aquela que você abre quando já sabe o que está fazendo — quando a mão não treme mais, quando você escolhe com calma, quando o prazer substituiu a pressa.
A segunda união, um segundo casamento tem isso. Ou o segundo amor sério. Ou qualquer amor que veio depois de uma história que doeu o suficiente para ensinar alguma coisa.
Na voz de Sinatra (que se casou não uma, mas quatro vezes), a canção The Second Time Around (Sammy Cahn / Jimmy Van Heusen, 1960) resume o tema:
Love is lovelier, the second time around
Love’s more comfortable, the second time you fall
O amor é mais lindo, na segunda vez. O amor é mais confortável, na segunda vez que você se apaixona.
Quem passou por um amor que não deu certo carrega um vocabulário renovado. Sabe reconhecer o que é profundo e o que é superfície. Sabe que euforia não é sinônimo de solidez — assim como um vinho muito perfumado na abertura pode decepcionar no final, e um vinho fechado, quase hostil nos primeiros minutos, pode se revelar extraordinário com o tempo.
Os grandes rótulos de guarda funcionam sempre assim. Um barolo jovem, por exemplo, pode parecer inacessível. Taninos duros, acidez marcada, certa rispidez que afasta quem não está disposto a esperar o tempo da maturação.
Mas quem tem paciência — ou quem já aprendeu que as coisas boas pedem tempo — sabe que ali, naquela resistência toda, existe algo raro. Algo que vai se abrindo devagar, ganhando camadas, revelando uma complexidade que o vinho jovem e fácil nunca vai alcançar.
Os amores de segunda vez têm essa textura. Não chegam dançando. Chegam com história. Com uma ou duas arestas. Com alguém que já sabe o que não quer — e isso, ao contrário do que parece, é um presente. Dos melhores.
Existe também uma liberdade diferente nesses amores. A leveza de quem não precisa mais provar nada. A segurança de quem já sobreviveu a uma perda e sabe que vai sobreviver a qualquer coisa que vier pela frente.
Esse chão firme muda tudo — na relação com o outro e na relação com o vinho. Você para de beber para impressionar. Começa a beber para sentir.
Neste Dia dos Namorados, um brinde especial para quem está vivendo um amor de segunda vez. Para quem teve coragem de recomeçar. Para quem aprendeu que vulnerabilidade não é fraqueza — é o único caminho real para a intimidade. Para quem abriu uma garrafa difícil, esperou, e foi recompensado.

Fontanafredda Barolo 2020
Um barolo em estilo clássico, de uma safra de tintos acessíveis desde jovens, mas com potencial de guarda. No nariz, revela notas de cereja, alcaçuz, rosa, especiarias e tabaco. Paladar persistente, com taninos presentes, porém refinados. Sugiro decantação por uma hora. R$ 399,90, na Wine.
Chandon Réserve Brut
Elaborado pelo método charmat, com chardonnay, pinot noir e riesling itálico. Estágio em tanques de aço inoxidável com as leveduras. Cor amarela com borbulhas finas. Aroma elegante, notas de frutas cítricas, flores brancas e leve tostado. Paladar vibrante, boa acidez e final persistente. 11,8% de álcool. R$ 139,90, na Evino.
Publicado em VEJA São Paulo de 5 de junho de 2026, edição nº 2998.
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Fonte.: Veja SP Abril


