O segredo para chegar aos 92 anos lúcida e feliz? Bom humor. Assim provou Rita de Cássia Navarro Carvalho, que viveu com alegria, fé e curiosidade. Seu interesse pelo conhecimento lhe permitia manhãs inteiras imersa na leitura de seu jornal preferido, a Folha.
Leitora fiel, assídua e exigente, não tolerava falhas na entrega, fazendo reclamação sempre que acontecia.
Muito atenta, fotografava reportagens que julgava interessantes e as enviava à família, mantendo vivo o diálogo e o interesse pelas notícias, conta o filho, Eduardo Navarro. “Seu último gesto em plena saúde foi ler a Folha, no domingo, pouco antes de ir para o hospital.”
Cada matéria vinha acompanhada de sua interpretação pessoal. Escutava também canais de notícias e tirava suas conclusões sobre os assuntos, interpretando as várias fontes de informação, ressalta a filha Claudia Navarro.
Atualizada e conectada, Rita adotou com naturalidade a tecnologia. Desde jogos de paciência até movimentações bancárias e compras pela internet. “Digitou todas suas receitas, tinha suas fotos todas organizadas, e diariamente trocava mensagens por WhatsApp“, lembra a filha.
“Uma mulher lúcida, interessada e em sintonia com seu tempo”, observa o filho, recordando que a mãe era muito culta e amava a leitura. Lia um livro por semana. Os mais recentes: “Nexus” (Yuval Harari), “Torto Arado” (Itamar Vieira Jr) e romances de Carla Madeira.
Gostava de tudo que pudesse lhe acrescentar conhecimento. Pela manhã, lia a Folha. À tarde, seus livros. À noite, rezava, sendo devota de Nossa Senhora das Graças, e via jornais pela televisão, com destaque para os esportivos. “Assistiu presencialmente a três Copas do Mundo, na Alemanha, na Rússia e no Brasil.”
Foi adorada por amigos, em especial pelas crianças e sobrinhos. “Nossas conversas confidenciais, inconfessáveis. Respeito mútuo. Sem julgamento. Afinidade quase palpável, puro amor”, destaca a sobrinha, Ruth Navarro.
Rita foi também uma mãe carinhosa e exemplar, que ajudava na lição de casa, sempre preocupada com a educação e a formação humana dos filhos. Respeitava suas escolhas e vibrava com suas conquistas. “Nos preparou para o mundo, tendo como base o respeito a todos e a busca pelos nossos sonhos. Seus exemplos valeram mais do que seus ensinamentos”, percebe Claudia.
Nascida em Araxá (MG), foi a caçula de seus sete irmãos. Na adolescência, mudou-se para Belo Horizonte e estudou pedagogia, sendo professora primária. Casada com João Bosco, ficou viúva aos 57 anos. Dona de uma bela voz, quando jovem, chegou a cantar tango na rádio, música que embalou sua última viagem, em dezembro de 2025, para Buenos Aires. “Deixou a certeza de que viver vale a pena”, diz a filha.
Entre suas características marcantes, o caráter, a generosidade e a alegria de viver de forma saudável, organizada e planejada. “Exemplo de sabedoria e um porto seguro. Uma mulher única e especial. Forte e serena. Soube viver e soube partir”, conclui Claudia.
Rita morreu em 23 de maio, por tromboembolismo pulmonar. Deixa 2 filhos e 1 neto.
Fonte.:Folha de S.Paulo


