Clavicular ganha a vida dizendo aos outros quanto seus rostos valem. Virou sucesso na internet ao encarnar a promessa de que marteladas no maxilar, somadas a estratégias ainda menos convencionais, poderiam transformar um “subumano” num “semideus”, os dois polos da hierarquia que organiza seu mundo. Em poucos meses, converteu-se numa espécie de Bryan Johnson do looksmaxxing, cultura saída das vizinhanças incel que promete tirar o rosto do campo da sorte.
As notas que ele distribui por onde passa são demolidoras. A sala pode rir, o entrevistador pode tentar salvar a cena com uma piada, mas Clavicular segue impávido, professando suas análises como o plantonista que lê a ficha do último acidentado. É que a crueldade tem método: grau de inclinação dos olhos, ângulo da mandíbula, proporção entre os terços do rosto e outros fatores da escala PSL, criada em fóruns nos quais a humilhação erótica virou sistema de classificação.
Há quem veja na falta de ciência dos looksmaxxers a prova de que beleza é apenas gosto. Erro. Opiniões convergem mais do que gostaríamos. Um rosto bonito no Japão dispensa apresentações no Brasil. O mesmo vale para cães, flores ou frutas. Quem psicologiza transforma cada preferência em autobiografia; quem culturaliza reduz cada gosto a tribo; mas fato é que até recém-nascidos olham por mais tempo para faces que adultos consideram atraentes.
Esse raciocínio esconde uma consequência radical. Se a beleza existe em si mesma, nada impede a aparição de humanos superestéticos —mais belos do que qualquer um avistável por aqui. A hipótese parece nova, mas vem sendo testada pela arte há milênios. Por volta de 400 a.C., Zeuxis foi chamado para pintar Helena de Troia e não encontrou mulher à altura do mito. Escolheu várias jovens de Crotona e tomou de cada uma as partes mais vistosas. O ideal nascia como montagem.
Quando a onda dos fakes por IA começou, ninguém imaginava que ela se alastraria menos como fraude do que como indígenas de seios altos e pele perfeita, torcedoras de decotes patrióticos, cada uma a mais bela de seu país, e homens de feições benignas e olhares predatórios. São eles, os fantasmas da máquina, a verdade mais profunda dos looksmaxxers.
Só que essa verdade não surge da montagem correta de partes, como supuseram Zeuxis, Clavicular e o cânone que se formou entre eles; ela surge no espaço latente de uma rede neural, segundo princípios inacessíveis até para seu criador. Nesse território de todos os rostos possíveis, a máquina vagueia até encontrar as regiões raras em que quase nada falha.
O rapaz americano está certo ao apostar que a aparência obedece a padrões e pode ser corrigida. Dentes alinham, poros se fecham, cirurgias funcionam. Seu engano é estender o raciocínio do reparo local até o topo da escala, onde, como revelam os influencers sintéticos, vigora uma geometria sem corpo, tempo ou acaso, pouco afeita à régua e ao compasso.
Ele é menos um excêntrico da estética do que o devoto de um ideal incompatível com a carne. Prega que tudo se alcança por método e atrai multidões de jovens ansiosos por transformar vergonha em mapa e angústia em protocolo. Porém, no jogo do propósito algorítmico, seu personagem sempre perde. Acredita estar vencendo uma disputa com a vida, mas joga a velha partida contra a morte.
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Fonte.:Folha de S.Paulo


