Muito antes de os fundadores da Kalshi e da Polymarket nascerem, um grupo de economistas já se entusiasmava com uma abordagem inédita para lidar com uma das limitações mais evidentes da humanidade: a dificuldade de prever o futuro.
A ideia era que o livre mercado poderia ajudar — afinal, era o fim dos anos 1980, o auge do reaganismo e do capitalismo triunfante. Foi assim que nasceu o mercado de previsões americano moderno.
Quase 40 anos depois, o setor que esses acadêmicos ajudaram a inspirar se tornou um negócio de bilhões de dólares, impulsionado sobretudo por apostas esportivas — e tem pouco a ver com o que eles imaginaram.
Em 2008, frustrados com os obstáculos regulatórios, 19 economistas publicaram um artigo na revista Science intitulado “The Promise of Prediction Markets“, defendendo que esses instrumentos de previsão deveriam ser “libertados de restrições governamentais desnecessárias” e aplicados a eventos economicamente relevantes, como eleições, riscos ambientais e política monetária.
Desde então, os mercados de eventos se expandiram para praticamente qualquer tema. Não são bolas de cristal perfeitas, e a sabedoria das multidões pode ser enganosa, mas acumularam algumas vitórias notáveis.
A Polymarket, por exemplo, superou as principais pesquisas e analistas ao prever a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2024. Traders também anteciparam com consistência dados econômicos relevantes, como a taxa de inflação dos EUA e as decisões de juros do Federal Reserve.
Mas quando os 19 economistas descreveram seu cenário ideal, o fizeram com salvaguardas claras em mente.
Os mercados “presumivelmente não incluiriam contratos sobre resultados de eventos esportivos”, e os apostadores deveriam ter um limite de contribuição modesto — algo em torno de US$ 2.000 por ano (cerca de US$ 3.000 em valores atuais).
Com a explosão das apostas esportivas na Polymarket e em plataformas similares, e sem praticamente nenhum teto para as apostas, as coisas não saíram como planejado.
“Este não é o futuro que nenhum de nós esperava”, disse Justin Wolfers, professor da Universidade de Michigan e um dos principais especialistas em mercados de previsão, que coassinou o artigo de 2008, em entrevista à CNN.
Apostas versus negociações
Atualmente, a grande maioria das operações nas principais plataformas de previsão gira em torno de esportes e cultura pop — apostas em cobranças de pênalti na Copa do Mundo ou no casamento de Taylor Swift e Travis Kelce que, embora divertidas, não são os eventos “economicamente relevantes” que os economistas tinham em mente.
Os esportes são um aspecto particularmente preocupante para especialistas em saúde pública.
Nos últimos 30 dias, mercados esportivos e combinações de apostas esportivas representaram cerca de 84% do volume total negociado na Kalshi, ou aproximadamente US$ 18,5 bilhões, segundo dados da empresa de pesquisa TickerTracker.
Já para o site voltado ao público americano da Polymarket, lançado em maio, os mercados esportivos corresponderam a cerca de 99% do volume total negociado no último mês, ou aproximadamente US$ 2,1 bilhões. No site internacional da Polymarket, a média anual de volume esportivo representa menos de 50% do total.
Tanto a Kalshi quanto a Polymarket argumentam que as operações em suas plataformas são distintas de apostas. Elas oferecem “contratos” de eventos estruturalmente semelhantes à negociação de futuros de soja.
Ao contrário de um cassino ou casa de apostas, as empresas não têm uma “banca” ou operador para definir as odds e gerenciar as apostas.
Na prática, porém, comprar uma “cota” que prevê o título do New York Knicks no campeonato da NBA na Kalshi ou na Polymarket não se distingue de fazer uma aposta em plataformas como FanDuel ou DraftKings.
E como a lei americana não trata contratos financeiros da mesma forma que apostas, os mercados de previsão estão disponíveis para qualquer pessoa com mais de 18 anos.
As origens do mercado de previsões
Apostar em eventos futuros não é novidade, mas o modelo moderno que a Kalshi e a Polymarket utilizam pode ser rastreado até um almoço informal em 1988, em um restaurante em Iowa City chamado Airliner.
Foi lá que três economistas da Universidade de Iowa — Robert Forsythe, George Neumann e Forrest Nelson — se reuniram para comer, beber e reclamar do quanto as pesquisas haviam errado nas primárias democratas de Michigan no dia anterior, quando Jesse Jackson derrotou amplamente Michael Dukakis.
“Nós três dissemos: “Bom, se fôssemos prever uma eleição, o que faríamos?” E, como economistas, o que nos veio mais naturalmente foi: vamos criar um mercado””, recordou Forsythe em entrevista.
Os três lançaram o Iowa Political Stock Market, hoje chamado Iowa Electronic Markets, como um experimento para testar se a sabedoria coletiva se tornava mais precisa quando os participantes tinham dinheiro real em jogo.
Com apenas 200 participantes recrutados entre funcionários da universidade e apostas limitadas a US$ 500, o mercado de Iowa previu com precisão que George H.W. Bush obteria 53,2% dos votos populares.
A previsão para Dukakis errou por uma margem mínima: 45,2% contra os 45,4% reais. Forsythe, Neumann e Nelson estariam entre os 19 coautores do artigo de 2008.
A promessa e os riscos
Forsythe, como muitos economistas ouvidos pela CNN, ainda acredita na utilidade fundamental dos mercados de previsão. Mesmo Wolfers, provavelmente o mais crítico em relação aos danos causados por plataformas como a Kalshi e a Polymarket, defende a tese central.
“Um problema econômico fundamental é: como agregamos informações?”, disse Wolfers. “Eu acreditava antes, e ainda acredito, que os mercados são uma forma incrivelmente eficiente de fazer isso… A maioria das alternativas é bastante ruim, e os mercados parecem ser menos ruins.”
Economistas também apontam vantagens potenciais na antecipação da demanda dos consumidores. No início deste mês, um bar em Manhattan realizou uma promoção prometendo pagar as bebidas dos clientes caso o Knicks vencesse o primeiro jogo das Finais da NBA.
Como proteção, o bar apostou US$ 5.000 na vitória do Knicks e lucrou US$ 8.000, quase cobrindo a conta das bebidas, segundo o New York Times.
Os mercados podem até ajudar a combater a desinformação: pesquisadores da Universidade Columbia descobriram recentemente que participar de um “mercado de previsões climáticas” incentivou céticos a aprender sobre ciência climática e a apoiar políticas ambientais.
No entanto, os riscos são reais. “As evidências estão se tornando inegáveis de que há taxas crescentes de vício, especialmente entre homens jovens”, disse Danny Funt, autor do livro “Everybody Loses”, que narra o boom das apostas esportivas nos Estados Unidos.
Um estudo do Federal Reserve de Nova York, publicado em março, constatou que a inadimplência no crédito, especialmente entre pessoas com menos de 40 anos, aumentou nos mais de 30 estados que legalizaram apostas esportivas desde 2018, quando a Suprema Corte derrubou uma proibição federal.
A maioria dos economistas ouvidos pela CNN não quer ver os mercados de previsão proibidos, mesmo que atualmente dominados por apostas esportivas e de cultura pop. Essas apostas “divertidas” trazem dinheiro, tornando os mercados mais líquidos e melhorando sua precisão.
Robin Hanson, um dos signatários mais libertários do artigo de 2008, disse à CNN que não se preocupa com as apostas esportivas e teme mais uma reação contrária que freie o setor.
Eric Zitzewitz, outro coautor do artigo e professor em Dartmouth, sugeriu que, embora comportamentos semelhantes ao jogo possam estar ocorrendo nas plataformas, elas podem estar sendo injustamente difamadas, já que os mercados “divertidos” ajudam a atrair atenção para mercados mais relevantes, como previsões de lucros corporativos e projeções de Wall Street.
Wolfers, que trabalhou para casas de apostas profissionais em sua Austrália natal, é o mais explicitamente preocupado com os mercados de previsão facilitando apostas esportivas. “Se você me der a escolha entre um laissez-faire irrestrito nas apostas ou fechar tudo… acho que ainda há um argumento razoável para fechar tudo”, afirmou.
Como análise de custo-benefício, ele simplifica: se 100 pessoas apostam em um jogo de beisebol, talvez uma ou duas sejam apostadores compulsivos. “A questão é: vale a pena 98 pessoas aproveitarem o jogo um pouco mais para abrir a possibilidade de duas destruírem suas vidas?”
Fonte: CNN Brasil


