A piora nas projeções de inflação exigiria “variações abruptas de direção e de grande magnitude” na taxa básica de juros (Selic) para colocar a inflação na meta, mas o Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu adotar uma trajetória mais suave, mostra ata divulgada pelo Banco Central nesta terça-feira (23).
“O comitê debateu que esse conjunto de resultados deve ser ponderado à luz das melhores práticas de política monetária, recomendando não reagir integralmente a variações de preços decorrentes de choques de oferta, que no momento atual incluem incertezas relevantes”, diz a ata, citando as consequências dos conflitos no Oriente Médio e os impactos do El Niño.
Na última quarta-feira (17), o Copom fez o terceiro corte de 0,25 ponto percentual na Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano, embora a própria autoridade monetária tenha reconhecido uma piora nas expectativas para a inflação.
Para justificar a decisão, o BC optou por olhar de forma antecipada para as projeções do primeiro trimestre de 2028, o que permitiu uma condução mais suave dos juros. A escolha, no entanto, gerou ruído no mercado, que a interpretou como sinal de maior tolerância com inflação acima da meta.
No cenário de referência do Copom, a projeção de inflação piorou de 4,6% para 5,2% neste ano e de 3,5% para 3,7% em 2027 —ambas acima da meta de 3% ao ano.
O BC ainda incluiu os estímulos à demanda agregada (sobretudo ao consumo) como um fator de risco para a alta de preços, o que foi lido como alusão às medidas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para estimular o crédito —muitas delas com juros subsidiados, o que atrapalha a eficácia da política monetária na desaceleração da atividade e dos preços.
Ainda assim, o BC manteve a trajetória de redução da Selic e decidiu olhar de forma antecipada para as projeções do primeiro trimestre de 2028, que só passariam a ser o alvo oficial da política monetária na próxima reunião do Copom, em agosto.
Na reunião de junho, o chamado “horizonte relevante”, que deve ser levado em consideração nas decisões e reflete o tempo necessário para que os juros façam efeito, era o último trimestre de 2027.
Ao justificar a escolha, o Copom disse que a taxa de juros necessária para levar a inflação à meta no fim de 2027 poderia derrubar o índice para menos de 3% no primeiro trimestre de 2028. No entanto, o comunicado não detalhou suas projeções para esse horizonte de tempo.
A maior parte do mercado já esperava um novo corte na Selic em junho, mas o comunicado acabou gerando ruído diante da percepção de maior tolerância do BC com inflação acima da meta.
O alvo central é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. No atual modelo de meta contínua, o objetivo é considerado descumprido quando a inflação acumulada permanece durante seis meses seguidos fora do intervalo, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto).
O Copom voltará a se reunir nos dias 4 e 5 de agosto, no quinto dos oito encontros previstos para o ano.
Folha Mercado
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Fonte.:Folha de S.Paulo


