A ata do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) divulgada nesta terça-feira (23), reforça um cenário de cautela, ao passo que não dissipa todas as dúvidas sobre a trajetória da Selic levantadas pela última decisão acerca da Selic, dizem economistas.
Na última quarta-feira (17), o BC cortou a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano. No documento que discorre sobre a medida, a autoridade traz um cenário de inflação elevada e de expectativas sobre a alta de preços acima da meta perseguida pelo BC, de 3%, com margem de 1,5 ponto percentual para mais e para menos.
“Documento é dúbio. Deixa a pausa nos cortes da Selic, ou a continuidade, muito em aberto”, diz Gustavo Bertotti, diretor de renda variável da Fami Capital. Segundo o economista, o comunicado da decisão da semana passada foi mais duro contra o aumento de preços que a ata desta terça.
“A ata é muito suave diante da deterioração macroeconômica. As expectativas mudaram muito nos últimos meses, dado o cenário geopolítico e o risco fiscal, com muito incentivo a consumo e a crédito. O horizonte de incerteza do BC é muito grande e as próximas decisões do Copom devem ser feitas reunião a reunião”, complementa Bertotti.
Segundo a pesquisa Focus, economistas esperam uma inflação maior em 2026, em 2027 e em 2028.
“Quando as expectativas sobem mesmo com juros elevados, o problema deixa de ser apenas monetário e passa a envolver credibilidade”, diz Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos.
Ela afirma que a atividade econômica do Brasil continua surpreendendo positivamente, com aceleração do crescimento no primeiro trimestre, mercado de trabalho resiliente e aumento da renda real. Tal cenário, diz a especialista, dificulta a desaceleração da inflação de serviços, um dos pontos de maior preocupação do Copom.
“O investidor amanhece, portanto, diante de uma mensagem clara. Os juros começaram a cair, mas o Banco Central ainda não está confortável com a trajetória da inflação nem com o comportamento das expectativas. O mercado não procura apenas novos cortes da Selic. Procura sinais de que inflação, credibilidade e contas públicas voltarão a caminhar na mesma direção. E essa resposta continua em aberto”, diz Olívia.
Folha Mercado
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Outros pontos de atenção são o El Niño e a Guerra do Irã, cujos efeitos finais ainda são incertos, o que poderia levar os juros a ficarem em patamar elevado, sem maiores cortes.
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, diz que a ata do Copom indica que a Selic terminal tende a ser mais alta do que se projetava anteriormente
Sua expectativa é de manutenção da taxa na reunião de agosto, em 14,25%, e de um corte posterior, encerramento do ano em 13,75%.
“Se os conflitos no Oriente Médio arrefecerem e as tensões diminuírem, com o preço do petróleo já abaixo de US$ 80, o quadro tende a ser mais benigno para a inflação, sobretudo no segundo semestre. O Banco Central toma, portanto, a postura adequada de esperar para, na próxima reunião, decidir de forma mais calibrada”, diz Sung.
Para analistas, um Copom menos disposto a acelerar o afrouxamento monetário pode sustentar juros futuros mais altos e frear o ímpeto do mercado de renda variável.
“É possível que o comunicado da semana passada não tenha sido suficientemente claro ao transmitir essa estratégia aos investidores. Agora, resta saber se a ata será capaz de reduzir parte do mal-estar observado nos mercados”, diz Leonel Oliveira Mattos, analista da StoneX.
Fonte.:Folha de S.Paulo


