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23 de junho de 2026

Baixa natalidade e envelhecimento ameaçam economia brasileira

Baixa natalidade e envelhecimento ameaçam economia brasileira

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A queda da natalidade no Brasil deixou de ser apenas um desafio social e passou a ameaçar diretamente o crescimento econômico e o equilíbrio das contas públicas. Com menos jovens no mercado de trabalho e mais aposentados, o país caminha para um cenário de menor produtividade, pressão fiscal e estagnação. Diante do fim do bônus demográfico, especialistas alertam que governos eleitos a partir de 2026 terão de enfrentar um debate até agora evitado: como ampliar a população economicamente ativa e sustentar o crescimento no longo prazo.

O rápido envelhecimento da população, combinado à redução no número de nascimentos, tende a elevar de forma estrutural os gastos públicos com previdência, saúde e assistência social. A ausência de políticas de apoio às famílias não explica sozinha esse cenário, mas contribui significativamente para agravá-lo.

“Com menos nascimentos e um envelhecimento acelerado, cresce a pressão sobre os sistemas de previdência, saúde e assistência social ao mesmo tempo em que se reduz, proporcionalmente, a base de pessoas em idade ativa”, afirma Pedro Hollanda, doutor em Administração e especialista em gestão de pessoas. Segundo ele, à medida que as famílias se tornam menores e mais frágeis, o Estado passa a assumir funções de cuidado antes desempenhadas, ao menos em parte, por redes familiares e comunitárias.

Além dos impactos diretos sobre previdência e saúde, há também efeitos indiretos associados à fragilização das estruturas familiares. Para o sociólogo Marcelo Couto, doutor na área, o enfraquecimento dos vínculos tende a elevar problemas como evasão escolar, baixo desempenho acadêmico e dificuldades de inserção no mercado de trabalho. Fatores que, no longo prazo, comprometem a produtividade da economia.

“O Estado acaba arcando com uma série de consequências quando a família não consegue cumprir plenamente seu papel. Há mais evasão escolar, pior desempenho educacional e maior necessidade de intervenção pública”, afirma Couto.

Baixa produtividade agrava envelhecimento populacional

O Brasil enfrenta há décadas um problema estrutural de produtividade, que limita seu potencial de crescimento. Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que o país ocupa apenas a 94ª posição em produtividade do trabalho entre 184 países e territórios.

Esse ponto torna o enfrentamento da transição demográfica ainda mais delicado. “Já perdemos o bônus demográfico e estamos envelhecendo antes de resolver problemas básicos de produtividade, qualificação e inserção no mercado de trabalho”, afirma Hollanda.

O indicador da OIT considera o PIB dividido pelo total de horas efetivamente trabalhadas, permitindo que a comparação da eficiência produtiva entre economias. Pela métrica, a produtividade brasileira é de cerca de US$ 21,1 por hora trabalhada comparado com o poder de compra (quanto aquele dinheiro realmente compra em cada país). O valor é bem abaixo de países desenvolvidos como os Estados Unidos (US$ 81,8) e a Irlanda (US$ 164,6), e até inferior à de vizinhos regionais como a Argentina (US$ 33,8).

O baixo desempenho não decorre de falta de trabalho. Os brasileiros trabalham, em média, 38,9 horas por semana. Mais do que economias mais produtivas como os Estados Unidos (37,5 horas) e a Argentina (36,5 horas). A comparação de horas de trabalho com a produtividade aponta que o problema central não é esforço, mas eficiência. Sem ganhos de produtividade, o país corre o risco de crescer menos justamente quando terá menos trabalhadores para sustentar a economia e as contas públicas.

Incentivos têm alcance limitado diante de mudanças sociais

Apesar da crescente pressão econômica provocada pela queda da natalidade, os especialistas alertam que políticas públicas têm capacidade limitada de reverter essa tendência por si só. Isso porque a decisão de ter filhos está cada vez mais associada a fatores culturais e subjetivos, que extrapolam incentivos financeiros ou medidas de curto prazo.

Segundo Couto, o avanço do individualismo e a redefinição de prioridades ao longo das últimas décadas reduziram o peso da formação de família nos projetos de vida. Ainda assim, há espaço para atuação governamental, especialmente na redução de barreiras práticas à formação de famílias.

O sociólogo aponta que estudos indicam um descompasso relevante entre o número de filhos que as pessoas gostariam de ter e o que efetivamente conseguem ao longo da vida. “Em geral, as pessoas desejam ter mais filhos do que acabam tendo. Existe um gap importante entre fecundidade desejada e realizada”, destaca.

Ainda de acordo com ele, esse descompasso está associado a dificuldades concretas, como custo de criação dos filhos, instabilidade profissional, falta de redes de apoio e insegurança em relação ao futuro. É nesse intervalo entre intenção e realidade que políticas públicas podem exercer maior influência.

Hollanda observa, inclusive, que medidas pensadas para outras áreas também podem impactar a fertilidade. “O teletrabalho, por exemplo, é uma política que não é voltada diretamente para a promoção da fertilidade ou para facilitar o cuidado com os filhos, mas há abundante evidência de que aumenta a intenção de ter filhos e a fertilidade em si”, afirma.

“Um working paper [versão preliminar de pesquisa] publicado em março de 2026 pela National Bureau of Economic Research indica que a estimativa de fertilidade ao longo da vida é 0,32 filhos maior por mulher quando ambos os parceiros trabalham em casa um ou mais dias por semana, em comparação com o caso em que nenhum deles o faz”, acrescenta.

Políticas públicas precisam ser estruturadas e a longo prazo

Os especialistas ressaltam que políticas voltadas à natalidade só tendem a produzir resultados consistentes quando estruturadas como políticas de Estado, com horizonte de longo prazo e estabilidade institucional.

“Para que haja efeito, é necessário construir redes de apoio duradouras, com previsibilidade e continuidade. Não basta criar programas pontuais ou temporários”, afirma Couto.

Isso envolve investimentos contínuos em creches, educação, saúde e serviços de cuidado, além da criação de mecanismos que reduzam a insegurança das famílias ao longo do tempo. Na avaliação do sociólogo, iniciativas fragmentadas podem até gerar efeitos marginais, mas dificilmente serão suficientes para alterar de forma significativa a trajetória demográfica do país.

“A decisão de ter um filho é uma escolha para a vida toda. É pouco provável que casais baseiem esse tipo de decisão em programas circunstanciais”, afirma Couto. “Medidas como redução temporária de jornada ou incentivos fiscais podem ajudar no curto prazo, mas não oferecem segurança sobre como será o cenário daqui a cinco anos, por exemplo”, conclui.



Fonte. Gazeta do Povo

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