Em praticamente qualquer viagem para Orlando, na Flórida, orelhinhas arredondadas pretas aparecerão na sua cabeça —e não é pouco provável que sua ida para lá seja exatamente por isso.
Mas Polk County, na Flórida Central, apenas alguns quilômetros à frente da casa do Mickey, do Magic Kingdom e de outros parques da região, quer um minuto da sua atenção e promete, em troca, uma experiência um pouco diferente, algo mais econômico e algumas atrações a mais que podem estar fora do radar usual dos visitantes.
Polk County —ou condado de Polk— vende a ideia de que pode servir como uma base mais em conta para os volumosos visitantes brasileiros que visitam os diversos parques da Disney World.
O Brasil, ,, é um mercado de grande interesse para a região, continuamente entre as principais nacionalidades de turistas nos Estados Unidos, com números próximos a 2 milhões de visitantes anuais. Além disso, segundo o próprio governo americano, os brasileiros que vão aos EUA costumam gastar bastante —valores superiores a US$ 5.000 a cada viagem— e passar mais tempo que outras nacionalidades. E o destino de entrada mais comum é a Flórida.
Davenport, uma cidade que viu sua população sair de 2.888 em 2010 para uma estimativa de mais de 16 mil, em 2024, é o local que concentra mais opções de casas para locação na Flórida Central —segundo o Visit Central Florida, 80% das 7.000 casas de aluguel da região estão ali.
A cidade fica a cerca de 1h de carro do centro de Orlando (cerca de 50 km) e a uns 30 minutos do Walt Disney World (pouco mais de 20 km). Ali, é possível encontrar casas inteiras para locação por curtos períodos —algo que pode ser interessante especialmente para viagens em família—.
Mas Polk County, do qual Davenport faz parte, tem suas próprias atrações —um tanto mais pacatas em comparação à vizinhança, claro— e não se pinta somente como uma área para se descansar após um dia hiperativo em parques temáticos ou bateção de perna para compras e alguma agitação por Orlando.
Com mais de 500 lagos, a região possui uma rede deles conectados, especialmente Winter Haven —que gosta de ser chamada de a capital mundial do ski aquático (voltaremos a isso mais a frente). É possível fazer um amplo tour com barcos pontoon, que pode chegar a 5h, entre parte deles, observando pássaros —como a ave símbolo dos EUA, as águias-de-cabeça-branca (bald eagle, em inglês; Haliaeetus leucocephalus), anhingas (snakebird; Anhinga anhinga) e águias-pescadoras (osprey; Pandion haliaetus).
As casas na beira dos lagos são outra observação —um tanto mais mundana, sem dúvida— possível no local. A depender do guia, além da observação e informação sobre hábitos de aves, é possível saber sobre a vida profissional de um ou outro morador que esteja, por exemplo, ampliando a área construída de sua propriedade e os possíveis valores dos casarões.
Se quiser manter a veia aquática em curso, a próxima parada pode ser no lago Kissimmee, em um município vizinho, para um barulhento passeio de airboat —aqueles barcos com uma enorme hélice atrás que você certamente já viu em filmes. Enquanto se desliza sobre a água e a audição fica protegida do barulho por protetores de ouvido acompanhados de microfones para comunicação entre as pessoas do barco, os olhos podem desfrutar de mais pássaros, cervos e aligatores —talvez um tanto quanto tímidos quando comparados à plenitude de caimans observada no pantanal brasileiro.
No local, também é possível passar o tempo pescando e até mesmo se hospedar ao redor do lago em motor-homes ou em cabanas disponíveis para locação.
Mantendo a linha dos passeios mais naturais e pacatos, é possível aproveitar a proximidade do lago Kissimmee e dar uma passadinha no quase centenário Bok Tower Gardens, também localizado em Lake Wales.
A atração principal por ali —além da possibilidade de uma tranquila caminhada e uma bela visão do entorno, dado que o local é o mais alto da península da Flórida — é uma imponente “torre cantante” de 62 metros de altura, com inspirações góticas, de igrejas europeias e das fábulas de Esopo. Adornos na construção foram feitos por Lee Lawrie, conhecido pela estátua Atlas no Rockefeller Center, em Nova York.
E por que “torre cantante”? Pela música que dali sai. A torre tem 60 sinos que são tocados a partir de um teclado —instrumento conhecido como carrilhão. Uma curiosidade sobre a torre é que ela e o parque em volta foram construídos por iniciativa do jornalista Edward William Bok, ganhador do Prêmio Pulitzer e por muitos anos editor da revista The Ladies’ Home Journal —que seria a primeira revista no mundo a atingir a marca de 1 milhão de assinantes.
Parques, parques e mais parques
Mas, voltando ao início da saga, digamos que você esteja na Flórida com seus filhos pelas orelhinhas de Mickey e queira manter os parques de diversão como ponto central da aventura.
Além dos parques temáticos clássicos nos arredores de Orlando, Polk County tem ao menos dois para chamar de seus.
Um deles é um parque da Peppa Pig, em Winter Haven. As seis atrações ali presentes são um tanto mais calmas —em relação a outros parques temáticos— e adequadas para famílias com crianças pequenas, de 0 a 4 anos. As diversas filas de carrinhos de bebê estacionados ao redor dos brinquedos não deixam muita dúvida da faixa etária do local.
A montanha-russa do Daddy Pig, é apontada, inclusive, como uma ótima primeira experiência para os pequenos em brinquedos do tipo —a voltinha é rápida, sem grandes velocidades ou subidas e descidas que possam gerar ansiedade ou medo.
Os outros brinquedos também estão longe de ser radicais e são, obviamente, relacionados a personagens da série da Peppa Pig, como a Aventura Dinossaurica do Grampy Rabbit (circuito em que a criança e um familiar montam em um dino que desliza sobre trilhos), o Passeio de Barco do Grandad Dog (o nome é autoexplicativo), o Martelo do Mr. Bull (o clássico elevador de parques, mas em uma versão para os baixinhos), e o Passeio de Balão da Peppa Pig (uma espécie de carrossel que se eleva do solo e permite uma visão de todo parque).
Há ainda outras atrações no local, como uma área com água sendo espirrada para todo lado (a Muddy Puddles Splash Pad), pensada para as crianças —e, consequentemente, seus pais— se molharem mesmo; playgrounds, um cinema e um espaço para apresentações com os personagens da série infantil.
Além dos brinquedos mais leves, o parque da Peppa é relativamente pequeno e a ideia era que assim fosse, como uma forma de tranquilizar os pais para que consigam ter sempre as crianças ao alcance da visão. A ideia, como um todo, segundo o parque, é tentar evitar uma hiperestimulação dos pequenos.
Colado ao parque da Peppa, caminhando por 5 minutos é possível chegar ao Legoland da Flórida, que, além do parque, é um resort onde impera o mundo Lego. No local, há dois hotéis, um deles com a temática de piratas Lego e outro que se divide entre as diversas temáticas adotadas pela empresa de brinquedos.
E realmente há Legos espalhados por todos os lados no parque temático —e nos hotéis também—, algo que pode entreter as crianças, sem dúvidas, mas que pode animar também os adultos que as acompanham —há cerca de 77 milhões de peças em todo o parque propriamente dito. Mas, não se engane, o espaço da Legoland é pensado para crianças. No hotel, inclusive, até os olhos mágicos das portas dos quartos são em alturas que os pequenos alcancem. Nos quartos, a temática Lego está por todo o lado, da cama às amenidades disponíveis no banheiro.
No parque temático da Lego, porém, o público esperado é visivelmente um pouco mais velho, pensado para uma faixa mais próxima ao intervalo de 2 a 12 anos, em comparação ao da Peppa. Por isso mesmo, aqui já há montanhas-russas e outras atrações um tanto mais rápidos e altos.
No interior da Legoland ainda há um parque aquático da Lego e uma área de aquário —ambos com pagamento separado ao da entrada do parque.
Ainda sobre o tema aquático, como mencionado antes, Winter Haven se intitula a capital mundial do ski aquático. Legoland acabou englobando um antigo parque que existia na área, o Cypress Gardens —que precede, inclusive, o próprio parque da Disney—, onde acontecia um famoso show de ski aquático, que começou em 1943 e ocorreu ininterruptamente por décadas. Elementos Lego acabaram incorporados ao show, mas, quando a reportagem visitou o local no fim de 2025, as atividades estavam paralisadas —vale mencionar que o Cypress Gardens Water Ski Team faz shows em outro local em Winter Haven.
Outra curiosidade local é que Cypress Gardens também ficou conhecido por servir de locação para alguns antigos filmes de Hollywood e séries de TV. Não exatamente no Cypress Gardens, mas parte de Edward Mãos de Tesoura, de Tim Burton, foi filmado na região da Flórida Central.
De volta ao Legoland em si, como você deve estar imaginando, há uma área para compra de Legos —com preços compatíveis com o de outros lugares. O mesmo vale para o parque da Peppa, onde também há uma lojinha de produtos da série. Por sinal, é possível fazer a viagem como um pacote, com hospedagem no hotel da Lego e ingressos tanto para o parque da Peppa quanto para a Legoland.
Os dois locais, por sinal, mostram-se preocupados e amigáveis para com crianças com autismo, com inclusive certificação sobre a temática. Há ainda salas de descanso silenciosas para caso as crianças se sintam muito estimuladas.
Apesar da atenção nesse sentido, a alimentação para as crianças que vão ao Legoland pode ser um pouco desafiadora para famílias atentas com o comer saudável. O café da manhã é à vontade e relativamente pesado, com direito a muito bacon, linguiças, batatas fritas, panquecas e biscuits and gravy (uma espécie de pãozinho amanteigado com um molho feito à base da carne). Há também um pratinho de frutas, mas bem reduzido em relação à bandeja com os demais itens. Além disso, há a possibilidade de pedir uma omelete.
E a fartura de comida não termina no café da manhã. O jantar, ao menos no hotel Lego com temática pirata, também é all-you-can-eat, ou seja, a vontade para repetir, e funciona a base dos chamados family platters, basicamente grandes porções de comida colocadas ao centro da mesa para serem divididas.
Como dito no começo da reportagem, os EUA e a Flórida olham com atenção para os brasileiros. E, apesar de a Legoland não divulgar dados oficiais sobre os visitantes, o histórico verde-amarelo é muito claro no local.
Na entrada de uma das atrações do parque, um monitor segurava dois cadernos, um com palavras em espanhol e outro em português. “De nada”, disse ao perceber que estava interagindo com um brasileiro.
Em outro momento, uma monitora da Legoland que faz tours VIPs pelo parque —experiência na qual, basicamente, é possível entrar mais rapidamente em brinquedos e ter um instrutor consigo o tempo todo— mostrou certa fluência em português e disse que muitos dos visitantes VIPs são brasileiros.
O jornalista viajou a convite da Visit Central Florida.
Fonte.:Folha de S.Paulo


