Faço uma pausa nas crônicas mundialinas para constatar, perplexo e babão, que virei pai de uma adolescente.
Neste sábado, 4 de julho do ano da graça de 2026, minha filha O. fez 13 anos. “Absolute teen” – para usar um meme que ela me apresentou e tenho certeza de que estou usando errado.
Se quisesse me manter no clima da Copa diria que é uma pausa para hidratação, mas sabemos que a razão para as interrupções dos jogos não vem do grego “hydra”, mas do latim “argentum“, prata — e se vamos falar de prata, que seja da minha Pratinha. Pratona? Prateen? (Desculpa, O., a piada de tio do pavê, que às vezes você me acusa de fazer).
Chamo-a de O. não por alimentar veleidades de escritor tcheco do século passado, mas porque O., agora adolescente, já é dona do próprio nariz, o que lhe confere, entre outros direitos legitimamente adquiridos, dar seus pitacos sobre o que esse pai pode –deixá-la dormir sem adultos com as amigas na sexta pré-aniversário– e não pode –escrever crônicas revelando suas intimidades.
Descobri que não poderia mais compartilhar minhas perplexidades e babonices há pouco mais de um mês. Era sábado e a levava para uma festa. Preocupado, pela primeira vez, com álcool e drogas, disse com a voz embargada, na marginal Tietê, que até outro dia o risco era ela comer uma peça de Lego ou bater a testa na quina da mesinha de centro.
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“Não vai escrever crônica sobre isso, hein?!” Eu ia, claro, mas não, não vou. Prometo.
Essa crônica, juro, não é sobre você, O., nem revelará nada de sua intimidade. É sobre esse velho e orgulhoso pai, que anteontem babava diante de um bebê gorducho e hoje se admira com as conquistas da moça esbelta (“isso é gordofobia“, talvez você diga ao ler esta crônica, mas como você não disse e é só a minha imaginação, posso cometer impunemente essas aspas). Tá combinado. De agora em diante, só escreverei sobre você quando devidamente autorizado.
Mesmo sendo este texto mais sob a minha perspectiva do que sobre as suas atividades, concordo que quebro um pouco o protocolo. É que anteontem, lá em Petrópolis, no café da manhã, na Pousada da Alcobaça, da bisa Loli, quando sua prima disse que tinha lido na escola a minha crônica “Mexeriqueira em flor“, contando uma história sua, aos três anos, percebi no seu sorriso mais orgulho do que constrangimento. Quem sabe, então, pensei, um ultimíssimo texto a seu respeito, no seu aniversário, possa passar só com, no máximo, um cartão amarelo?
Você sabe sobre o que é aquela crônica. “Ai, papai, de novo essa história?”. Sim, uma última vez. Prometo. É sobre o dia em que você, comendo mexerica, me mostrou uma semente. “O que é isso?” Te expliquei que plantando aquela bolinha nascia uma árvore que daria mexericas. Plantamos. Você sentou no jardim e não queria ir para cama de jeito nenhum, esperando nascer a árvore que daria mexericas.
O que você não sabe é por que escrevi aquela crônica. Eram as priscas eras das redes sociais e eu tinha sido cancelado pela primeira vez.
Milhares de pessoas, entre elas as que eu julgava amigas, me xingando no Facebook. Pensava em responder à altura, em mandar mísseis e drones (que nem existiam), mas te vi ali sentada, olhando para a terra fofa e pensei: não, vou deixar o ódio passar batido (e batendo), vou me concentrar no que há de mais bonito, mais puro, mais distante da horda hedionda. Era – e segue sendo – você. “Ai, papai, para que tá ficando brega!”, já te imagino falando. Tá bom, parei, parei. Essa foi a última. Prometo.
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Fonte.:Folha de S.Paulo


