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5 de julho de 2026

IA em excesso sabota credibilidade jornalística – 04/07/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

IA em excesso sabota credibilidade jornalística – 04/07/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

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O texto “Fibras em excesso: especialistas alertam para efeitos colaterais de tendência das redes sociais” foi ao ar no dia 26 em ao menos dois veículos, o portal Terra e o site do jornal Estado de Minas. Os quase 10 mil caracteres sobre fibras ofereceram também uma mostra dos efeitos colaterais do uso de IA em excesso.

O texto era assinado por “Jonasmoura* *com uso de inteligência artificial/Giro 10”, sendo Giro 10 a agência de conteúdo. A peça explicava uma suposta tendência chamada “fibermaxxing“, de aumento de fibras na dieta.

O problema? Havia “entrevistas simuladas com especialistas”, e o elenco era digno do realismo fantástico: um “nutricionista clínico imaginário”, dois gastroenterologistas fictícios (uma mulher e um homem), um “nutricionista esportivo fictício” e uma “pesquisadora fictícia em saúde pública”.

Jornalistas e leitores reagiram nas redes. A Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) emitiu nota pedindo urgência para “regulamentar a IA no jornalismo”. Após as críticas, o Terra publicou “Erramos” na quarta (1º), assinado por Carlos Vieira, editor do Giro 10. “O Giro 10 assume toda a responsabilidade pelos erros.”

O Terra também tirou do ar o texto. “Diante da gravidade do fato e da falta de rigor jornalístico, optamos por remover todos os conteúdos do Portal Giro 10 da base de dados do Terra e encerrar imediatamente o contrato, vigente desde outubro de 2025”, afirma a gerente sênior de conteúdo do portal, Manoela Pereira. “Como mencionado no comunicado oficial publicado no Terra, estamos adotando medidas adicionais de supervisão para reforçar nossos mecanismos de revisão, e garantir o cumprimento das diretrizes editoriais e de uso responsável dessas tecnologias.”

Mas o que é o Giro 10? A agência “começou em setembro de 2025, com publicação de conteúdos para estes clientes citados [Terra, Estado de Minas e R7, que estavam na pergunta enviada pela ombudsman], além do Grupo Perfil”, segundo o editor, Carlos Vieira. “Usamos um pacote que engloba várias IAs trabalhando simultaneamente. E a checagem é humana. Mas ocorreu um erro humano. No total foram produzidos 6.600 materiais e ocorreram erros em seis deles”, afirma.

Segundo Vieira, a agência emprega cinco jornalistas e as assinaturas são de profissionais de verdade. Perguntado se Jonas Moura gostaria de se manifestar, o editor chamou para si mesmo a responsabilidade pelo erro. “São 40 [textos] por dia. Somos dois que fazem a apuração, eu sou um deles, e desses 6 [textos com problemas], 4 passaram por mim. Esse editor humano fui eu, e eu errei”, diz ele. “Não tenho como dar desculpas em relação a isso”.

Cada contrato do Giro 10 era de cerca de R$ 2.000-R$ 3.000 e representava “um novo desafio para a gente não ficar só no futebol”, diz Vieira, também editor do Jogada 10, de conteúdo esportivo. “Só que a primeira empreitada [de IA], pelo que a gente viu aqui, deu errado.”

Vieira, com 30 anos de experiência em jornalismo esportivo, reforça que o Jogada 10 “não tem nada de IA, nunca teve e faz um trabalho jornalístico há seis anos que é reconhecido e tem uma equipe de profissionais experientes”. O Terra, que anunciou a remoção do conteúdo do Giro 10, continua a publicar textos do Jogada 10 porque “são propostas e contratos diferentes”.

O texto das fibras continua no ar no Estado de Minas ao menos até a noite de sábado (4), assim como a nota de retratação, segundo a qual o conteúdo foi publicado “exclusivamente no portal Terra”. “No Estado de Minas, a inteligência artificial é empregada como ferramenta de apoio ao trabalho jornalístico, permanecendo a curadoria, a validação e a decisão final de publicação sob responsabilidade das equipes editoriais do veículo”, afirma João Renato Faria, editor-executivo de Digital do Estado de Minas e do Portal Uai.

Essa história conta o que pode dar errado com o mau uso da IA no jornalismo, mas fala também da relação entre as buscas, as redes e o ecossistema de notícias nas últimas décadas.

É preciso reconhecer, de todo modo, que o conteúdo do Giro 10 ao menos anunciava claramente a coautoria da IA, embora isso não diminua o dano à credibilidade dos veículos. Quando o uso não identificado do recurso foi levantado pela ombudsman em relação aos colunistas da Folha, ele só foi assumido por Natália Beauty e continua a não ser claramente indicado pelo jornal.

A propósito, nesta semana, a Folha emitiu um comunicado para seus colunistas com “sugestões que podem ou não ser observadas”. O último dos 12 pontos fala de IA: “Use a tecnologia com diligência. Ferramentas de inteligência artificial, bem empregadas, melhoram textos, destaques e títulos, testam a solidez e a originalidade dos argumentos e detectam erros e imprecisões de informação. Não são remédio para ideias ruins ou simplórias nem pretexto para o autor esquivar-se da responsabilização”.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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