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6 de julho de 2026

Como é uma apresentação de kabuki em Osaka – 06/07/2026 – Turismo

Como é uma apresentação de kabuki em Osaka – 06/07/2026 – Turismo

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À medida que a manhã de sábado avançava e se aproximava a hora do almoço, as ruas de Dotonbori começavam a encher. Especialmente famoso pela sua vida noturna e pelas luzes que acompanham o canal de mesmo nome, o distrito na região central de Osaka é tomado por turistas também quando o Sol está a pino. Repleto de restaurantes, o local oferece uma variedade de itens baratos para aqueles que recebem em euro ou dólar.

Em uma de suas ruas, o número de turistas internacionais parece dar lugar a uma maioria japonesa que aguarda o início de um espetáculo matutino em frente ao Teatro Shochikuza. Um estrangeiro ou outro, em seus passos ligeiros, chega a destinar segundos de atenção para esse teatro conhecido por alguns como “Arco do Triunfo do distrito de Dotonbori”.

O apelido faz sentido. Os tijolos brancos de sua fachada aludem ao calcário utilizado no monumento francês. Os adornos e arcos que decoram a construção também apresentam influência europeia. Em uma de suas colunas, três esculturas de querubins olham para a rua.

O conteúdo desse, que é o primeiro teatro no estilo ocidental de Osaka, é, no entanto, tradicionalmente japonês. O Shochikuza é conhecido por seus espetáculos de kabuki, um tipo de teatro que tem suas origens no início do período Edo (1603-1868), uma época de forte isolamento político e econômico do Japão.

Foi uma mulher, Izumo no Okuni, que originou essa arte dramática, subvertendo papéis de gênero no palco, produzindo uma comédia exagerada que buscava imitar algumas das figuras extravagantes que andavam pelas ruas de Kyoto na época.

Em 1629, o xogun Iemitsu baniu a participação de mulheres em apresentações públicas e em palcos, temendo um declínio moral da sociedade. Como consequência, para interpretar as figuras femininas, uma nova classe de atores surgiu: os “onnagata”, desde cedo treinados para feminilizar seus movimentos e voz durante a atuação.

Quem vai a uma apresentação de kabuki atualmente costuma esperar os momentos em que um “onnagata” entra em cena.

Aquele espetáculo, num sábado ensolarado em Osaka, faz parte de uma programação diária do Shochikuza. Durante o mês de maio, os turnos da manhã e da noite apresentam diferentes categorias de kabuki, com duração total de quatro horas e intervalo de 30 minutos entre cada ato.

Quem deixar para comprar os ingressos na hora, na bilheteria, provavelmente ficará sem. O local de 1.033 assentos estava lotado.

Em contraste, em apresentações nos teatros de Kyoto e Tóquio existe a possibilidade de comprar o ingresso para apenas um dos três atos.

A matinê da programação de maio começa com uma dança inspirada em um ritual que costumava acontecer nos teatros no período Edo, uma adaptação de celebrações de Ano-Novo, hoje extintas.

Em “Kotobuki Shiki Sanbaso”, três atores dançam acompanhados por música ao vivo, pedindo paz, prosperidade e boa colheita. Esta abertura já deixa evidente a beleza dos figurinos, maquiagem e dos movimentos exercidos por quem está no palco.

Se o espectador já não é conquistado por essa introdução à arte, fica difícil escapar do magnetismo do kabuki após o primeiro intervalo.

“Yoshikata Saigo” é o segundo de uma peça de cinco atos, com dois performados em kabuki e os outros em fantoche. Apenas um desses é apresentado na matinê e sua duração gira em torno de uma hora.

A categoria dessa apresentação é Jidaimono, uma peça histórica que retrata eventos que ocorreram entre a nobreza e a classe dos samurais. Ainda que os movimentos sigam precisos, a peça revela sua natureza distinta da dança que a antecede ao serem vocalizados os primeiros diálogos.

Saber japonês faz com que a história seja compreendida com muito mais clareza. Ainda assim, a falta de proficiência na língua não atrapalha em nada o prazer estético do kabuki.

Não entender o que os personagens falam, por vezes, pode tornar a experiência ainda mais divertida e instigante. O mistério exige investigação por parte de quem assiste, atenção à forma como as personagens falam, se portam, desenham expressões faciais em seus rostos maquiados.

O segundo ato conta com tudo: guerreiros, “onnagatas”, drama e alívio cômico. A coreografia da luta final e a utilização do cenário são destaques.

Estruturas que giram 360º, diferentes camadas de parede e buracos no chão que permitem movimentos inusitados trazem dinamismo às cenas e evocam a magia prática comum ao tablado.

De todas as estruturas, a estrela é a Hanamichi, um corredor que corta a plateia, indo do palco até o fim do ambiente. Por ali personagens são apresentados, saem de cena ou se aproximam da plateia para maior interação.

Por fim, para encerrar todas essas horas no teatro, uma peça de kabuki moderno escrita por Yukio Mishima é encenada, em uma jornada que começa de manhã e termina no meio da tarde.

Em uma arte com papéis de gênero tão exagerados, “Iwashiuri koi no hikiami” apresenta uma personagem dúbia. O pescador que protagoniza a comédia, ainda que masculino, tem seus movimentos e falas parecidos com o de um “onnagata”. Encenado pela primeira vez em 1954, o texto presta homenagem aos antigos estilos do kabuki, inspirando-se em uma história popular.

Durante os intervalos, há tempo para explorar os cinco andares do teatro por meio de suas escadarias ou escadas rolantes. Há quem leve algo para almoçar entre uma peça e outra, e a venda de comida no café e na entrada do teatro é comum.

O edifício luxuoso com mármore, tapetes de veludo e obras de arte, faz parecer estranha a justificativa utilizada para o encerramento do Teatro Shochikuza. Sob o argumento de estrutura antiga e comprometida, as apresentações de kabuki de maio de 2026 foram às últimas do teatro centenário.

Sem essa opção em Osaka, o público ainda encontra importantes teatros em Kyoto e Tóquio com bastante kabuki em suas programações, como o Teatro Minamiza e o Kabukiza.

Mesmo antes de ser demolido, o Teatro Shochikuza ainda vale a visita pela beleza de seu exterior. Uma pequena parada no movimentado destino turístico.

A matinê encerra próximo às 15h e ainda sobra tempo para um bate-volta em Nara, cidade conhecida pelo parque com veados e templos budistas. Lotada de turistas, fica mais vazia quanto mais se progride verticalmente no parque. Quanto mais alto, menos gente, mais belas as vistas e veados menos estressados.

No meio da multidão que se move de um lado para o outro, o kabuki no Teatro Shochikuza aparece como a memória recente de uma programação turística menos disputada, mais tranquila e imersiva.



Fonte.:Folha de S.Paulo

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