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- Author, Leandro Prazeres
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília
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Em nota divulgada nesta quarta-feira (8/7), um porta-voz do Departamento de Estado americano afirmou que os EUA estão “profundamente preocupados” com a medida e que ela enfraquece o compromisso conjunto de combater interferências estrangeiras.
“Os Estados Unidos estão profundamente preocupados com a decisão do Brasil de permitir que um indivíduo com vínculos conhecidos com a inteligência russa deixe o país. Essa decisão enfraquece nosso compromisso conjunto de combater interferências estrangeiras e proteger a integridade de nossas instituições democráticas”, afirmou o Departamento de Estado.
O governo americano também pediu que o Brasil considere o precedente que será criado pela decisão e trabalhe em conjunto com Washington para responsabilizar pessoas que, segundo os EUA, “ameaçam nossa segurança coletiva”.
A decisão brasileira foi publicada na segunda-feira (6/7) no Diário Oficial da União. O governo determinou a expulsão de Cherkasov do país e abriu caminho para seu envio à Rússia.
A medida, porém, só poderá ser cumprida após o fim da pena à qual ele foi condenado no Brasil ou caso haja uma liberação antecipada pelo Poder Judiciário. Ainda não há previsão de quando a decisão será executada.
Sergey Cherkasov está preso desde 2022 em uma penitenciária federal de Brasília. Ele cumpre pena de cinco anos de prisão por falsidade ideológica.
Ele é apontado pela Polícia Federal e pelo FBI (a polícia federal americana) como um agente de inteligência russo que usava uma identidade falsa brasileira para atuar no exterior. Ele viveu por 12 anos como brasileiro.
No entanto, os investigadores não encontraram evidências de que Cherkasov atuou como espião contra o Brasil. Seu alvo seriam os Estados Unidos e países europeus.
Ele nega, até hoje, ser um espião a serviço do governo russo.
Desde que Cherkasov foi preso, americanos e russos entraram uma disputa diplomática pelo seu destino. Tanto Moscou quanto Washington chegaram a apresentar pedidos de extradição ao governo brasileiro, mas com versões opostas sobre a identidade e a atuação do acusado.
Com a decisão brasileira, encerra-se um capitulo inusitado das relações entre Brasil, Rússia e Estados Unidos.
A batalha pelo espião russo
A disputa envolvendo Cherkasov começou oficialmente em agosto de 2022, quando a Rússia solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) sua extradição. Moscou alegava que ele era procurado no país por tráfico de drogas.
A versão, no entanto, passou a ser contestada pelos Estados Unidos e por autoridades brasileiras, que afirmavam que a acusação poderia ser uma tentativa russa de repatriar um suposto espião.
Em março de 2023, o caso ganhou novos capítulos. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos apresentou uma acusação criminal contra Cherkasov, afirmando que ele era um agente do serviço de inteligência militar russo, o GRU.
Segundo os EUA, Cherkasov teria usado a identidade falsa de Victor Muller Ferreira para atuar em território americano e se infiltrar em instituições acadêmicas e políticas. Washington afirmou que ele faria parte do grupo conhecido como “ilegais”, formado por agentes russos de inteligência enviados ao exterior com identidades falsas.
No mesmo mês, o ministro do STF Luiz Edson Fachin, relator do caso, autorizou a extradição de Cherkasov para a Rússia. A entrega, porém, não poderia ocorrer imediatamente, pois Fachin condicionou a saída do país à conclusão das investigações brasileiras sobre a atuação do suposto agente em território nacional.
Em abril de 2023, os Estados Unidos também apresentaram formalmente um pedido de extradição ao Brasil. Washington acusava Cherkasov de atuar como agente estrangeiro em solo americano, além de envolvimento em fraudes financeiras e irregularidades relacionadas à obtenção de vistos.
Em julho de 2023, o Ministério da Justiça brasileiro negou o pedido de extradição dos Estados Unidos. A pasta argumentou que a solicitação americana era improcedente porque já havia um pedido de extradição da Rússia homologado pelo STF.
Apesar disso, a entrega de Cherkasov permaneceu suspensa devido às investigações e pendências judiciais no Brasil.
No fim do ano passado, a Justiça Federal e o Ministério Público Federal (MPF) informaram que Cherkasov não teria mais nenhuma pendência jurídica que o impedisse de ser extraditado.
A decisão, então, dependia da Presidência da República, já que as entregas em casos de extradição precisam ser deliberadas pela chefia do Poder Executivo ou pelo órgão indicado por ela. Neste caso, o processo de Cherkasov está sendo conduzido pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.
A BBC News Brasil apurou que a situação vinha sendo discutida internamente no ministério junto com a defesa do suposto espião e diplomatas russos.
A defesa irá encaminhar a decisão do MJ ao STF para que delibere sobre a expulsão. A expectativa é de que caso o STF determine a execução da decisão do MJ, ele retorne imediatamente para a Rússia.
Como funcionava a rede de espiões

Crédito, Departamento de Justiça dos Estados Unidos
A suspeita de que o Brasil estava sendo usado como uma espécie de “berçário” de espiões russos voltou à tona no ano passado após a publicação de uma reportagem do jornal norte-americano The New York Times.
Segundo o jornal, uma investigação liderada pela Polícia Federal brasileira identificou pelo menos nove supostos espiões russos que usaram documentos brasileiros como parte dos seus disfarces. A informação foi confirmada na época pela BBC News Brasil.
Parte deste caso foi revelado pela BBC News Brasil em reportagens entre os anos de 2022 e 2024.
Com base em documentos e depoimentos colhidos ao longo de meses, a BBC News Brasil revelou, por exemplo, como a Rússia orquestrou uma operação diplomática para tentar retirar um dos seus supostos espiões da prisão e levá-lo de volta ao seu país natal.
Fontes ligadas à investigação disseram à BBC News Brasil que, dos nove supostos espiões russos identificados até o ano passado, apenas um continua em solo brasileiro: Sergey Cherkasov. E foi com ele que essa intrincada rede de disfarces veio à tona e começou a ruir.
Uma rede que, segundo as investigações, utilizava disfarces inusitados. Um dos supostos espiões teria atuado como dono de uma joalheira em Brasília, outro teria sido um estudante apaixonado por forró enquanto uma outra teria atuado como modelo.
A descoberta

Crédito, Justiça Federal de São Paulo
Ele se apresentava como o brasileiro Victor Muller Ferreira e havia sido aprovado em um programa de estágio no Tribunal Penal Internacional, em Haia.
As investigações conduzidas por holandeses, americanos e brasileiros apontam que Cherkasov era um agente do GRU, um dos serviços de inteligência das Forças Armadas russas.
Devolvido ao Brasil, Cherkasov foi preso, processado e condenado a 15 anos de prisão no Brasil por uso de documento falso. Sua pena, no entanto, foi reduzida para cinco anos.
No Brasil, ele chegou a ser investigado por espionagem, mas o inquérito foi arquivado.
Ele hoje se encontra preso em uma penitenciária federal, em Brasília. No processo, ele admitiu ter se passado por brasileiro, mas sempre negou ser um espião.
Poucos meses depois, em novembro de 2022, a polícia norueguesa prendeu outro “brasileiro”.
Seu nome era José de Assis Giammaria, mas as autoridades do país europeu afirmam que ele se chamava, na verdade, Mikhail Mikushin e seria um espião russo infiltrado em uma universidade na região do Ártico, na fronteira entre Noruega e Rússia.
O terceiro caso surgiu pouco depois, no final de 2022, quando uma brasileira reportou o desaparecimento de seu namorado, o também “brasileiro” Gerhard Daniel Campos.
As autoridades, no entanto, alegaram que Campos, seria na realidade outro espião russo chamado Artem Shmyrev. Ele deixou o Brasil pouco antes de a Polícia Federal deflagrar uma operação para prendê-lo e nunca mais foi visto.
A reportagem do The New York Times do ano passado listava outras seis pessoas que teriam usado documentos brasileiros como parte de seus disfarces: Yekaterina Leonidovna Danilova, Vladimir Aleksandrovich Danilov, Olga Igorevna Tyutereva, Aleksandr Andreyevich Utekhin, Irina Alekseyevna Antonova e Roman Olegovich Koval.
Utekhin, por exemplo, segundo as investigações, se disfarçava em Brasília como empresário do ramo de joias.
Outra suposta espiã, cujo nome brasileiro seria Maria Isabel Moresco Garcia atuaria como modelo.
De acordo com as investigações da Polícia Federal, nenhum dos supostos espiões identificados até agora colhiam informações sobre o Brasil.
A passagem pelo país, segundo o que se apurou, fazia parte de uma estratégia de criar um disfarce sólido o suficiente para não chamar atenção nos países onde, de fato, os agentes deveriam realizar as suas missões.
Cherkasov, por exemplo, passou pelo Brasil, mas também morou na Irlanda e nos Estados Unidos, onde chegou a morar a poucos quilômetros da sede da Agência Central de Inteligência (CIA).
De acordo com os documentos obtidos pela BBC News Brasil, Cherkasov teria oferecido um colar de US$ 400 para que a funcionária o ajudasse. Não havia indícios, no entanto, de que ela soubesse que Cherkasov seria um espião a serviço do governo russo.
Ao longo dos últimos anos, a Embaixada da Rússia no Brasil nunca atendeu os pedidos de resposta feito pela BBC News Brasil sobre o caso.
O mais próximo que o governo russo chegou de admitir que alguém desse grupo de nove pessoas era, de fato, um espião foi quando Mikhail Mikushin foi incluído em um acordo de troca de prisioneiros entre a Rússia e os Estados Unidos, em agosto de 2024.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


