Os grupos de animais que ainda predominam nos oceanos de hoje, como moluscos e peixes, acabou se sobressaindo durante a pior extinção em massa da história da Terra, há 250 milhões de anos, porque seu organismo suportou melhor o aquecimento e a diminuição do oxigênio nas águas marinhas, afirma um novo estudo.
Essas mudanças, que estão entre as mais radicais já enfrentadas pelos seres vivos do planeta, transformaram em raridades animais que, antes disso, eram os senhores dos ambientes aquáticos.
Tanto é assim que poucas pessoas seriam capazes de reconhecer os grupos marinhos que dominavam o período Permiano, como os crinoides (parentes distantes das estrelas-do-mar, os quais podem ficar presos ao leito marinho por um “caule”) e os braquiópodes (que têm conchas duplas, semelhantes às dos mariscos, mas cujas outras estruturas corporais são bem diferentes). Esses invertebrados ainda existem nos mares, mas são muito menos comuns que os grupos mais bem-sucedidos após a grande extinção do fim do Permiano.
A análise que aponta as possíveis causas para o sucesso ou a derrota de determinados grupos de animais saiu no último dia 6 na revista científica PNAS.
Coordenado por Andres Marquez e Erik Sperling, da Universidade Stanford (EUA), o trabalho combinou dados de muitas fontes diferentes, incluindo experimentos de laboratório e mapeamentos da diversidade marinha atual, além do que se sabe sobre a fauna que teve de enfrentar a catástrofe do fim do Permiano.
A extinção em massa de então é considerada pior que a do fim da Era dos Dinossauros. No mar, teriam sumido 8 em cada 10 espécies existentes, e, na terra firme, 7 em cada 10. A hecatombe, porém, não parece ter afetado a todos os seres vivos da mesma maneira.
No caso dos animais marinhos, os paleontólogos costumam dividir os grupos que enfrentaram o desastre em “fauna paleozoica” (os estranhos crinoides, braquiópódes etc.), que tinha predominado até aquele momento, e “fauna moderna”, bem mais semelhante à atual. A fauna paleozoica teria perdido quase 80% de suas famílias –cada família pode abranger um grande número de espécies–, enquanto a fauna moderna parece ter sofrido uma redução de pouco menos de 30%.
Além dessas estatísticas, parece estar claro o motivo para a tragédia. Tudo indica que a mortandade foi desencadeada por erupções vulcânicas maciças na região da atual Sibéria. O descontrole geológico lançou na atmosfera quantidades vastíssimas de dióxido de carbono, gás que aprisiona o calor produzido pela luz solar perto da superfície terrestre. As erupções, além disso, liberaram muitos compostos à base de enxofre e outros gases.
O resultado foi uma forma descontrolada de aquecimento global (em certos pontos da superfície do oceano, a temperatura chegou a ficar 11 graus Celsius mais alta), somada à perda da oxigenação da água e ao aumento de sua acidez.
Os seres vivos marinhos, portanto, tiveram de lidar com três desafios imensos: o calor altíssimo, a dificuldade para respirar e as barreiras para produzir e conservar conchas e outras carapaças protetoras, já que, quando a água fica mais ácida, as condições químicas necessárias para que o organismo fabrique as conchas estão longe de ser ideais.
Também é preciso levar em conta a interação entre essas variáveis, porque, em águas mais quentes, o oxigênio não se dissolve com a mesma facilidade, elevando os riscos de que os animais não consigam absorvê-lo. Além disso, o calor tende a aumentar a taxa metabólica e, portanto, as necessidades de oxigênio, agravando ainda mais o problema.
Para tentar entender por que alguns grupos saíram muito mais destroçados que outros desse processo, os pesquisadores, primeiro, conduziram experimentos para examinar o que acontecia com o metabolismo dos invertebrados marinhos diante do aumento da temperatura da água e da redução da disponibilidade de oxigênio.
Eles partiram do princípio de que, apesar da passagem de dezenas de milhões de anos, os descendentes modernos das espécies do Permiano ainda tinham conservado semelhanças fisiológicas essenciais com seus antepassados, permitindo estimar ao menos em parte o que aconteceu com eles durante a extinção em massa.
Os testes, feitos com o marisco Glycymeris septentrionalis (uma espécie associada à fauna moderna) e o braquiópode Terebratalia transversa (da fauna paleozoica), indicaram que, enquanto o invertebrado descendente da fauna que predominava antes da extinção leva ligeira vantagem para resistir à perda de oxigênio quando em repouso, o molusco se vira melhor em condições de temperatura crescente.
Seria, portanto, um empate? Não exatamente. Quando os pesquisadores levaram em conta diversas espécies atuais de ambos os grupos, considerando as variações de temperatura e oxigenação de água em seus habitats, o padrão que eles verificaram bate com a maior tolerância dos moluscos e outros membros da fauna moderna ao aumento de temperatura. E a diferença quanto à resistência diante da falta de oxigenação praticamente desaparece quando se considera o organismo ativo, e não em repouso.
Para os pesquisadores, portanto, fica clara a vantagem da fauna moderna. Um dos principais motivos por trás disso, propõem eles, é a presença de um sistema circulatório mais desenvolvido nesses animais, quando comparado ao da fauna paleozoica. Graças a isso, eles conseguiam lidar melhor com o aumento da taxa do metabolismo, fazendo com que gases e nutrientes circulassem melhor pelo corpo. Assim, escaparam do pior da catástrofe.
Fonte.:Folha de S.Paulo


