
Crédito, BBC/Secretário de Segurança Omar Harfuch e Serviço de Proteção aos Cidadãos do México
- Author, Shawn Yuan
- Role, Da BBC Global China Unit em Culiacán (México)
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Tempo de leitura: 11 min
“O Irmão Wang era muito importante. Ele era o número 1”, afirma Enrique, sorrindo, com ar de quem sabe o que está falando.
Enrique (nome fictício) se descreve como coordenador de alto escalão do cartel mexicano de Sinaloa, uma das organizações criminosas mais poderosas do mundo.
Nos subúrbios da capital do Estado de Sinaloa, Culiacán, sentado em um estacionamento onde mais ninguém consegue ouvi-lo, ele explica como os ingredientes para a fabricação da droga mortal fentanil são transportados por milhares de quilômetros, desde as fábricas na China até os laboratórios no México.
Membros do seu cartel afirmam que foi o Irmão Wang quem estabeleceu esta cadeia de abastecimento.
Conhecido no mundo do crime como “rei do fentanil”, o Irmão Wang tem 39 anos. De nacionalidade chinesa, seu nome real é Zhang Zhidong, segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
Preso no México em 2024, Zhang escapou da prisão de forma espetacular, mas foi recapturado e extraditado para os Estados Unidos em 2025.
O fentanil é um opioide sintético 50 vezes mais potente que a heroína.
A droga mata dezenas de milhares de pessoas todos os anos, a maioria nos Estados Unidos — em muitos casos, o destino da droga. Mesmo uma dose pequena, equivalente a poucos grãos de sal, pode ser fatal.
O presidente americano, Donald Trump, chama os negociantes de fentanil de “narcoterroristas“.
Trump classificou a droga e seus componentes como armas de destruição em massa e usou o comércio de fentanil como motivo para impor tarifas de importação à China, México e Canadá.

Crédito, Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos via Reuters
Zhang compareceu à Justiça em Nova York, nos Estados Unidos, em 2025.
O vice-procurador-geral americano da época, Todd Blanche, o descreveu como “um dos traficantes mais perigosos do mundo”.
Blanche o acusou de “gerenciar uma empreitada global que descarregou imensas quantidades de cocaína, fentanil e metanfetamina” nos Estados Unidos e de praticar a lavagem de “milhões em receita dos narcóticos”.
Zhang se declarou inocente e aguarda julgamento. Entramos em contato com seu advogado, que se recusou a enviar comentários enquanto o caso estiver em andamento.
Membros do cartel e ex-colegas de Zhang concordaram em conversar com a BBC, oferecendo uma rara visão sobre como eles acreditavam que Zhang, diplomado na universidade de maior prestígio da China, supostamente se tornou um elo fundamental na cadeia entre as indústrias químicas chinesas e os laboratórios de produção de drogas do México.
Zhang, o homem

Crédito, Governo do México
Zhang se formou em espanhol na Universidade de Pequim, na China, em 2010. Um ano depois, ele viajou para o México, para trabalhar para uma companhia chinesa de mineração de ferro. Ele logo atingiu um alto posto na empresa.
Pessoas que o conheceram na época consideravam Zhang um jovem e brilhante profissional, ávido pela vida no exterior.
“Ele tinha capacidade de negociação, era muito habilidoso e capaz de se adaptar a todo tipo de ambiente”, segundo Alex (nome fictício). Ele estudou na mesma universidade e trabalhou posteriormente na mesma mineradora de Zhang no México.
Alex afirma que o espanhol de Zhang era excelente. Ele tinha um instinto para a gíria e conseguia falar com qualquer pessoa, sempre com forte sotaque de Pequim.
Alex conta que, às vezes, fazer negócios no México envolvia lidar com o submundo, incluindo os cartéis, que controlam áreas importantes do país.
Zhang conseguia estabelecer relações com “qualquer pessoa importante localmente, tanto do lado oficial quanto do lado clandestino”, explica Alex.

Crédito, Alex
Alex conta que Zhang adorava este aspecto do México e oferece o retrato de um homem voltado ao risco e à imprudência.
Ele relembra que Zhang bateu o carro do seu chefe, sem se preocupar com as repercussões, e descreve como Zhang saiu da cidade de carro certa noite para atirar em placas de trânsito em uma rodovia deserta.
Em 2013, a mineradora fechou e Alex voltou para a China. Zhang permaneceu no México.
Alex conta que, um ou dois anos depois, Zhang começou a postar mensagens no grupo de alunos de espanhol da Universidade de Pequim no WeChat, aplicativo popular na China. Ele se oferecia para trocar dólares por taxas melhores. Alex acredita que ele estivesse lavando dinheiro.
Além disso, o membro do cartel Enrique afirmou à BBC que Zhang também se envolveu com drogas.
O processo judicial nos Estados Unidos acusa Zhang de operar “uma enorme organização de tráfico de narcóticos e lavagem de dinheiro” desde junho de 2016.
Enrique acredita que Zhang tenha iniciado um relacionamento amoroso com uma mulher que é parente de um dos líderes do cartel. Ele indica que isso o ajudou a ficar mais próximo do seu círculo interno.
A cadeia de abastecimento
Luís (nome fictício) é outro membro do cartel que realizava tarefas para a organização.
Ele relembra uma tarde quente de 2019, quando seus chefes pediram que ele ficasse de guarda para uma reunião, quando Zhang “veio oferecer seus produtos”.
Luís conta que se tratava dos precursores químicos (substâncias fundamentais utilizadas na fabricação de drogas sintéticas) necessários para a produção de fentanil. Ele considera Zhang como a pessoa que, de fato, o apresentou ao fentanil e deu início a este lado dos negócios do grupo.

Crédito, Reuters/Claudia Daut
Luís conta que logo se tornou produtor de fentanil em um laboratório clandestino.
Ele afirma ter visto pelo menos cinco produtores morrerem à sua frente. Luís acredita que as mortes tenham sido causadas pelas substâncias que eles estavam manipulando, que teriam vazado através de aberturas nas suas roupas de proteção.
“Às vezes, as pessoas simplesmente desmaiavam e precisávamos carregá-las para fora da sala”, ele conta.
Enrique descreve que os pedidos de precursores eram encaminhados para Zhang, que, segundo ele, usava seus contatos na China para obter as substâncias.
Os ingredientes seguiam para o México de navio ou avião, segundo Enrique. Ele conta que a própria rede de Zhang os distribuía para os produtores de fentanil, como Luís, nos laboratórios ilegais em Sinaloa.
Pressionado se ele se sente culpado por ter se envolvido em uma indústria que causa tantas mortes, Enrique responde que um dos seus parentes morreu de overdose de fentanil.
“Aquilo abala sua consciência”, segundo ele. Mas acrescenta que “trabalho é trabalho e não conhecemos outra forma de ganhar a vida”.
Questionado sobre o mesmo tema, Luís afirma que, certa vez, ele tentou parar de trabalhar no laboratório. Mas seu chefe disse que a alternativa seria sair em patrulha.
Ele conta que seu chefe deu a ele uma escolha: “Você veste o uniforme, pega o equipamento e sai para lutar. É isso ou trabalhar como produtor.”
As agências de segurança mexicanas afirmam que Zhang conduziu operações ilegais no continente americano, na Europa, na China e no Japão.

Crédito, Angela Weiss/AFP via Getty Images
A pesquisadora Victoria Dittmar, do centro de estudos InSight Crime, passou anos investigando o fluxo de substâncias precursoras para o México.
Ela afirma que os intermediários (a função que se indica ter sido desempenhada por Zhang) ficam no ponto crucial de intersecção entre os produtores das substâncias e os cartéis.
Dittmar declarou que pessoas com o tipo de alcance atribuído a Zhang são “muito poucas” e “fundamentais para a cadeia de abastecimento”.
“Ele foi um intermediário que conectava as organizações mexicanas do tráfico aos fornecedores chineses de substâncias precursoras”, um mundo que, segundo ela, é de difícil acesso para pessoas estranhas.
“Ele também teve enorme presença nos Estados Unidos”, prossegue Dittmar. “Você não observa isso com frequência… Uma pessoa que consegue conectar três regiões.”
As autoridades mexicanas afirmam que Zhang foi responsável pela exportação e distribuição de mais de 1 mil kg de cocaína, 1,8 mil kg de fentanil e 600 kg de metanfetamina. Elas também o acusam de movimentar mais de US$ 150 milhões (cerca de R$ 766 milhões) anuais em receita proveniente das drogas.

Crédito, Procuradoria-Geral do México
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos emitiu um comunicado à imprensa em 2025, com detalhes do indiciamento de Zhang.
A nota acusa Zhang de tráfico de drogas e afirma que ele recrutou pessoas para abrir contas bancárias em nome de mais de 100 empresas de fachada.
O órgão afirma que ele recebia dinheiro em vários locais dos Estados Unidos, “depositava aquele dinheiro nas contas bancárias das empresas de fachada e transferia os fundos para contas de outros beneficiários, para que fossem lavados fora dos Estados Unidos”.
No outro lado das supostas operações de Zhang, fica a China. O país é um dos maiores produtores e exportadores mundiais das substâncias precursoras empregadas na fabricação de drogas sintéticas, segundo um relatório de 2025 do Departamento de Estado americano.
O relatório afirma que a indústria química chinesa é “imensa”, com 160 mil empresas. E, apesar das medidas tomadas pelas autoridades para implementar controles, a fiscalização “conta com funcionários e equipamentos insuficientes”.
A Embaixada chinesa nos Estados Unidos declarou à BBC que a China é “um dos países mais rígidos do mundo no combate aos narcóticos”.
Ela destacou que o país regulamentou todas as substâncias relacionadas ao fentanil em 2019. Por isso, elas recebem rígido controle do governo. Essas substâncias não são proibidas porque algumas têm usos legítimos em diversas indústrias.
A Embaixada afirmou que a “extensa e profunda” cooperação com os Estados Unidos no combate aos narcóticos foi “altamente produtiva”.
Fuga e prisão

Crédito, Secretário de Segurança Omar Harfuch e Serviço de Proteção aos Cidadãos do México
O suposto envolvimento de Zhang no comércio de drogas teve um final repentino quando ele foi preso no México, no dia 31 de outubro de 2024.
Um juiz tomou a polêmica decisão de colocá-lo em prisão domiciliar, mas Zhang conseguiu escapar, supostamente por um buraco na parede, e voou em avião particular para Cuba e, dali, para a Rússia.
Autoridades de imigração russas descobriram que seus documentos eram falsos. Ele foi enviado de volta para Cuba, que o devolveu para o México, de onde foi extraditado para os Estados Unidos.
Sua prisão chegou às manchetes de todo o mundo. A rede de alunos da Universidade de Pequim, onde Zhang estudou espanhol, ficou perplexa.
“Todos falavam sobre aquilo”, conta Alex. “Foi uma história muito chocante e ele, provavelmente, é uma das pessoas mais famosas já formadas pela Universidade de Pequim.”
‘Gato e rato’

Em Culiacán, os membros do cartel afirmam que a ausência de Zhang foi imediatamente percebida. Luís conta que ficou “muito difícil conseguir os precursores”.
“Eles levaram o homem e isso causou confusão”, relembra Enrique.
Ele conta que Zhang era “a pessoa com as conexões” na China e que os cartéis precisaram “começar do zero e construir um novo circuito”.
Mais ou menos ao mesmo tempo, a Agência de Combate às Drogas dos Estados Unidos começou a detectar uma queda da pureza do fentanil.
Segundo o organismo, esta descoberta era “consistente com indicadores de que muitos produtores de fentanil no México estão enfrentando dificuldades para obter algumas substâncias precursoras básicas”.
Mas a interrupção das cadeias de abastecimento de drogas, normalmente, é temporária. Dittmar a descreve como um “constante jogo de gato e rato”.
Sua pesquisa descobriu que, quando os comerciantes são retirados ou substâncias importantes são controladas, os produtores de fentanil se adaptam encontrando substitutos e aprendendo novos processos.
Os indivíduos da cadeia de abastecimento também podem ser substituídos, mesmo aqueles com amplas e profundas conexões, como supostamente teria sido o caso de Zhang, segundo os membros do cartel.
Enrique afirma que já existe alguém na estrutura, outra pessoa de nacionalidade chinesa. Mas ele diz que não pode dizer mais “pela minha própria segurança”.
Outro membro do cartel, que se descreve como coordenador responsável pelo transporte de pessoas e pessoal dentro da organização, afirma que “tudo isso começou por causa dele [o Irmão Wang]”, mas “ele deixou muitas conexões para nos ajudar a continuar”.
“Se ele se for, outra pessoa irá entrar… O negócio não irá parar.”
Com colaboração de Ruth Evans e Miguel Ángel Vega.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


