Em um prédio no centro de Taipé, a capital de Taiwan, estudantes usam a tarde de sábado para aprender técnicas de primeiros socorros e transporte de feridos. O curso é oferecido pela Kuma Academy, organização que treina civis para situações de crise na ilha, o que inclui a possibilidade de um conflito armado com a China.
“Não queremos guerra. Não queremos lutar contra a China. Queremos paz”, afirma Augustine Shen, gerente de projetos da Kuma Academy, em entrevista à Folha durante visita à sede da organização, em Taipé. “Mas acreditamos que é preciso estar preparado para impedir a guerra. Se você for fraco, outras pessoas podem facilmente intimidá-lo.”
China e Taiwan protagonizam uma das maiores tensões geopolíticas da atualidade. Pequim considera a ilha parte de seu território e afirma que irá retomá-la, com o uso da força se necessário. Taipé, por sua vez, diz que é soberana e que não está subordinada às decisões das autoridades chinesas. Para dissuadir uma eventual invasão, conta com o apoio militar dos Estados Unidos e com a importância estratégica da sua indústria de semicondutores, cuja paralisação teria impactos sobre a economia de todo o mundo.
Para os coordenadores da Kuma Academy, um ataque da China contra Taiwan é uma questão de tempo. É nesse contexto que o visitante se depara com diferentes versões de um urso-negro com cara de poucos amigos ao entrar na sede da organização. O animal, associado a Taiwan, é retratado com os punhos cerrados, em posição de combate; com a pata direita na altura da têmpora, prestando continência; com capacete e colete à prova de balas; e até segurando um fuzil.
Vários livros sobre estratégia militar estão dispostos numa bancada próxima à entrada. Um deles é intitulado “Se a China Atacar”. Ao lado, na parede, destaca-se uma versão da bandeira da Ucrânia com um tridente, símbolo de patriotismo e resistência que se popularizou no país europeu depois da invasão da Rússia, em 2022. Do lado de fora do prédio, uma placa aponta o caminho para um abrigo de defesa aérea.
As mulheres são ampla maioria no curso. Isso acontece, segundo Shen, porque o serviço militar é obrigatório para os homens em Taiwan, e eles acreditam que já conhecem os conteúdos transmitidos. Elas, sobretudo as solteiras, buscam aulas para adquirir conhecimentos relacionados à defesa civil.
No sábado em que a reportagem esteve na organização, os participantes foram ensinados pela manhã sobre geopolítica e defesa de Taiwan. À tarde, aprenderam técnicas de resgate e atendimento de feridos.
Em outros módulos, podem estudar a chamada guerra cognitiva, que consiste no uso de campanhas de desinformação para influenciar a opinião pública e enfraquecer a disposição da sociedade de resistir a uma agressão externa. Segundo Shen, uma parte do trabalho ensina os participantes a identificar conteúdos falsos que circulam principalmente nas redes sociais.
A Kuma oferece ainda treinamento para operar drones, técnicas de autodefesa e orientações sobre o cultivo doméstico de alimentos para o caso de um cenário extremo, que considera o colapso provocado por uma guerra ou por um longo período de isolamento da ilha.
Cerca de 100 mil pessoas já participaram dos treinamentos oferecidos pela organização desde sua fundação, em 2021, diz Shen. A meta é alcançar 3 milhões de pessoas, contingente equivalente a quase um terço dos domicílios na ilha.
Em geral, afirma ele, a sociedade taiwanesa hoje não está preparada para uma guerra contra a China. Shen atribui a conclusão à avaliação que faz da população da ilha: “tranquila demais”, assim como são os sul-americanos, em sua visão. “Às vezes acho que os taiwaneses são meio parecidos com as pessoas da América do Sul. São felizes e tudo mais”, diz.
“Se as pessoas começarem a pensar nisso [possibilidade de guerra], vão sentir que precisam fazer muitas coisas para se preparar. E elas não querem viver com essa preocupação. Então, preferem não pensar no assunto enquanto não houver uma crise”, afirma.
Pesquisas mostram que muitos taiwaneses veem a China como uma ameaça, mas não acreditam em uma guerra iminente. Levantamento do Instituto para Pesquisa de Defesa e Segurança Nacional de Taiwan divulgado em 2025 mostrou que 65% dos entrevistados consideravam improvável uma invasão da China nos próximos cinco anos.
Ao mesmo tempo, as ameaças de Pequim (33%) apareceram no topo de uma lista relacionada às maiores preocupações, à frente de “crise da queda da taxa de natalidade” (27%) e “estagnação econômica” (18%).
Nas ruas de Taiwan, são raras as referências às ameaças da China. Ao longo de uma semana na ilha, a reportagem não viu equipamentos militares, soldados nem patrulhamento da polícia. A única autoridade encontrada foi um agente de trânsito. Em conversas informais, taiwaneses tratam com certo desdém a possibilidade de um ataque chinês. Uma das pessoas ouvidas disse, com ar de desprezo, que essa é uma preocupação das gerações mais velhas.
Não surpreende, portanto, que o trabalho da Kuma Academy seja questionado pelos próprios taiwaneses. Shen diz que parte da população critica a organização por acreditar que iniciativas de preparação para a guerra podem aumentar tensões com a China ou estimular o medo entre os moradores.
A preocupação com a exposição é tanta que a organização pediu que nenhum aluno fosse identificado nas imagens feitas pela reportagem.
A Kuma ainda é acusada de ser uma organização partidária, já que um de seus fundadores, Puma Shen, concorre ao cargo de prefeito de Taipé pelo governista Partido Democrático Progressista.
A reação motiva inclusive a mudança do logotipo da entidade. O urso-negro segurando a arma, ainda visivel na sede da organização, vem sendo substituído por versões “mais light” em que o animal é retratado, por exemplo, apenas com uma mochila.
Embora a Kuma Academy mantenha diálogo com integrantes do governo, a organização afirma ser independente e diz que não recebe recursos públicos. O financiamento vem principalmente de doações e da cobrança pelas atividades.
“Metade da população de Taiwan não gosta de nós. Não sei bem o motivo. Nós apenas tentamos alertar as pessoas sobre a necessidade de estarem preparadas. Por isso, o governo não pode nos repassar verbas. Se nos desse dinheiro, teria problemas”, diz Shen. “Há quem diga que somos nós que queremos a guerra. Não é verdade. Nós apenas queremos que as pessoas saibam o que fazer caso algo aconteça.”
Apesar de enfatizar que a organização não deseja um conflito, Shen acredita que o risco de uma confrontação militar é real. Na avaliação dele, 2028 representa atualmente o período de maior risco, devido à coincidência das eleições presidenciais em Taiwan e nos Estados Unidos, um cenário que poderia gerar incertezas políticas exploradas por Pequim.
“Para a China, essa seria uma janela muito favorável. Mudanças de liderança sempre geram um período de transição e incerteza. O presidente Trump não será o próximo presidente dos EUA, e não sabemos se a política americana mudará ou não.”
“Assim, quero firmar esse conhecimento na cabeça deles [alunos da Kuma Academy]: ‘Não se rendam’. E, como diz a máxima: se você quer paz, prepare-se para a guerra.”
O repórter viajou a convite da campanha Go Healthy with Taiwan.
Fonte.:Folha de S.Paulo


