6:36 AM
21 de julho de 2026

Caso Henry: vídeos mostram a versão de Monique no caso – 20/07/2026 – Cotidiano

Caso Henry: vídeos mostram a versão de Monique no caso – 20/07/2026 – Cotidiano

PUBLICIDADE


Diante dos jurados, Monique Medeiros da Costa e Silva resumiu sua defesa em uma frase: “Uma mãe não mata o seu filho”. Presa preventivamente por dois anos e oito meses num pavilhão destinado a detentas por crimes contra crianças e idosos, ela disse ao júri que, se soubesse de algo naquela madrugada, estaria “respondendo por homicídio do Jairinho” ou “enterrada ao lado” do filho.

O júri concordou em parte. Em 4 de junho, após o julgamento mais longo da história do Rio de Janeiro, iniciado em 25 de maio, o conselho de sentença condenou o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão pelo homicídio qualificado de Henry Borel, 4, além dos crimes de tortura e coação no curso do processo.

Para Monique, os jurados afastaram a intenção de matar: desclassificaram a acusação para homicídio culposo e a condenaram apenas por tortura por omissão, a 1 ano e 4 meses —pena já cumprida na fase preventiva. A juíza Elizabeth Machado Louro concedeu a ela o perdão judicial.

A Justiça ainda não julgou os recursos da Promotoria, que tenta anular o perdão perdão a Monique, e a defesa de Jairinho busca invalidar todo o julgamento.

Os vídeos do interrogatório, aos quais a Folha teve acesso, mostram a versão que Monique levou ao plenário: a de uma mulher enlutada, que afirma não ter visto os sinais nem no filho, nem no homem com quem dividia a casa.

A madrugada

Henry morreu na madrugada de 8 de março de 2021, no apartamento da Barra da Tijuca, zona sudoeste do Rio de Janeiro, onde vivia com a mãe e o padrasto. O laudo do IML (Instituto Médico-Legal) apontou laceração hepática provocada por ação contundente e hemorragia interna.

No júri, Monique descreveu minuto a minuto sua versão daquela noite. Contou ter tomado remédio para dormir e encontrado o filho descoberto, de barriga para cima, com os pés gelados —”o olhinho dele olhando para o nada”. Segundo seu relato, Jairinho sugeriu que o menino teria “engolido alguma coisa”; ela respondeu que o filho “não bota nada na boca”.

No hospital, disse, as manobras de ressuscitação se estenderam por duas horas e meia.

Foi também nesse trecho do depoimento que Monique admitiu ter repetido aos médicos, na chegada ao hospital, a versão que atribui a Jairinho —a de que o casal teria “escutado um barulho” e encontrado o menino caído da cama. Ela afirmou ao júri que não ouviu barulho algum.

O luto

Nos dias seguintes à morte, Monique trocou mensagens com o pai. Elas foram lidas em plenário pela sua defesa como registro do luto em tempo real, antes de as suspeitas se voltarem contra o casal.

Nas mensagens, ela se culpa por não ter posto o filho para dormir na cama dele, “que era mais baixa”, e escreve que só não tirava a própria vida porque sua religião não permitia e que queria se encontrar ele. “Sinto tanto a falta dele, que meu coração parece que está sangrando”, disse.

Ao júri, ela relatou ainda o colapso físico daquelas semanas —arrancava os cabelos, roía as unhas até sangrar, parou de comer— e contestou o uso de uma fotografia sua que circulou à época: segundo ela, a imagem foi tirada de contexto, e uma primeira foto, em que aparecia chorando, enviada a uma madrinha em tratamento de câncer, nunca veio a público.

Monique e Jairinho foram presos um mês após a morte de Henry. A ruptura entre os dois, segundo o relato dela ao júri, aconteceu na cadeia, quando as primas lhe mostraram o depoimento de uma ex-namorada do ex-vereador afirmando que ele estava acordado, trocando mensagens, na madrugada da morte.

Até ali, Monique sustentava a versão de que Jairinho havia tomado remédio para dormir, orientação que, segundo ela, partiu do advogado que então defendia os dois.

“Nesse momento eu entendi que o Jairo não tomava remédio”, disse ao júri. No reencontro seguinte, ela contou ter batido no rosto dele: “Falei para ele: você matou meu filho”. Jairinho, segundo o relato, pegou uma Bíblia e jurou nunca ter encostado no menino. “Nesse momento eu acredito ainda no Jairo”, admitiu ela aos jurados.

As defesas

Em seu próprio interrogatório, Jairinho negou as acusações. Sua defesa sustentou que os depoimentos das ex-namoradas que o acusam de violência —inclusive o que provocou a virada de Monique— teriam sido articulados por pessoas ligadas a Leniel Borel, pai de Henry.

O ex-vereador reconheceu apenas “escolhas insensatas”: “Algumas dessas coisas insensatas foram algumas das traições que eu fiz”.

Os interrogatórios expuseram estratégias opostas. Monique se apresentou como mãe enlutada e mulher manipulada dentro de um relacionamento que só entendeu como abusivo depois da tragédia —tese que sua defesa sustentou nos debates. Jairinho se apresentou como alvo de um julgamento midiático; a primeira pergunta de seu advogado registrou que “a mídia” o tratava “como monstro”.

Ao conceder o perdão judicial, a juíza Elizabeth Machado Louro afirmou que Monique já havia sofrido punição suficiente, citou a perda do único filho, as agressões que ela teria sofrido na prisão e o que chamou de “massacre nas redes”.

A magistrada classificou a reação da sociedade contra a ré como desproporcional e discriminatória, fruto de uma cultura que exige da mulher ser uma “mãe perfeita”.

Jairinho também foi condenado a indenizar Leniel Borel em R$ 400 mil por danos morais. Ele cumpre pena em regime fechado. Cabe recurso da decisão.



Fonte.:Folha de S.Paulo

Leia mais

Rolar para cima