O ex-prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (PSD) tenta nas eleições deste ano levar pela primeira vez neste século um ex-prefeito da capital fluminense ao Palácio Guanabara. Desde Marcello Alencar (PSDB), eleito em 1994, nenhum egresso do Palácio da Cidade governou o estado.
A tentativa, a terceira de Paes, ocorre num momento em que lideranças da região metropolitana, principalmente da Baixada Fluminense, ganham força local e ascensão nacional.
O deputado federal Doutor Luizinho (PP), com base em Nova Iguaçu, almeja comandar a Câmara dos Deputados. No início do governo Lula, a deputada Daniela Carneiro (Republicanos), com base em Belford Roxo, foi ministra do Turismo, cargo que Paes desejava para o aliado Pedro Paulo (PSD), deputado federal.
O principal adversário do ex-prefeito na disputa será o presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), Douglas Ruas (PL), que tem base eleitoral em São Gonçalo, terceiro colégio eleitoral do estado. Em seu primeiro mandato como deputado estadual, ele tem como padrinho político o deputado federal Altineu Cortes (PL), vice-presidente da Câmara e postulante a uma vaga no TCU (Tribunal de Contas da União).
Para a historiadora Marly Motta, a Baixada Fluminense intensificou a produção de lideranças próprias após o fim do governo Leonel Brizola (1991-1994), que mantinha ascendência na região.
“Antes, as pessoas trabalhavam no Rio e dormiam na Baixada. Não é mais assim, porque a Baixada hoje tem dinâmica própria de desenvolvimento, setores próprios de desenvolvimento, principalmente na área de serviço. A Baixada Fluminense, do ponto de vista político, de alguma maneira se isolou da cidade do Rio de Janeiro, o que criou uma maior dificuldade para você criar zonas de consenso”, afirma Motta.
“Hoje, a Baixada é um elemento dificultador, sem nenhum tipo de avaliação quanto à qualidade das pessoas. Mas na medida em que ela se separa da lógica política da capital, vai tendo uma identidade própria e condições de sentar na mesa e exigir determinadas condições de apoio ao governo.”
Paes escolheu Jane Reis (MDB), irmã do ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis (MDB), para acompanhá-lo na chapa. Ruas aliou-se ao ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa (PP), que acabou desistindo de ser o vice.
O município do Rio de Janeiro tem 4,9 milhões de eleitores, que representam 38,5% do total do estado.
Há 32 anos, Marcello Alencar foi eleito governador com 56% dos votos válidos no estado. Na capital, que ele administrou por dois mandatos (1983-1986 e 1989-1993), o ex-governador conseguiu 69%.
Desde então, o único governador eleito que obteve um resultado melhor na capital do que no cômputo geral do estado foi Luiz Fernando Pezão (MDB), em 2014. O emedebista tem origem política no Sul Fluminense.
O ex-prefeito Cesar Maia tentou chegar ao Palácio Guanabara em 1998. Venceu na capital, com 53% dos votos válidos, mas perdeu a disputa com Anthony Garotinho, que obteve 58% dos votos.
Paes também perdeu após ter passado pelo Palácio da Cidade. Ele foi superado em 2018 por Wilson Witzel, que obteve 60% dos votos válidos. Na capital, o ex-prefeito venceu com 52% dos votos.
O candidato do PSD vem intensificando as agendas no interior para evitar ficar associado com os interesses da capital, que governou por quatro mandatos a partir de 2009.
Nas redes sociais, divulga animações de um carro nas estradas do estado mostrando a quilometragem percorrida em suas viagens. Ele passou a usar um chapéu de vaqueiro em algumas agendas, como a que ordenhou uma vaca em Macuco. O adereço substitui o chapéu panamá que o ex-prefeito costumava usar no Carnaval carioca.
Douglas Ruas, por sua vez, vem tentando caracterizar a estratégia de Paes como a de um político que está conhecendo o estado agora. Ele aponta seu trabalho na Secretaria Estadual das Cidades na gestão Cláudio Castro (PL) como um ativo de sua alegada experiência em trabalhar junto aos prefeitos do interior.
Para Marly Motta, a dificuldade de ex-prefeitos da capital em chegar ao Palácio Guanabara se deve à falta de integração entre o antigo estado da Guanabara com o restante do Rio de Janeiro, fundidos em uma única unidade da federação em 1975.
“Desde o Cesar Maia passando pelo Eduardo Paes, que são os dois grandes prefeitos, pelo número de mandatos, eles sempre investiram na capitalidade do Rio de Janeiro. […] Você tem um fator desmobilizador desse projeto estadual de juntar a cidade, com toda aquela tradição de centro cultural e cabeça do país, e um estado visto como de quarta categoria”, afirmou a historiadora.
Ela afirma que os governadores que mais chegaram perto de cumprir esse papel foram Moreira Franco (MDB), com base eleitoral fora da capital, e Sérgio Cabral, que havia sido presidente da Alerj por oito anos antes de assumir o Palácio Guanabara.
Cabral tentou ser prefeito do Rio de Janeiro em 1996, mas perdeu para Luiz Paulo Conde. Nas duas eleições que venceu para o Palácio Guanabara, ganhou na capital, mas com margem menor do que no restante do estado.
Fonte.:Folha de S.Paulo


