Enquanto o elefante-africano e a tartaruga-de-pente não eram espécies ameaçadas de extinção, os fabricantes de instrumentos musicais usavam pedaços da presa de um e do casco da outra por suas qualidades acústicas ou decorativas. Esses animais agora estão protegidos, mas muitas peças mais antigas, como violoncelos e fagotes, feitas com esses materiais continuam sendo usadas —e dá para imaginar os problemas resultantes disso.
Como o impasse ocorrido em 2014, durante uma operação internacional de repressão ao comércio de marfim, que acabou tendo grande repercussão: as autoridades do aeroporto John F. Kennedy, em Nova York, confiscaram diversos arcos dos instrumentistas da Orquestra do Festival de Budapeste porque continham pontas de marfim, embora tenham sido fabricados antes da formalização da ilegalidade.
Os arcos acabaram sendo devolvidos, mas as dúvidas sobre materiais protegidos persistem, levando muitos músicos, temendo pelos instrumentos de dezenas ou centenas de milhares de dólares, a retirar materiais proibidos de suas peças.
Rafael Figueroa, principal violoncelista da Orquestra da Ópera Metropolitana, por exemplo, substituiu a peça de marfim original de seu arco de quase cem anos, avaliado em US$ 30 mil (R$ 153 mil), por uma de prata, e o cordal de pau-rosa de seu violoncelo por um de ébano. “Ouvi tantas histórias horríveis de confisco dos colegas, inclusive gente com a documentação em ordem. Ficou quase impossível recuperá-los.”
Só que nem todas as partes podem ser substituídas tão facilmente quanto a ponta de marfim de um arco. Em meados de 2025, o governo brasileiro causou pânico ao propor o aumento das proteções internacionais para uma árvore ameaçada de extinção: o pau-brasil, utilizado na grande maioria dos instrumentos de corda.
Como resultado, milhares desses objetos podem estar sujeitos a apreensão na alfândega, comprometendo o setor de turnês orquestrais, que movimenta milhões de dólares, e forçando os músicos a pensar em materiais alternativos, como a fibra de carbono.
Porém, a relação entre a madeira e a música não é um caso típico de consumo excessivo de recursos ambientais; seus principais consumidores, ou seja, os fabricantes de arcos, têm se empenhado para conservá-la. Há décadas trabalham para documentar os estoques legais, rastrear a proveniência das peças acabadas e replantar milhões de árvores.
Chase Maggiano, restaurador da Rare Violins de Nova York, disse: “Para colocar as coisas em perspectiva no que diz respeito ao desmatamento: geralmente um fabricante de arcos utiliza, ao longo da vida, o equivalente a uma única árvore”.
Ao lado de um grupo de colegas, ele liderou uma reação contra a iniciativa brasileira de aumentar as proteções, mobilizando músicos do mundo inteiro, bem como pesquisadores ambientais —e tiveram sucesso.
Na edição mais recente da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (conhecida como Cites), que regulamenta espécies ameaçadas, os representantes dos EUA e de outras nações convenceram o Brasil a chegar a um acordo: em vez de aumentar as proteções de forma generalizada, agora são exigidas autorizações governamentais rigorosas para a maior parte das atividades comerciais internacionais envolvendo o pau-brasil, o que inclui a venda ou o comércio de arcos.
A indústria das turnês de orquestras suspirou aliviada —afinal, músicos podem continuar viajando sem se preocupar com seus instrumentos. Entretanto, essa suspensão pode ser temporária: já se espera que a questão seja abordada na próxima reunião da Cites, em 2028, quando serão apresentadas pesquisas atualizadas sobre a situação de conservação da árvore.
Até lá, os fabricantes continuam atuando para protegê-la por meio de diversos programas, incluindo um projeto novo de reflorestamento, anunciado em junho por uma iniciativa internacional de conservação com o objetivo de ajudar a restaurar uma importante bacia hidrográfica destruída pelo desmatamento perto de Pau Brasil, cidade no interior da Bahia.
Mercado ilegal
Não é fácil conservar a espécie. A árvore, cujo nome científico é Paubrasilia echinata, é exigente, pois cresce apenas na umidade da mata atlântica, um dos ecossistemas terrestres de maior diversidade biológica do planeta.
Décadas de expansão agrícola e séculos de exploração colonial levaram o governo federal a declará-la ameaçada de extinção em 1992.
Os madeireiros, às vezes, vão atrás de uma única árvore lá no meio da floresta
Antes disso, contudo, praticamente todos os fabricantes de arcos estocavam a madeira, segundo Rodney Mohr, luthier que vive em Ohio (Canadá) e adquiriu mais de 450 quilos em 1991 de uma madeireira que a havia importado na década de 1960. “Nunca houve uma fonte boa e confiável. Por isso, quando você dava sorte de encontrar uma leva de boa qualidade, tinha de comprar o máximo possível”, explicou, por email.
Decretada a ameaça de extinção, nasceu um mercado de contrabando bastante ativo, que ainda existe. Depois que o governo brasileiro e a Cites reforçaram as medidas de proteção, o valor aumentou, levando a casos ousados de extração ilegal com o uso de alta tecnologia.
“Os madeireiros, às vezes, vão atrás de uma única árvore lá no meio da floresta. Tenho certeza absoluta que é para a fabricação de arcos”, afirmou Daniel Piotto, professor de agrossilvicultura da Universidade Federal do Sul da Bahia.
De acordo com um relatório de 2022 do Projeto de Reportagem sobre Crime Organizado e Corrupção, agentes ambientais apreenderam mais de 150 mil arcos e hastes de madeira e aplicaram multas às madeireiras e aos fabricantes de arcos que utilizam pau-brasil de origem ilícita, totalizando mais de US$ 10 milhões (R$ 51 milhões).
Qualidade sonora única
O pau-brasil continua sendo o material preferido de praticamente todos os instrumentistas profissionais. Quando o relojoeiro parisiense François Xavier Tourte passou a se dedicar à fabricação de arcos, em meados da década de 1770, experimentou várias e acabou optando pela espécie —que até então era utilizada como lastro dos navios e no tingimento de roupas—, devido à densidade e flexibilidade. Os concorrentes passaram a imitá-lo.
“Se algo melhor tivesse sido descoberto nos últimos 150 anos —e ainda continuam procurando—, não haveria tanta revolta em relação [à proteção do] pau-brasil”, afirmou Maggiano, que no início deste ano apresentou uma exposição de arcos históricos raros em Nova York, inclusive alguns fabricados por Tourte, que valem mais de US$ 1 milhão.
Há uma certa reverência; somos totalmente contra qualquer atividade ilegal
Desde a implantação das novas regras, em março, ele não teve experiências traumáticas na alfândega. “O processo ficou um pouco mais complicado, mas vale a pena.”
A fabricação de arcos de alta qualidade é um ofício artesanal, mas está em declínio, em parte devido à dificuldade de obtenção da madeira de origem legal. A maioria dos profissionais também atua na restauração —como a contrabaixista Lynn Hannings, que dedica mais tempo à manutenção de peças do que à produção de itens novos e é vice-presidente da Aliança Internacional de Fabricantes de Violinos e Arcos para Espécies Ameaçadas de Extinção.
“Há uma certa reverência; somos totalmente contra qualquer atividade ilegal”, disse ela, estimando que haja apenas cerca de 50 fabricantes artesanais de arcos nos EUA. “Obedecemos a tradições e técnicas antigas para lidar com os materiais, e leva muito tempo para aprender a fazer essas coisas de forma correta.”
Alternativa tecnológica
Por outro lado, o crescimento da fabricação de arcos de fibra de carbono é quase linear há pelo menos 30 anos, mas muitos músicos e fabricantes consideram o material claramente inferior.
Muitos, mas não todos eles.
O engenheiro mecânico Bernd Müsing fabrica arcos de fibra de carbono na empresa alemã Arcus Bows. Fundada em 1999, sua produção cresceu de apenas 50 para cerca de 2.000 arcos por ano. Ele desdenha do pau-brasil, principalmente por razões científicas.
Tourte começou a usar pau-brasil em uma época em que os fabricantes de instrumentos utilizavam materiais mais macios para as cordas, principalmente tripa de ovelha. Hoje, elas são feitas fibras sintéticas, envoltas em metal. Müsing, que é violinista amador, fez medições cuidadosas e descobriu que os arcos de carbono deslizam de forma mais rápida e suave sobre cordas revestidas de metal do que os de madeira, e que o carbono tem menos efeito de amortecimento na ressonância natural do instrumento.
Alguns músicos, como o violinista Jeremy Black, spalla da Grant Park Orchestra em Chicago e segundo violino principal da Orquestra Sinfônica de Pittsburgh, migraram para arcos de carbono por causa da praticidade e do preço mais acessível.
“Tenho pensado no meu arco mais como uma ferramenta e menos como um objeto com o qual você tem uma conexão artística profunda”, disse Black, acrescentando que usar o arco de carbono é um pouco mais cansativo, “como segurar um barbeador elétrico”.
Status de conservação
A questão fundamental para determinar o futuro do pau-brasil é o número atual de árvores. Quando o governo brasileiro tentou ampliar a proteção à madeira, citou uma pesquisa afirmando que a população tinha diminuído em 84% nas últimas três gerações e que existiam apenas cerca de 10 mil exemplares adultos. O documento reconhece, porém, a falta de dados confiáveis.
Já os fabricantes de arcos e pesquisadores, incluindo Piotto, baseiam-se nos plantios que fizeram para estimar que haja mais de 2 milhões em crescimento. Porém, como muitas estão se desenvolvendo em plantações, e não no habitat natural da floresta, parte deles já questiona a qualidade da madeira quando atingirem a maturidade, ou seja, daqui a cerca de 20 anos.
Fonte.:Folha de S.Paulo


