Existem cidades brasileiras onde a natureza sobrevive contra todas as previsões. No norte da Bahia, em plena Caatinga, um município é uma das portas de entrada de uma ecorregião de 38 mil km² que abriga a única casa selvagem da arara-azul-de-lear, ave dada como extinta por cem anos e redescoberta em 1978. Também guarda memórias das duas maiores histórias do sertão brasileiro: Canudos e o cangaço.
Como um município do sertão baiano virou porta de entrada do Raso da Catarina?
Jeremoabo fica no norte da Bahia, no coração do sertão baiano. A região foi originalmente habitada pelos indígenas tupinambás, dos ramos muongorus e cariacás. A colonização se deu no século XVII, com forte presença da pecuária associada à Casa da Torre, o vasto latifúndio de Garcia d’Ávila, um dos maiores da América portuguesa da época.
Nos últimos anos, o município ganhou visibilidade nacional como parte da rota turística do Raso da Catarina. A recente série de televisão Guerreiros do Sol, exibida em 2025, ampliou o interesse por rotas ecológicas e culturais na região. A cidade se firmou como um dos pontos de acesso para expedições ao interior da ecorregião, com a caatinga como paisagem dominante e temperaturas que podem chegar a 43°C.

Por que a arara-azul-de-lear vive exclusivamente na região?
Segundo o portal oficial do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari) é uma espécie endêmica do Raso da Catarina. O último censo divulgado pelo instituto registrou 1.354 araras na natureza, sinal de recuperação da população em áreas protegidas.
O nome da ave é uma homenagem ao artista, escritor e explorador inglês Edward Lear (1812-1888), que a retratou em ilustrações no século XIX. A espécie ficou dada como extinta na natureza por quase cem anos, até que uma expedição do ornitólogo alemão Helmut Sick, em dezembro de 1978, encontrou 21 indivíduos na região da Toca Velha, próxima a Euclides da Cunha. Hoje, as araras pernoitam e se reproduzem em cavidades dos paredões de arenito, que chegam a 58 metros de altura. As áreas de alimentação se espalham por vários municípios do entorno, com voos que passam de 60 km por dia.

Como a história de Lampião e Canudos se conecta à região?
O Raso da Catarina foi cenário de dois dos episódios mais marcantes da história do sertão brasileiro. Perto de Canudos, o pregador Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro (1830-1897), fundou uma comunidade de fé que resistiu ao Exército brasileiro em quatro expedições militares no final do século XIX, na Guerra de Canudos.
Décadas depois, foi a vez do cangaço. O Vale dos Cangaceiros, no interior da ecorregião, é apontado como palco de confrontos entre o bando de Lampião e as forças policiais. A caatinga densa e os cânions do Raso serviam de esconderijo natural. As trilhas atuais, guiadas por moradores da região, misturam o interesse ambiental com o resgate histórico dos dois episódios. As paisagens rochosas, com paredões avermelhados e formações de arenito, ganharam apelido de “Grand Canyon brasileiro” entre visitantes.
Que atrações completam a experiência sertaneja?
Além das áreas protegidas e das rotas históricas, o município oferece atrações que preservam a cultura sertaneja. Confira abaixo os destaques:
- Trilhas guiadas no Raso da Catarina: percursos por cânions, mirantes e áreas de observação de aves, sempre com guias locais credenciados.
- Cavalgada dos Vaqueiros: tradição sertaneja com pega de boi, típica da cultura do gado bovino da região.
- Comunidades indígenas Pankararés: povos originários que ainda ocupam áreas dentro do Raso da Catarina.
- Formações de arenito: paredões que chegam a 584 metros de altitude no ponto mais alto, com vista do sertão até o horizonte.
- Sítios arqueológicos: vestígios de ocupação humana pré-colonial, com pinturas rupestres e artefatos.
- Gastronomia sertaneja: pratos com carne de bode, buchada, sarapatel, umbu, licuri e outros frutos típicos da caatinga.
- Toca Velha: um dos principais dormitórios da arara-azul-de-lear, ponto de observação da revoada ao amanhecer.
Este vídeo do canal Turistando Forever, com 762 visualizações, apresenta um registro visual de Jeremoabo (Bahia), município conhecido popularmente como a terra da arara-azul, localizado na região nordeste do estado
Como é o clima em Jeremoabo?
A cidade tem clima semiárido, com pouca chuva e altas temperaturas na maior parte do ano. Confira abaixo as médias por estação:
22-35°C
🌤️ Média
Dias quentes e marcantes ideais para apreciar a espetacular revoada das araras-azuis ao amanhecer.
REVOADA DAS ARARAS-AZUIS
21-33°C
☔ Alta
Período de transição ideal para explorar trilhas na caatinga e realizar observação de aves.
TRILHAS NA CAATINGA
18-30°C
☀️ Baixa
Ideal! Clima mais ameno e seco perfeito para visitar a Estação Ecológica e os memoriais históricos.
ESTAÇÃO ECOLÓGICA
21-34°C
☀️ Baixa
Temperaturas elevadas excelentes para conhecer cânions, mirantes e mergulhar na cultura sertaneja.
CÂNIOS E MIRANTES
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Jeremoabo?
A cidade fica a cerca de 390 km de Salvador, com acesso principal pela BR-116 e depois pela BA-220. O trajeto de carro leva em média cinco horas partindo da capital baiana. Também é possível chegar por Paulo Afonso, cidade próxima ao Rio São Francisco.
O Aeroporto de Paulo Afonso é o mais próximo, com voos regulares para Salvador. O Aeroporto Internacional de Salvador atende quem chega de outros estados. Linhas regulares de ônibus intermunicipais partem do Terminal Rodoviário de Salvador. A cidade permite roteiros combinados com Canudos, Euclides da Cunha, Paulo Afonso e o Cânion do Rio São Francisco.
Uma cidade onde o sertão dividiu o mesmo endereço com a última casa da arara-azul-de-lear
Poucos endereços brasileiros conseguem juntar em pouco espaço uma ecorregião de 38 mil km² de caatinga preservada, a única casa selvagem de uma das aves mais raras do mundo, os cenários da Guerra de Canudos e as trilhas do cangaço. A combinação faz de Jeremoabo um destino sensorial e histórico completo no sertão baiano, com camadas que atravessam do período dos indígenas tupinambás ao ritmo contemporâneo do ecoturismo científico.
Fonte. MG.Superesportes


