Pegar o trem do aeroporto de Pequim até a rua Qianmen é como viajar no tempo. A moderna e prática recepção pós-vôo abre espaço para a histórica entrada da antiga cidade, reconstruída para as Olimpíadas de 2008. Para fazer atravessia, é preciso passar por um processo de revista na entrada de cada estação.
À primeira vista intimidador, o processo vira costumeiro, e a tranquilidade dos trabalhadores responsáveis por ele pode desembocar em divertidas interações.
As estruturas de controle aparentemente rígidas contrastam com a maleabilidade dos cidadãos de Pequim. O carisma e a disposição para ajudar dessas pessoas fazem com que a China não pareça tão distante do Brasil. Se a língua for um problema, muitos prontamente sacam um tradutor para fazer possível o diálogo.
A tecnologia atravessa a vida da cidade e se faz necessária para qualquer deslocamento ou compra. Quem viaja para a China precisa chegar ao país com os aplicativos WeChat e Alipay configurados. Com o uso de dinheiro físico cada vez menos comum, é através dessas ferramentas que as passagens de metrô e ingressos são pagos.
Para visitar a principal e mais deslumbrante atração de Pequim, a Cidade Proibida, é recomendável não só comprar os ingressos com antecedência como realizar a reserva gratuita pelo Wechat. Na alta temporada, os bilhetes costumam sair por 60 yuans (R$ 45,50).
Ela vale para a entrada na imensa e monumental Praça da Paz Celestial, cercada pelo Mausoléu de Mao Tsé-Tung, pelo Museu Nacional da China, pelo Congresso Nacional do Povo e pela antiga cidade-residência que abrigava o imperador, sua família, eunucos e servos. A exclusividade dos recintos murados a essas pessoas é o que confere o nome à Cidade Proibida.
O destino turístico, eixo de Pequim, é uma cidade à parte, imensa. A visitação pode ocupar um dia inteiro sem se tornar entediante. São numerosos os pátios gigantes, deslumbrantes jardins e construções bem preservadas que serviam aos mais variados propósitos.
O Palácio de Verão, a noroeste do centro, era para onde o comando da dinastia Qing se orientava quando o calor intenso deixava desconfortável o dia a dia na Cidade Proibida. Em meio às árvores e ao redor de um enorme lago artificial, a brisa atravessa os longos corredores que ligam as distintas seções do complexo. É possível comprar bilhetes para passeios de barco que permitem um panorama geral: custam 100 yuans (cerca de R$ 75).
Grande é uma palavra que caracteriza bem os principais pontos turísticos da capital chinesa. É também a que adjetiva uma das maravilhas do mundo, a Muralha da China, com três principais seções acessíveis por Pequim.
A cerca de 70 quilômetros, Badaling é a mais próxima do centro da cidade, mas também a mais popular e restaurada, o que significa que costuma ser mais lotada. O trecho mais autêntico é o de Jinshanling, a 130 quilômetros da região central, que pela distância pode exigir o dia inteiro para visitação.
Um meio-termo é Mutianyu, seção conhecida também pelo tobogã de descida, menos divertido e veloz do que aparenta. Fica a uma distância de mais ou menos 75 quilômetros da área central.
Quanto mais cedo pela manhã, menos gente circula de um lado para o outro. A muralha propicia vistas deslumbrantes e um momento de contemplação que lembra os vividos por Marina Abramović e Ulay em “Os Amantes” (1988), quando os artistas partiram de cada ponta da muralha para encerrarem a longínqua relação em seu último encontro.
Voltando para a região mais central da cidade, o entorno do lago Houhai, no distrito de Xicheng, oferece inúmeras opções para jantar. O sabor vai da tradicional comida chinesa até um restaurante de jazz que serve fish and chips.
Nas ruas e becos que contornam o lago há uma atração gratuita de grande valor, que são os shows de idosos que se reúnem com dispositivos móveis para cantar karaokê. Faça noite ou faça sol, os cidadãos de Pequim com tempo livre estarão na rua revezando-se na cantoria.
No Templo do Céu, a imensidão do parque, coberto de verde e de animais, contrasta com a imagem da China que circulava no início do século, cinza de poluição. Pessoas jogam tênis, correm e jogam conversa fora sentadas nos bancos que se espalham pelos 273 hectares. Ingressos para visita ao templo costumam custar 35 yuans na alta temporada —cerca de R$ 26,50.
Se aproximando do corredor principal que direciona ao Altar de Oração pelas Boas Colheitas, o fluxo de pessoas aumenta consideravelmente e vemos muitas famílias trajadas de vestes que remetem às antigas dinastias. Esta visão é comum não só ali como em todos os outros principais pontos turísticos. Muitos se produzem com dedicação para ensaios fotográficos.
A cerca de uma hora de distância do Templo do Céu, após baldeação entre duas linhas do metrô, a 798 Art Zone reorganiza um espaço da cidade. Onde antes existiam indústrias armamentistas, hoje existem galerias de arte contemporânea, lojas e cafés que ocupam as instalações.
A quantidade de pessoas circulando pelo bairro é consideravelmente menor do que nos pontos turísticos mais tradicionais, permitindo uma visitação mais calma, que faz valer a pena conhecer um cenário artístico pouco difundido. O contraste da nova proposta coexistindo com o passado militar também chama atenção e a arquitetura inquietante das redondezas deixa uma marca na viagem.
No caminho de volta para o aeroporto, este repórter é abordado por uma estudante de 15 anos que ofereceu ajuda com a bagagem. A jovem aproveitou o momento para treinar o inglês enquanto dividia o mesmo vagão no metrô. Falou sobre seus interesses escolares e advertiu sobre os crescentes ataques de ursos no Japão, sobre os quais tomou conhecimento pelas notícias.
Fonte.:Folha de S.Paulo


