
O cardiologista Roberto Kalil Filho, professor da Universidade de São Paulo (USP), negou nesta sexta-feira (7) ter feito ao médico americano Anthony Fauci comentários “sobre a personalidade, o caráter ou o comportamento” do então presidente Jair Bolsonaro durante conversas mantidas no período da pandemia de Covid-19. A manifestação foi enviada à Gazeta do Povo quatro dias após uma reportagem sobre o assunto, em resposta a um pedido de esclarecimento que havia sido feito antes da publicação.
Kalil confirmou que manteve contatos com Fauci em março de 2021, quando auxiliava informalmente o então ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, em tratativas internacionais para tentar obter vacinas contra a Covid-19 para o Brasil. Segundo ele, porém, eventuais anotações feitas pelo médico americano sobre Bolsonaro não reproduzem declarações suas.
“É importante esclarecer, de forma absolutamente inequívoca, que eu jamais fiz qualquer consideração sobre a personalidade, o caráter ou o comportamento do então Presidente Jair Bolsonaro ao Dr. Fauci ou a qualquer outra pessoa”, afirmou Kalil.
O professor explicou que já conhecia Queiroga antes de sua chegada ao Ministério da Saúde e que, após a posse do cardiologista no cargo, passou a ajudá-lo em contatos no exterior. Segundo Kalil, foram feitas conversas tanto com o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, quanto com Fauci, que ocupava um dos postos centrais da resposta americana à pandemia.
Nas conversas com Fauci, segundo Kalil, a intenção era conseguir para o Brasil parte das doses de vacinas adquiridas em excesso pelos Estados Unidos. Ele afirma que informou ao médico americano que Bolsonaro, apesar de fazer manifestações públicas contrárias às vacinas, havia solicitado a Queiroga que encontrasse uma maneira de ampliar a vacinação dos brasileiros.
Kalil disse ainda que, depois de uma reunião com Fauci, Queiroga lhe pediu que tentasse novamente estabelecer contato particular com o médico americano devido ao elevado número de mortes registrado naquele momento. O professor então enviou nova mensagem insistindo na liberação de vacinas para o Brasil.
O cardiologista contestou, contudo, que anotações ou interpretações registradas por Fauci possam ser apresentadas como palavras suas. “Eventual registro, anotação ou interpretação pessoal constante de documentos ou registros do Dr. Fauci não constitui declaração feita por mim e não pode ser atribuída à minha autoria”, afirmou.
Confira o esclarecimento de Kalil na íntegra:
Em março de 2021, a situação da COVID no Brasil era dramática: 3 mil mortes por dia. Havia vacinas no mundo, mas o Brasil não as tinha.
Eu já conhecia o Dr. Queiroga quando ele assumiu o Ministério da Saúde (até então, era Presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, e eu havia feito vários webinars para explicar aos cardiologistas brasileiros questões relativas à COVID).O Ministro pediu que eu o ajudasse nas questões internacionais, pelos contatos que eu tinha. Falamos com o Diretor-Geral da OMS, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, e com o Diretor do Instituto Nacional de Saúde americano, responsável pelo combate à COVID, Dr. Fauci.
Com a OMS, pedimos as vacinas prometidas no Programa COVAX e que não haviam sido entregues. Com o Dr. Fauci, solicitamos ajuda com a obtenção de vacinas, pois os EUA haviam comprado doses em excesso.
Informamos ao Dr. Fauci que, apesar de o Presidente Bolsonaro, publicamente, manifestar-se contra as vacinas, ele havia pedido ao Ministro que conseguisse uma forma de vacinar os brasileiros. O Dr. Fauci explicou que, por determinação do Governo americano, as vacinas não poderiam sair dos EUA enquanto todos os norte-americanos não fossem vacinados.
Terminada a reunião, o Ministro Queiroga pediu que, tendo em vista as tratativas que eu vinha mantendo com o Dr. Fauci em favor dos interesses do país, diante do elevado número de mortes, eu tentasse novamente estabelecer contato em comunicação privada.
Escrevi a ele, insistindo na necessidade das vacinas, apesar de o Presidente Bolsonaro ser contra a vacinação em manifestações públicas.
É importante esclarecer, de forma absolutamente inequívoca, que eu jamais fiz qualquer consideração sobre a personalidade, o caráter ou o comportamento do então Presidente Jair Bolsonaro ao Dr. Fauci ou a qualquer outra pessoa.
Eventual registro, anotação ou interpretação pessoal constante de documentos ou registros do Dr. Fauci não constitui declaração feita por mim e não pode ser atribuída à minha autoria.
Em toda a minha trajetória acadêmica, como professor, médico e cientista, sempre atuei pautado pelo interesse público e pela busca de soluções para o país, independentemente de governos, posições políticas ou orientações ideológicas. Minha trajetória profissional e acadêmica é pública e permite verificar essa postura ao longo de décadas.
Fonte. Gazeta do Povo


