
Ataques realizados por adolescentes em escolas deixaram de ser uma exclusividade dos Estados Unidos. Aos poucos, essa realidade se tornou cada vez mais comum no Brasil. Desde 2011, o país já registrou pelo menos 20 episódios desse tipo e a frequência está aumentando.
Casos marcantes como o de Realengo/RJ, em 2011, quando 12 estudantes foram mortos; Suzano/SP, em 2019, com sete mortes; Blumenau/SC com quatro crianças mortas em uma creche, em 2023; e agora em 2026, na cidade de Rio Branco/AC, quando duas funcionárias morreram após um ataque, alertam que esse tipo de violência extrema não é algo isolado. A boa notícia é que existem formas de identificar sinais de alerta e evitar muitas dessas ocorrências.
Bianca Machado, tenente-coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro, psicanalista e especialista em inteligência emocional, explica que em todos os casos brasileiros citados já existiam indícios antes dos ataques.
“A pergunta a ser feita é: como a polícia pode atuar antes, durante e depois do ato? Precisamos avaliar os sinais de alerta, perceber como é a comunicação da comunidade escolar com a polícia e seguir padrões internacionais de avaliação dos casos”, explicou, durante sua palestra no Fórum Internacional de Ciências Policiais, realizado em Curitiba (PR), em julho.
Uma das mudanças de paradigma na prevenção de ataques a escolas, segundo a tenente-coronel, está na forma de identificar potenciais agressores. Durante anos, a resposta a essas tragédias concentrou-se na busca por um suposto perfil biológico do autor. Essa abordagem, porém, foi superada e, de acordo com a literatura criminológica internacional mais recente, a recomendação passou a ser outra: observar o comportamento, o contexto e os indícios de intenção do suspeito, em vez de recorrer a estereótipos.
“Depois do massacre de Columbine, nos Estados Unidos, em 1999, o FBI desenvolveu a Avaliação e Gerenciamento de Ameaças Comportamentais (Behavioral Threat Assessment and Management) e mudou a estratégia de prevenção. Deixou-se de investigar quem é o provável atirador para analisar quais comportamentos e atitudes indicam a evolução de uma pessoa para a violência.”
Sob essa perspectiva biopsicossocial, entende-se que fatores biológicos, traumas da infância e o ambiente social e socioeconômico interagem entre si, podendo favorecer o isolamento, a agressividade acumulada e, em casos extremos, a evolução para comportamentos violentos.
Entre os comportamentos que merecem atenção estão ameaças diretas ou indiretas contra colegas e professores, manifestações de intenção violenta, interesse obsessivo por ataques anteriores, tentativas de acesso a armas, mudanças bruscas de comportamento após perdas ou humilhações e mensagens de despedida ou vingança.
Ataques costumam ser anunciados entre colegas antes de acontecer
A identificação precoce dessas questões comportamentais passa pela participação do seu próprio grupo. Os adolescentes circulam a informação entre si, mas esse movimento é frequentemente negligenciado.
“Segundo um estudo do serviço secreto norte-americano, em 80% dos ataques planejados nas escolas comentários sobre o assunto já circulavam entre os alunos. Só que eles não foram levados a sério ou não havia um canal de comunicação para mediação.”
Outro estudo do FBI identificou que havia “uma espécie de código de silêncio entre os estudantes, que é aquela ideia de que você denunciar uma coisa desse tipo é ridículo. Muitos achavam que poderiam ser cobrados depois por contar”, disse.
Por isso é importante que professores, diretores e inspetores estejam sempre atentos aos “burburinhos” entre os alunos. E que haja a integração da comunidade escolar com a polícia para que seja possível evitar os ataques. Também é preciso estar atento, segundo Bianca, a fenômenos como o bullying e o cyberbullying, que geram memórias traumáticas e um sentimento destrutivo de rejeição.
“O adolescente possui uma necessidade biológica e psicológica de pertencimento. Quando ele é rejeitado e excluído sistematicamente, esse sofrimento não canalizado pode se transformar em um desejo destrutivo de retaliação contra a comunidade escolar.”
Canal exclusivo para denúncias facilita o trabalho de prevenção
A polícia precisa deixar de atuar apenas como força de resposta emergencial e assumir também um papel permanente de parceria com a comunidade escolar, explica a tenente-coronel. A proximidade física e o diálogo constante entre policiais, diretores e alunos geram um fluxo de confiança e informação que permite interceptar ameaças antes da execução do ataque.
“Nós da polícia precisamos nos aproximar dos adolescentes, porque eles não sabem para quem contar sobre determinados assuntos. Eles não confiam em ninguém e precisamos mostrar que somos confiáveis. Se ainda assim tiverem medo da polícia, que tenham canal aberto dentro da escola, que é quem vai transmitir a informação a nós”, afirmou Bianca.
Para ela, o Brasil precisa criar uma linha anônima de comunicação a exemplo do que foi feito no estado do Colorado, nos Estados Unidos, para denúncias de ataques. O Safe2Tell, criado após o ataque de Columbine, é uma plataforma estadual que auxilia no combate à violência escolar e permite que estudantes, pais e profissionais da educação relatem, anonimamente, ameaças ou comportamentos preocupantes.
“Essa linha anônima registra cerca de 28 mil denúncias por ano em todo o estado e existe uma triagem que conecta escola, assistentes etc. No Brasil, não temos algo semelhante ainda e o 190 recebe todo o tipo de ligação e denúncia, o que dificulta o trabalho. Um canal semelhante ao do Colorado facilitaria a atuação da polícia.”
Fonte. Gazeta do Povo


