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11 de agosto de 2026

Studio Museum reúne arte negra do mundo todo em Nova York – 10/08/2026 – Ilustrada

Studio Museum reúne arte negra do mundo todo em Nova York – 10/08/2026 – Ilustrada

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A rua 125, no norte da ilha de Manhattan, em Nova York, é a principal artéria do Harlem, bairro dividido entre o lado leste, de herança latina, e o lado oeste, de herança negra. A via, parcialmente ocupadas por camelôs, reúne filas de lojas de departamento, outlets, restaurantes de fast-food e prédios de serviço social. Mas, desde novembro do ano passado, um novo prédio salta aos olhos.

Incrustado entre um centro de assistência social e um McDonald’s, há um edifício moderno, todo cinza-chumbo com janelões espelhados. Sobre a porta pesada de madeira, flamula uma bandeira dos Estados Unidos, na qual o branco das listras e estrelas é preto, o azul do fundo do céu é verde e as demais listras, vermelhas. São as cores do pan-africanismo.

O edifício abriga, em meio ao caos cotidiano, o Studio Museum, uma espécie de meca da arte negra. O museu, inaugurado em 1968 na sua primeira iteração, voltou à atividade na nova sede em novembro do ano passado, depois de uma reforma milionária que se estendeu por sete anos.

A motivação para a inauguração em 1968, numa sobreloja a dois quarteiões do imponente prédio atual, era a mesma que embala a reabertura, segundo a diretora da instituição Thelma Golden. “Tanto os fundadores quanto os artistas envolvidos com o museu na época estavam profundamente interessados em se entender e entender o trabalho deles nos Estados Unidos em relação à diáspora africana”, diz a curadora, que já passou pelo Whitney Museum.

Na fundação do museu, os Estados Unidos viviam a efervescência dos movimentos por direitos civis da população negra. O fim da segregação racial em relação ao direito ao voto, em 1965, não significou o fim das tensões raciais no país. No mesmo ano, o ativista Malcolm X foi assassinado a 40 quarteirões ao norte do prédio que hoje abriga a instituição. Pouco tempo depois, em 1968, o pastor Martin Luther King Jr. também seria assassinado.

A luta contra o racismo naquele momento era fortemente associada à luta contra a colonização travada em países da África e da Ásia, algo que, segundo Golden, também regia a arte negra da segunda metade do século 20.

Para a diretora, é um momento que se amarra ao presente. A reeleição de Donald Trump, em 2024, foi um baque no mundo das artes. Poucos meses depois de assumir a presidência, Trump assinou a ordem executiva “Restoring Truth and Sanity to American History”, uma caça às bruxas para eliminar o que ele considera ideologia “imprópria, divisiva ou antiamericana”.

“O Studio Museum foi fundado em meio a turbulência política. Era um momento que parecia difícil se mover em direção ao futuro. Me sinto da mesma forma agora”, diz Golden.

Mas ela vê na arte uma luz no fim do túnel e acredita que os artistas têm o poder de construir novos mundos, de imaginar possibilidades que ainda não se concretizaram.

A localização do museu vem com um lastro histórico nesse sentido. Não é de hoje que o Harlem funciona como centro de referência da cultura negra nos Estados Unidos.

No início do século 20, o bairro se tornou um dos principais destino de negros que saíam do Sul, ainda dependente do plantio de algodão e dominado pela segregação racial e pelos supremacistas brancos da Ku Klux Klan.

Borbulhou dessa migração uma renovação cultural e política que colocava a produção negra no centro do debate. O jazz explode, ancorado em uma rota de clubes no bairro e em nomes como Duke Ellington. A experiência negra se torna central na literatura a partir de autores como Langston Hughes e Zora Neale Hurston. Artistas como Aaron Douglas criavam uma nova estética, uma mistura de elementos cubistas com arte africana.

Para Golden, os fundadores estavam comprometidos com a ideia do Harlem, além da geografia. Na época, o bairro era castigado por pobreza e violência. Os fundadores viam o museu como um elemento de infraestrutura que poderia ajudar o Harlem a se reinventar. O museu não está mais em seu local original, uma sobreloja, na Quinta Avenida, a dois quarteiões do prédio atual. Mas nunca saiu do Harlem.

Tampouco se restringiu a ele. “A missão do Studio Museum é reunir artistas de ascendência africana, seja a nível local, nacional ou internacional”, diz a diretora. O resultado é uma coleção que une crias de Nova York, como Jean-Michel Basquiat e Faith Ringgold, a nomes internacionais, caso da brasileira Rosana Paulino e do fotógrafo malinês Seydou Keita.

É um esforço para desafiar a visão estreita que impera nos Estados Unidos sobre a presença negra no resto do mundo, diz Golden.

A relação com o Brasil é central para ela, que esteve no país na Bienal de São Paulo de 2023 e levou a artista Tádáskia ao MoMA em 2024.

Foi nessa visita a São Paulo que Golden viu, em pessoa, as obras de Paulino pela primeira vez. Aquela Bienal contava com dois trabalhos da artista, “Parede da Memória”, de 1994, uma coleção de patuás feitos com fotos da família da artista coladas sobre tecido, e “Mangue”, de 2023, uma série de pinturas que une corpos femininos a raízes altas e espalhadas, típicas de manguezais. Para o museu, a curadora adquiriu a pintura “Gêmeas”, da série “Jatobá”.

Paulino vê na aquisição de sua obra pelo Studio Museum uma forma de dar visibilidade à produção brasileira como um todo. É no Brasil, afinal, que reside a maior população negra fora da África.

“Essa presença significa que questões que atravessam a minha produção encontram um espaço de diálogo com outras experiências da diáspora africana”, diz.



Fonte.:Folha de S.Paulo

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