
Crédito, Collins Photo Agency
- Author, Redação
- Role, BBC News Mundo
- e
- Author, Chris Page
- Role, Correspondente na Irlanda, BBC News
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Tempo de leitura: 9 min
“Acho que todos nós sabemos que não vou ficar em liberdade sob fiança, mas agradeço pelo seu tempo.”
Foi com estas palavras que Daniel Kinahan se dirigiu educadamente ao tribunal de Dublin, na Irlanda, que ordenou sua detenção preventiva no domingo passado (9/8).
Em seguida, ele se desculpou perante os juízes por não ter advogado e garantiu que, “se tiver tempo”, contratará um.
Os modos de Kinahan, de 49 anos, parecem mais os de um banqueiro, advogado ou acadêmico, não os de uma pessoa que figurava entre os homens mais procurados do mundo e é acusado de ser o suposto líder de um supercartel de tráfico de drogas.
As autoridades policiais indicam que a organização chefiada por Kinahan transporta cocaína e heroína pelo Reino Unido e por vários outros países europeus, com valor estimado de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,1 bilhões) por ano.
Os Estados Unidos ofereciam, desde 2022, uma recompensa de US$ 5 milhões (cerca de R$ 25,7 milhões) por qualquer informação que levasse à captura do cidadão irlandês, além do seu pai e do seu irmão, ambos chamados Christopher.
Tal pai, tal filho
Daniel Joseph Kinahan nasceu na capital irlandesa, Dublin, no dia 25 de junho de 1977, segundo o site oficial do Departamento de Estado americano. Ele também é conhecido como “Daniel Joseph”, “Chess”, “D” e “Cuz”.
Kinahan foi criado em bairros de Dublin historicamente relacionados à economia informal e a redes criminosas, como Tallaght e The Liberties. Mas sua entrada no mundo do crime viria pelas mãos do seu pai.
Na década de 1980, Christopher Vincent Kinahan, apelidado de “The Dapper Don” (“O chefe elegante”, em inglês), era um criminoso local. Na capital irlandesa, ele passou do roubo, fraudes e falsificação de cheques para o tráfico de heroína procedente da América do Sul.

Crédito, Departamento de Estado dos EUA/DEA
Em 1986, Christopher Kinahan foi preso por tráfico de heroína e condenado a seis anos de prisão.
“Ele operava em um luxuoso apartamento no centro da distribuição de heroína em quase toda a cidade de Dublin”, declarou à BBC o autor da detenção, Michael O’Sullivan.
Mas, naquele momento, o “Chefe Elegante” já havia incorporado seus dois filhos ao negócio, segundo as autoridades irlandesas, britânicas e norte-americanas.
Com o passar do tempo, o patriarca foi capturado e levado novamente à prisão, na Holanda e na Bélgica.
A imprensa britânica noticiou que ele aproveitou o tempo atrás das grades para obter um diploma universitário e aprender outros idiomas.
Mas ele também ampliou suas operações e estabeleceu contatos com outras organizações criminosas, como a italiana Camorra e os cartéis da Colômbia e do México.

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No final da década de 2000, o Grupo de Crime Organizado Kinahan (KOCG, na sigla em inglês) — como o chamaram as autoridades irlandesas e britânicas — já operava na Europa continental, dominando o tráfico de entorpecentes na localidade turística de Marbella, no sul da Espanha.
O ex-vice-diretor da Agência Nacional contra o Crime do Reino Unido, Roy McComb, declarou que a expansão internacional do grupo ocorreu por “ambição e determinação”.
Ele contou à BBC que o grupo Kinahan estabeleceu relações com organizações da América do Sul, Europa oriental, Paquistão e Afeganistão, envolvidas na “distribuição de grandes quantidades” de drogas.
McComb afirma que o cartel se tornou “o principal grupo do crime organizado na movimentação de grandes quantidades de narcóticos em toda a Europa”.
Ele explica que o KOCG foi “considerado uma ameaça à estabilidade do dólar americano”, que era a moeda adotada para suas transações.
Bilhões de reais em imóveis no Brasil
Em 2010, a polícia espanhola prendeu os três Kinahan, apreendeu casas e veículos de luxo, mas Daniel nunca foi condenado. E os tentáculos do grupo chegaram ao Brasil e ao Panamá.
Só no Brasil, eles possuíam imóveis avaliados em mais de US$ 600 milhões (cerca de R$ 3,1 bilhões, pelo câmbio atual), segundo os jornalistas Stephen Breen e Owen Conlon, autores do livro The Clan (“O clã”, em tradução livre), dedicado à organização dirigida pelos Kinahan.
Ao tomar conhecimento da detenção de Kinahan em abril, o ex-presidente da Colômbia, Gustavo Petro, acusou o suposto capo de fazer parte da chamada “Junta do Narcotráfico”, uma suposta rede internacional com sede em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
A rede coordenaria atividades relacionadas ao narcotráfico, assassinatos seletivos e lavagem de dinheiro na Colômbia e em outros países latino-americanos.

Capo incomum
Christopher Kinahan, o patriarca, permanece envolvido na organização. Mas as autoridades suspeitam que a direção das atividades diárias do KOCG, atualmente, esteja a cargo dos seus filhos, especialmente Daniel.
Após a audiência, ele passou sua primeira noite na prisão de segurança máxima de Portlaoise, a cerca de 80 km a sudoeste da capital irlandesa. Lá, ele permanecerá até o julgamento.
O suposto capo tem cinco filhos. Ele negou as acusações recebidas.
“Acredito que, de certa forma, sou um bode expiatório”, declarou ele de Dubai há alguns meses para um podcast, enquanto travava uma batalha jurídica contra sua extradição.
Nos últimos anos, Kinahan se apresentou como empresário do setor esportivo. Ele promoveu lutas de boxe através da sua empresa MTK Global, fundada em 2012.
“Acabo de falar por telefone com Daniel Kinahan. Ele acaba de me dizer que fechou a luta mais importante da história do pugilismo britânico”, anunciou há dois anos o boxeador Tyson Fury. “Vamos com tudo, campeão!”
“Um enorme agradecimento a Dan por ter conseguido isso”, concluiu o esportista em mensagem publicada nas suas redes sociais.
Mas esta fachada esportiva voou pelos ares em fevereiro de 2016. Durante a pesagem para uma luta, membros do grupo rival Hutch tentaram matar Kinahan no hotel Regency, no norte de Dublin.
O tiroteio resultou na morte de um associado dos Kinahan; outras duas pessoas ficaram feridas. Filmagens feitas com celulares capturaram o caos e a brutalidade do episódio.
A disputa entre os grupos criminosos deixou, até agora, pelo menos 18 mortos, segundo as autoridades.

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Pouco depois, Daniel Kinahan seguiu os passos do seu pai e se mudou para Dubai.
Lá, ele continuou construindo sua imagem como promotor de pugilismo. Mas as autoridades acompanhavam seus passos.
“Os relatórios de inteligência policial indicam que Daniel Kinahan dirige atualmente os membros de mais alto escalão do KOCG, com base em Dubai, para realizar importantes operações de contrabando de drogas e supervisionar a lavagem de dinheiro utilizando diversos negócios comerciais legítimos”, segundo o site do Departamento de Estado americano.

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Alianças perigosas
Nos últimos anos, o grupo demonstrou que suas ambições não têm limites.
Em 2022, o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês) revelou que a organização tentou adquirir nove aviões de carga De Havilland Canada DHC-5 Buffalo, pertencentes à Força Aérea Egípcia. O grupo também teria tentado comprar uma aeronave de carga Antonov An-26 na Venezuela.
Mas as alianças formadas por Kinahan durante sua permanência em Dubai teriam prejudicado seu refúgio às margens do Golfo Pérsico.
A Administração de Controle de Drogas dos Estados Unidos (DEA, na sigla em inglês) afirma que Kinahan se aliou à organização islâmica Hezbollah, para lavar dinheiro através do seu sistema hawala, um mecanismo financeiro opaco e informal.
Os contatos com o grupo libanês também abriram para Kinahan as portas para o regime iraniano dos aiatolás. Ele teria ajudado o Irã a comercializar petróleo violando sanções internacionais, segundo o site de jornalismo investigativo Bellingcat, com sede na Holanda.
Estas acusações foram reforçadas por uma investigação do jornal britânico The Times, que afirmou que o cartel manteria “vínculos com a inteligência iraniana, particularmente no comércio ilícito de petróleo”.
Segundo o jornal, estas suspeitas, juntamente com a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã — durante a qual o país árabe foi alvo constante dos ataques iranianos — teriam contribuído para que autoridades dos Emirados Árabes Unidos decidissem prender e entregar o suposto capo à Irlanda.

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O governo irlandês fez um grande esforço diplomático para negociar um tratado de extradição com os Emirados Árabes Unidos, que foi finalmente assinado em 2024.
Kinahan é a segunda pessoa a ser trazida para a Irlanda com base nesse tratado. O primeiro foi Sean McGovern, descrito por um juiz como “lugar-tenente de alto escalão” do grupo Kinahan.
Em junho, McGovern foi condenado a 24 anos de prisão. Ele havia se declarado culpado de duas acusações por dirigir uma organização criminosa.
O governo irlandês enviou para Dubai um jato próprio, normalmente usado para transportar ministros.
As portas do tribunal se abriram cerca de meia hora depois da aterrissagem, em um aeroporto militar a 14 km de distância.
Enquanto os repórteres passavam pela segurança, ouvia-se o som das sirenes, indicando a chegada do acusado.
O salão ficou repleto em 45 minutos. Policiais, procuradores e público tomaram os assentos ao lado da imprensa.
Kinahan ficou de pé, com as mãos entrelaçadas à sua frente, quando um funcionário do tribunal leu a acusação contra ele.
Sua aparência era levemente diferente das suas conhecidas fotografias. Ele usava roupas simples, um moleton preto e óculos.
Kinahan falou várias vezes durante a audiência, em tom educado, quando algum dos três juízes se dirigia a ele diretamente.
Ele afirmou que decidiria mais tarde se iria comparecer ao tribunal pessoalmente para a próxima audiência, no dia 5 de outubro, ou prestar declaração da prisão, por link de vídeo.
No lado de fora, uma multidão de mais de 100 pessoas aguardava para ver o comboio da polícia transportar Daniel Kinahan em alta velocidade.
O processo havia sido formalmente iniciado.
“Acredito que já tenho prisão perpétua”, reconheceu Kinahan no podcast que o entrevistou antes da extradição.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


