O CEO da Paramount, David Ellison, está deixando claro que fará praticamente qualquer coisa para concluir o acordo de compra da Warner Bros. Discovery. Até mesmo, talvez, levar sua empresa de Hollywood para bem longe de Hollywood.
O executivo disse à alta cúpula da companhia na semana passada que começaria a retirar a empresa da Califórnia em 1º de outubro caso não houvesse avanços na resolução de uma ação judicial movida por procuradores-gerais estaduais para barrar o acordo, de acordo com três pessoas que conhecem o teor de suas declarações.
Não está claro se Ellison levará o plano adiante. A medida poderia pressionar o procurador-geral da Califórnia, um dos principais autores da ação, a se sentar à mesa de negociações. A perda de um grande estúdio de Hollywood seria um golpe para a economia e a própria identidade do estado.
Rob Bonta, procurador-geral da Califórnia, criticou duramente Ellison na terça-feira (11) por ameaçar deixar o estado. “É uma tentativa de chantagear reguladores que ousam fazer cumprir a lei”, comentou Bonta em uma conferência.
Até mesmo aventar a ideia de uma mudança envolve riscos políticos. A Paramount tem tentado se apresentar como defensora de Hollywood, e Ellison prometeu pessoalmente que uma Paramount-Warner Bros. combinada lançaria 30 filmes nos cinemas todos os anos.
Ainda assim, o comentário feito aos executivos ressalta a crescente ansiedade de Ellison para concluir o acordo de US$ 111 bilhões (R$ 571,98 bilhões) o mais rápido possível. A empresa terá de pagar US$ 650 milhões (R$ 3,35 bilhões) por trimestre aos acionistas da Warner Bros., a partir de outubro, até a conclusão do negócio. Na semana passada, o juiz responsável pelo caso antitruste marcou o início do julgamento para março de 2027, o que significa pelo menos dois pagamentos até lá.
Um porta-voz da Paramount não quis comentar.
A fusão da Paramount com a Warner criaria um colosso de Hollywood. A união colocaria sob o mesmo teto dois grandes estúdios de cinema, vários serviços de streaming e as redes de notícias CNN e CBS News, ampliando drasticamente a influência de Ellison nos setores de mídia e entretenimento.
Os procuradores-gerais estaduais argumentam que a empresa teria um poder de mercado desproporcional. Ellison e seus apoiadores intensificaram a reação, inclusive na imprensa: Ari Emanuel, influente agente de Hollywood, chamou o processo antitruste dos estados de “lixo” em um artigo de opinião publicado no The Wall Street Journal; Adam Aron, CEO da rede de cinemas AMC, publicou um artigo na Variety; e o ex-âncora Chris Wallace, agora consultor remunerado da empresa de private equity RedBird Capital, que detém uma grande participação na Paramount, escreveu uma coluna no The Hollywood Reporter. O próprio Ellison também publicou um artigo de opinião no The New York Times.
Ellison apresentou os planos de mudança à alta cúpula na semana passada, em parte por causa do aumento das dúvidas internas sobre os pagamentos iminentes e se eles resultariam em menos investimentos em conteúdo, segundo três pessoas com conhecimento direto da reunião.
Durante a reunião, noticiada anteriormente pela Puck, Ellison declarou seu amor pela Califórnia e pelo complexo de estúdios da Paramount, dizendo aos executivos que relutava em deixar o estado onde cresceu, de acordo com essas pessoas. Mas afirmou que suas obrigações com a empresa poderiam exigir que a Paramount deixasse a Califórnia.
“É evidente que não somos bem-vindos aqui”, disse Ellison na reunião, segundo as três pessoas.
Ellison afirmou que a empresa manteria um “robusto polo criativo” em Los Angeles —citando o exemplo da Oracle, empresa de tecnologia cofundada por seu pai, Larry Ellison, que continua presente no Vale do Silício após transferir sua sede para o Texas. Mas acrescentou que a Paramount venderia seu famoso complexo de locações externas como parte da mudança. Corretores de imóveis comerciais avaliam a propriedade em cerca de US$ 4 bilhões.
O grau de detalhamento do plano de Ellison pegou os executivos de surpresa. Quando a possibilidade de mudança foi divulgada pela primeira vez em uma reportagem da Semafor, em julho, a maioria dos dirigentes da Paramount rapidamente a descartou como mero jogo de cena. Agora, tinham de levar o chefe a sério.
Várias pessoas que participaram da reunião ficaram abaladas com a perspectiva de ter de recomeçar a vida em outro lugar e confidenciaram sua insatisfação a colegas do estúdio, o que gerou uma onda de rumores dentro da empresa, disseram as pessoas ouvidas pela reportagem.
Hollywood reagiu com frustração crescente, na terça-feira, à notícia da ideia de Ellison, segundo entrevistas com produtores, agentes, dirigentes sindicais e roteiristas. Por que os Ellison e Bonta não podem se reunir em uma sala e resolver isso? Nos bastidores, vários dos maiores sindicatos de Hollywood têm pressionado para que essas conversas ocorram, como é o caso de Bryan Lourd, CEO e copresidente da Creative Artists Agency, disseram algumas das pessoas.
Folha Mercado
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Em suas declarações na conferência de terça-feira, organizada pelo Politico, Bonta afirmou não ver necessidade de negociações para um acordo. “Acho que eles estão ansiosos para iniciar essas conversas”, disse, referindo-se à Paramount. Ele acrescentou que os estados continuavam abertos a propostas de acordo da Paramount, mesmo concentrados no julgamento que se aproxima.
Além da Oracle, várias empresas de destaque transferiram suas sedes para fora da Califórnia nos últimos anos, entre elas Tesla e Chevron. Mas o entretenimento é um negócio movido por emoções, e os laços que muitos executivos da Paramount mantêm com Hollywood podem dificultar uma mudança corporativa.
“Muitos dos principais executivos da Paramount com quem conversei estão extremamente descontentes com a ideia”, afirmou Joseph M. Singer, veterano financiador de cinema e ex-executivo de estúdio. “A vida deles, suas famílias e a vida e as escolas de seus filhos estão em Los Angeles.”
Singer se opôs publicamente à venda da Warner para a Paramount. “Ou a fusão é boa para a Califórnia, como insistem seus apoiadores, ou esses mesmos empregos viram uma peça a ser transferida para fora do estado quando a autoridade responsável por fazer cumprir a lei se recusa a ceder. A ameaça de mudança não faz sentido e só prejudica justamente as pessoas que ele diz querer proteger”, disse Singer.
Fonte.:Folha de S.Paulo


