É comum um investidor chegar a uma conversa sobre sua carteira com uma conclusão aparentemente objetiva: “Estou pessimista. Acho que devemos mudar meus investimentos”.
Em outros momentos, acontece o contrário. O otimismo aumenta e surge a vontade de assumir mais risco. O problema é que nem pessimismo nem otimismo deveriam, isoladamente, determinar uma mudança de carteira.
Otimismo e pessimismo são estados de espírito. Não deveriam nunca afetar decisões de investimentos, pois costumam ser vieses de momento. Todo investimento ou mudança de aplicação deve ser justificada ou embasada em um cenário. Este precisa de premissas, ou seja, números, não sentimento.
Você pode estar pessimista com a economia, com as eleições ou com o ambiente internacional. Isso pode ser uma razão para revisar suas expectativas, mas não significa que seus investimentos também precisem mudar.
Imagine, por exemplo, que você esteja pessimista com o Brasil e acredite que o dólar vai subir. Comprar dólares parece uma consequência natural dessa expectativa. Mas há uma pergunta anterior: quanto o dólar precisa subir para que essa decisão valha a pena?
Se você abandona uma aplicação que rende próximo ao CDI para ficar apenas em dólar, não basta a moeda americana subir. Ela precisa subir o suficiente para superar o retorno que você deixou para trás.
Essa distinção é fundamental. Você pode acertar que o dólar vai subir e, mesmo assim, tomar a decisão de investimento errada. Se ele valorizar 5%, mas sua alternativa em reais render 14%, por exemplo, você acertou a direção, mas perdeu dinheiro. Em investimentos, acertar a direção não basta. É preciso acertar também a magnitude.
O mesmo raciocínio vale para qualquer índice de mercado, como Bolsa, juros, moeda, commodity ou inflação. Suponha que você acredite que o IPCA será maior do que o mercado espera. Isso não significa automaticamente que deve trocar uma aplicação pós-fixada por um título IPCA+. É preciso estimar quanto a inflação subiria, qual juro real você receberia e como a Selic poderia reagir a esse cenário.
Quando essas variáveis são colocadas no papel, a conclusão pode ser diferente da intuição inicial. Parte do ganho com uma inflação mais alta pode ser compensada por juros também maiores no pós-fixado.
Além disso, se as taxas reais subirem, o preço de um título IPCA+ pode cair no curto prazo. A proteção que parecia óbvia pode não ser tão vantajosa assim.
Há ainda uma conta adicional. Mudar uma carteira pode envolver imposto de renda, spreads, perda de liquidez e outros custos. Portanto, a nova alocação não deve ser apenas melhor no cenário imaginado. Ela precisa ser suficientemente melhor para compensar tudo aquilo que será gasto ou perdido na mudança.
Esse cuidado se torna especialmente importante em períodos eleitorais. Eleições despertam convicções fortes e misturam facilmente preferências pessoais com expectativas econômicas.
Dizer “estou pessimista com a eleição” não é um cenário de investimento. É preciso traduzir essa percepção: o que você espera para dólar, inflação, juros e Bolsa? Em que magnitude? E, principalmente, o que precisaria acontecer para sua nova carteira superar a atual?
Perceba que construir um cenário não significa acreditar que você consegue prever o futuro. Significa justamente reconhecer que ele é incerto e estabelecer hipóteses que possam ser medidas. Em vez de dizer “acho que o dólar vai subir”, diga: “Meu cenário é que o dólar alcance determinado valor nos próximos 12 meses”. Depois, faça a conta e verifique se, mesmo estando certo, a mudança de carteira realmente compensa.
Existe outra vantagem nessa disciplina. Um cenário pode ser monitorado. Com o passar dos meses, você consegue verificar se inflação, juros, câmbio e demais premissas estão caminhando na direção imaginada. O pessimismo, por outro lado, não possui régua. Alguém pode permanecer pessimista durante anos enquanto os preços dos ativos caminham na direção oposta.
Por isso, antes de alterar seus investimentos, não pergunte apenas se está otimista ou pessimista. Pergunte qual é exatamente o seu cenário, quanto precisa acertar para que a mudança valha a pena e o que acontece se estiver errado. Talvez, depois de colocar os números no papel, você descubra algo curioso: seu cenário mudou, mas sua carteira não precisa mudar com ele.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.
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Fonte.:Folha de S.Paulo


