O corpo de Vandré Silveira no palco do Ágora Teatro é um território de disputa. Ele ocupa o centro de “A Hora do Boi” com a precisão de quem sabe que, no teatro, a carne do ator é a única coisa que não pode ser simulada. O ponto de partida é um curto-circuito na lógica produtiva: em 2018, um nelore destinado ao abate escapou em Salvador e nadou por cinco dias até ser encontrado nas águas da praia de Stella Maris. O fato real, que terminou com o animal em um aterro sanitário, é aqui reconstruído pela dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho como uma fábula seca, onde o bicho deixa de ser mercadoria para se tornar sujeito.
A direção de André Paes Leme estabelece um jogo de distanciamento necessário. Não há interesse no ilusionismo da lida no campo; o espetáculo assume sua “artificialidade” para que o espectador não se sinta um observador passivo, mas uma testemunha do processo. O minimalismo da cena, marcado por correntes e carcaças suspensas de Carlos Alberto Nunes, serve como moldura árida para o trabalho do ator, que se desdobra em três frequências distintas.
A atuação de Silveira opera em uma voltagem técnica que deliberadamente dispensa o sentimentalismo, construindo-se em camadas que vão da dureza do capataz — com seu Francisco moldado pela obediência e pela linguagem da produtividade — à subjetividade animal, revelada na postura de cócoras que, sob a consultoria de movimento de Toni Rodrigues e Paula Aguas, evoca a massa bruta do boi Chico e lhe confere uma voz poética capaz de subverter o silêncio do matadouro. A essa alternância soma-se a mística franciscana, na qual a figura de São Francisco de Assis funciona como um contraponto ético, uma consciência que desloca o olhar do espectador da economia para a senciência. Tal rigor vocal e físico evita o caminho fácil do melodrama: a emoção que emana de Silveira é contida, brotando da tensão muscular e do fôlego, o que torna a inevitabilidade do destino do animal ainda mais sufocante.
A presença da voz do patrão, interpretada por Claudio Gabriel, funciona como a representação da opressão invisível — a engrenagem que exige o cumprimento do dever acima do afeto. O texto de Carvalho roça a brutalidade da indústria com referências a Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, elevando o drama rural a um patamar existencialista. Quando a trilha sonora de Lucas de Paiva introduz os acordes de “Cálice” ou “Admirável Gado Novo”, o espetáculo fecha seu cerco: o gado, em cena, é um espelho da condição humana diante de sistemas que nos convertem em números.
“A Hora do Boi” é um trabalho que utiliza a celebração de 25 anos de carreira de um ator para questionar a base ética do consumo e a nossa capacidade de empatia. Ao dar voz e nome ao que o mercado trata apenas como proteína, Silveira e sua equipe realizam uma necessária autópsia do antropocentrismo contemporâneo.
Três perguntas para…
… Vandré Silveira
O boi Chico é descrito como um animal com “alma de poeta”. Como você trabalhou para dar essa subjetividade a um ser que, no sistema produtivo, é visto apenas como “fonte de proteína”?
Partimos da ideia de desconstruir a equivocada visão antropocentrista que subjuga as outras espécies. Os animais são seres sencientes, capazes de sentir medo, alegria, dor, prazer e manifestam consciência e memória. No espetáculo, Chico, o boi, é um amante da Literatura. Ele passa as noites ouvindo as leituras de Rosa, a filha do patrão, que o apresenta Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Baudelaire, etc. O animal é dotado de sensibilidade e ligado à poesia, enquanto o ser humano é servil e está preso a um sistema produtivo capitalista que só visa o lucro e que o coloca como uma peça descartável e substituível nessa grande engrenagem. Já o animal é visto como uma mera fonte de proteína. O encontro de Chico e de Seu Francisco subverte essa lógica. O afeto como revolução.
A peça utiliza a voz em off do patrão como uma espécie de “voz de Deus”, evocando o sacrifício bíblico de Abraão. Como você enxerga essa relação entre a lógica do capital e a supressão dos afetos no ambiente de trabalho?
A lógica do capital desumaniza e precariza. O que interessa é o lucro. Não há um olhar sobre as subjetividades. Não há lugar para o afeto. A partir do momento que você objetifica vidas e não estabelece relação, prevalece a exploração, a crueldade e a violência. No espetáculo há uma fala de São Francisco que é o narrador da história: “O amor é a força mais poderosa do mundo”.
E realmente o afeto é capaz de transformar o mundo. Precisamos ter ações mais empáticas sobre os nossos semelhantes, seres humanos, as outras espécies e o planeta. Essa mudança é urgente!
“A Hora do Boi” foi apresentada em eventos como o VegFest. Como tem sido a recepção do público ativista e qual o papel do teatro na pauta contemporânea dos direitos animais?
Apresentamos um pocket do espetáculo no VegFest. Foi uma recepção maravilhosa. As pessoas saem muito impactadas. É um espetáculo que passa pela questão dos direitos animais, mas discute de uma forma ampla, o quanto o capital tem subjugado tanto o animal, tratando-o como fonte de proteína, e o homem, como uma ferramenta totalmente substituível nessa engrenagem cruel e capitalista.
O espetáculo é um grito de liberdade para todas as espécies. E é através da história de afeto entre um homem e um boi que evidenciamos toda essa lógica arbitrária, violenta e cruel que subjuga e explora homens e animais. Fazemos isso gerando identificação, porque todos reconhecem o que é afeto. Acreditamos no papel fundamental do Teatro em trazer reflexão e possibilitar mudanças reais que impactem positivamente a coletividade. Viva o Teatro!
Ágora Teatro – rua Rui Barbosa, 664 – Bela Vista, região central. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 19h. Até 26/4. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br
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Fonte.:Folha de S.Paulo


