Durante décadas, investidores procuraram o especialista perfeito. Agora começaram a procurar o algoritmo perfeito. E existe algo quase irresistível nisso tudo. Afinal, se algo foi chamado de inteligência artificial, parece existir um acordo implícito: ela deveria errar menos do que nós. Afinal, é a inteligência.
Talvez por isso tanta gente esteja começando a terceirizar decisões financeiras para ferramentas de IA. O processo impressiona. Em segundos aparecem percentuais exatos, justificativas econômicas sofisticadas, gráficos organizados, explicações sobre juros, inflação, Bolsa e diversificação.
Tudo parece extremamente inteligente e preciso. O problema é que muitos solicitam uma carteira, mas poucos testaram o resultado. Afinal, como criticar algo que é inteligente até no nome.
E talvez esse seja justamente o perigo.
Assim resolvi provocar a própria inteligência artificial. Usei o ChatGPT para o exercício. Pedi que ela montasse três carteiras para o Brasil, assumindo que estivéssemos em 31/12/2019: uma conservadora, uma moderada e uma agressiva. Havia apenas uma regra: ela só poderia usar as informações disponíveis até aquela data.
A resposta parecia saída de um grande relatório de estratégia com explicação para escolha das alocações. A tabela abaixo contém a alocação para cada tipo de investidor.
| Ativo | Conservador | Moderado | Agressivo |
|---|---|---|---|
| Tesouro Selic 2025 | 55% | 35% | 10% |
| Tesouro IPCA+ 2026 | 25% | 0% | 0% |
| Tesouro IPCA+ 2035 | 0% | 25% | 0% |
| Tesouro IPCA+ 2045 | 0% | 0% | 20% |
| Tesouro Prefixado 2026 | 10% | 10% | 0% |
| Tesouro Prefixado 2029 | 0% | 0% | 15% |
| BOVA11 | 5% | 20% | 35% |
| SMAL11 | 0% | 0% | 10% |
| IFIX | 5% | 10% | 10% |
| Total | 100% | 100% | 100% |
Para o investidor agressivo, por exemplo, a IA alocou mais em Bolsa, small caps, fundos imobiliários e títulos longos indexados à inflação. A justificativa fazia sentido naquele momento. O Brasil parecia entrar em um novo ciclo estrutural de juros baixos, investidores migravam da renda fixa para ativos de risco e o mercado doméstico parecia preparado para anos positivos.
Já o investidor conservador ficou mais concentrado em pós-fixados e inflação curta. O moderado buscava equilíbrio entre renda fixa e risco.
Tudo extremamente coerente.
O problema é que o mercado financeiro tem uma habilidade quase cruel: destruir narrativas que parecem perfeitas.
De 2020 até 2025, nenhuma das três carteiras conseguiu vencer o CDI acumulado. Nem a conservadora. Nem a moderada. Nem a agressiva. Na tabela abaixo, descrevo o resultado em cada ano e no acumulado.
| Ano | Conservador | Moderado | Agressivo | CDI | IHFA |
|---|---|---|---|---|---|
| 2020 | 5,30% | 7,10% | 8,90% | 2,76% | 5,51% |
| 2021 | 1,20% | -2,70% | -7,20% | 4,40% | 2,04% |
| 2022 | 10,70% | 9,30% | 8,80% | 12,39% | 13,66% |
| 2023 | 14,20% | 16,80% | 21,70% | 13,04% | 9,31% |
| 2024 | 5,50% | 2,20% | -1,80% | 10,88% | 5,76% |
| 2025 | 10,60% | 7,60% | 4,90% | 14,32% | 15,33% |
| Acumulado 2020-2025 | 57,80% | 43,90% | 37,70% | 69,40% | 60,40% |
O investidor agressivo aceitou mais volatilidade, mais risco e mais oscilação. Ainda assim, terminou vários degraus abaixo do simples CDI. E talvez exista um detalhe ainda mais desconfortável: as três carteiras também ficaram abaixo do IHFA, índice que representa o desempenho médio dos fundos multimercados brasileiros.
Ou seja, a inteligência artificial não conseguiu sequer superar a média dos gestores multimercados do país, mesmo para o investidor conservador.
Mas aqui existe um ponto importante. A IA não “falhou” porque fosse ruim. Na verdade, ela fez exatamente aquilo para o qual foi treinada.
Ela reorganizou o passado de forma brilhante.
Talvez você diga: Michael, mas o cenário mudou muito nestes cinco anos. Então repeti o exercício, mas agora iniciando no fim de 2023.
Realmente, com a mudança do mercado de 2020 a 2023, a própria inteligência artificial mudou completamente o discurso. Passou a defender mais títulos indexados à inflação, argumentou que juros reais elevados poderiam permanecer por mais tempo, mas ainda assim reduziu o prazo de alocação para investidores agressivos. Explicou que o risco de Bolsa estava maior, mas não alterou significativamente a alocação.
Novamente, a lógica parecia excelente. A alocação resultante está na tabela a seguir.
| Ativo | Conservador | Moderado | Agressivo |
|---|---|---|---|
| Tesouro Selic 2029 | 50% | 25% | 10% |
| Tesouro IPCA+ 2035 | 30% | 30% | 20% |
| Tesouro Prefixado 2029 | 5% | 10% | 15% |
| BOVA11 | 5% | 20% | 35% |
| SMAL11 | 0% | 5% | 10% |
| IFIX | 10% | 10% | 10% |
| Total | 100% | 100% | 100% |
Compare as duas carteiras sugeridas e pode perceber que elas mudaram muito pouco. O que sugere uma falha para a IA se você faz uma solicitação simples. As carteiras sugeridas parecem carteiras médias que se encontra em sites de bancos. O cenário muda, mas elas nunca se alteram muito. Ou seja, a IA pode ou simplesmente estar fazendo uma varredura sobre o que é sugerido ou estar usando modelos importados e que dão errado para o Brasil.
E aqueles que acham que ao perguntar a IA estão fugindo da indicação de bancos ou de sugestões tradicionais, podem estar caindo na mesma rede.
O resultado desta nova alocação para cada ano seguinte pode ser visualizado na tabela abaixo.
| Ano | Conservador | Moderado | Agressivo | CDI | IHFA |
|---|---|---|---|---|---|
| 2024 | 7,80% | 5,60% | 1,90% | 10,88% | 5,76% |
| 2025 | 11,90% | 10,20% | 8,40% | 14,32% | 15,33% |
| Acumulado 2024-2025 | 20,60% | 16,40% | 10,50% | 26,80% | 21,90% |
Novamente, todas as carteiras ficaram abaixo do CDI e do índice de fundos multimercados.
Talvez porque investir não é apenas conectar informações passadas ou buscar dados na internet. Investir é, principalmente, lidar com aquilo que ainda não aconteceu. Ou seja, montar cenário, entender o que o investidor deseja e ter sensibilidade sobre o risco.
E talvez esse seja o verdadeiro risco da inteligência artificial no mercado financeiro: ela pode gerar a sensação perigosa de que a incerteza finalmente ficou controlável.
Mas não ficou.
Uma resposta rápida e que parece confiante, não torna a resposta mais inteligente ou precisa.
A inteligência artificial pode ser extremamente útil para organizar dados, comparar estratégias, montar dashboards, encontrar inconsistências e até ajudar investidores a raciocinarem melhor. O problema começa quando confundimos sofisticação com capacidade preditiva.
Muitas investidores estão procurando na inteligência artificial algo que ela talvez ainda não seja capaz de entregar. A procura por alguém ou algo que prometa transformar incerteza em conforto pode resultar em frustração.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.
Fonte.:Folha de S.Paulo


