10:13 AM
24 de março de 2026

A mancha silenciosa: por que a tuberculose ainda faz tantas vítimas na surdina

A mancha silenciosa: por que a tuberculose ainda faz tantas vítimas na surdina

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Noel Rosa já tinha ido dormir quando, por volta das 21 horas, amigos tocaram a campainha de sua casa em Vila Isabel, no Rio de Janeiro. Ao primeiro toque, o sambista pulou da cama e começou a procurar uma roupa. Não encontrou. No armário, só havia meias, cuecas e pijamas.

Foi assim que, reza a lenda, ele teria composto um de seus maiores sucessos: Com Que Roupa?. “Dona Martha escondeu as roupas do filho para ele não sair e pegar friagem na rua”, explica o historiador André Diniz, autor de Noel Rosa – Um Perfil Biográfico (Numa Editora – Clique para comprar).

De nada adiantou o zelo da mãe. Alcoolista, fumante e boêmio, Noel Rosa contraiu tuberculose. Em 1935, chegou a morar em Belo Horizonte para cuidar da saúde. Voltou seis meses depois. No Rio, julgou estar curado e parou de tomar os remédios. Morreu no dia 4 de maio de 1937, aos 26 anos. Deixou a mulher, Lindaura, e incontáveis sucessos musicais.

Uma chaga histórica, mas não do passado

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A doença causada por bactérias que levou o compositor pode até parecer coisa do passado, mas não é. Em 2024, o Brasil registrou 85 936 novos casos de tuberculose. Em duas décadas, o número de mortes saltou de 4 981 em 2004 para 6 315 em 2024.

Não por acaso, o país não bateu as metas de redução de 50% da incidência e de 75% da mortalidade estipuladas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No Rio de Janeiro de Noel Rosa, os coeficientes de incidência e mortalidade da tuberculose conseguem ser quase o dobro da média nacional: 75 e 4,8 por 100 mil habitantes, ante 40,4 e 2,97.

“O Brasil sofreu um impacto considerável por causa da covid-19. Houve um retrocesso de quase dez anos”, lamenta a pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz e membro titular da Academia Nacional de Medicina.

A médica, que estuda a moléstia desde o início da carreira, enxerga o cenário atual com preocupação. “É uma situação no mínimo paradoxal. Como uma doença benigna, com diagnóstico rápido, tratamento de qualidade e totalmente gratuito, ainda mata milhares de pessoas? É inadmissível!”, afirma. “Duvido que as metas da OMS sejam alcançadas até 2030”, projeta Dalcolmo.

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O quadro só não é mais alarmante porque, segundo o Ministério da Saúde, o Brasil conseguiu alcançar o índice de cobertura do Programa Nacional de Imunizações (PNI) para a vacina BCG: aplicada em recém-nascidos, ela atingiu 96,8% do público-alvo. “A BCG é recomendada nos países onde a tuberculose tem incidência elevada e protege contra as formas mais graves da doença”, explica o pediatra Clemax Sant’Anna, autor do livro Tuberculose em Crianças e Jovens (Atheneu – Clique para comprar).

“Até o início dos anos 2000, a cobertura vacinal no Brasil chegou a ser uma das maiores do mundo, mas, a partir de 2016, houve uma queda progressiva, atribuída à falta de vacina e, principalmente, à hesitação vacinal.” E assim os bacilos continuam no ar.

Tudo é tuberculose

Se alguém dissesse ao escritor best-seller John Green quando A Culpa É das Estrelas (Intrínseca – Clique para comprar) foi lançado que, uma década depois, ele estaria às voltas com um livro sobre tuberculose, ele não teria acreditado. “Isso ainda existe?”, indagaria anos depois.

Sim, existe! No mundo, segundo estimativa da OMS, 10,7 milhões ficaram doentes e 1,23 milhão foi a óbito devido a essa bactéria. Por essa razão, Green dedicou seu mais novo livro, o nono da carreira, à doença infecciosa mais antiga da humanidade.

“Este ano, milhares de médicos atenderão milhões de pacientes com tuberculose. Esses médicos serão incapazes de salvar seus pacientes pois a cura está onde a doença não está, e a doença está onde a cura não está”, afirma Green na introdução de Tudo É Tuberculose (Intrínseca).

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“Uma criança nascida em Serra Leoa tem 100 vezes mais chance de morrer de tuberculose do que outra nascida nos EUA. Sabemos como viver em um mundo sem tuberculose. No entanto, optamos por não viver nele”, denuncia o autor americano.

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Clique na imagem para ampliar (Ilustrações: Getty Images e Estúdio Tigre/Veja Saúde)

A ideia do livro surgiu em 2019, durante uma visita ao Hospital Público de Lakka, em Serra Leoa, na África. Lá, Green conheceu Henry Reider, um paciente de 17 anos que, por causa da desnutrição, aparentava 9. O rapaz estava internado para tratar uma tuberculose multirresistente — outro dilema atual, diga-se.

Quando Henry começou a adoecer, os médicos prescreveram quatro antibióticos. No entanto, o pai dele suspendeu a medicação por achar que ela não fazia efeito. Em vez de remédios, tratou o filho à base de chás e orações. Como já era de esperar, Henry piorou.

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“Há dois desafios ante a doença: o diagnóstico precoce e o tratamento prolongado”, resume a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo.

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A médica alerta que, quanto mais tempo se demora para iniciar os medicamentos, mais pessoas podem ser contaminadas. E, na prática, pacientes abandonam o tratamento de, no mínimo, seis meses quando sentem alguma melhora duas ou três semanas depois. “Só que a falta de adesão leva à recidiva da tuberculose”, avisa Richtmann. É um círculo vicioso.

No livro Tudo É Tuberculose, descobrimos que Henry começou a apresentar os primeiros sintomas aos 6 anos: tossia muito e cansava fácil. A princípio, os médicos desconfiaram de malária. Mas, à medida que ele começou a acordar encharcado de suor e a se sentir fraco demais para ir à escola, chegaram ao veredicto: tuberculose.

Com a interrupção do tratamento, o quadro se agravou. O pior momento foi quando, em 2020, Henry perdeu Thompson, seu melhor amigo e colega de quarto. “Algo me dizia: ‘Você é o próximo!’”, pensava. Temeroso, passou a chorar mais, a comer menos e a não sair mais de casa.

Henry não está sozinho nessa. “Em torno de 25% da população mundial e 30% da população brasileira estão infectadas pelo bacilo da tuberculose. Mas apenas 8% desse público desenvolverá a doença ativa”, explica o infectologista Hélio Bacha, do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo.

“Esse risco, porém, é desigual. Pessoas desnutridas, encarceradas, sem-teto, alcoolistas, portadores de HIV ou doenças autoimunes em tratamento e povos originários apresentam maior risco de apresentá-la”, expõe o médico.

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Depois de três anos hospitalizado, Henry recebeu alta. Comprou uma casa modesta em Freetown, onde vive com a mãe, entrou para a Universidade de Serra Leoa e, hoje, aos 24 anos, tornou-se um ativista.

Nos vídeos que grava para o YouTube, se identifica como um sobrevivente e procura combater o estigma da doença. “Sim, é possível sobreviver à tuberculose”, afirma a VEJA SAÚDE. “A sobrevivência depende de três fatores: manter o foco no tratamento, seguir as orientações do médico e não desanimar nunca.”

Os desafios do enfrentamento à tuberculose no Brasil

Thiaguinho e Thiago Silva têm mais em comum do que o nome: ambos são, a exemplo de Henry, sobreviventes. “O maior sucesso da minha vida foi o tratamento da tuberculose”, declarou o cantor em 2014. “Achava que essa doença não existia mais. Mas existe e tem cura.”

Thiaguinho procurou tratamento depois de sentir falta de ar durante um show. Já o jogador de futebol Thiago Silva chegou a escutar de um médico russo que precisava retirar parte do pulmão. “Eu venci a doença e qualquer um pode vencer”, disse o zagueiro em 2015. “Ninguém merece perder o fôlego por causa dela.”

No mesmo ano em que Thiaguinho gravou um depoimento para o Ministério da Saúde, a OMS estabeleceu, através da 67ª Assembleia Mundial da Saúde, na Suíça, duas metas para a erradicação da tuberculose: a redução de 90% nas mortes e de 80% na incidência, sem custos catastróficos para as famílias, até 2030; e a redução de 95% nas mortes e de 90% na incidência até 2035.

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Em 2014, o Brasil tinha registrado pouco mais de 70 mil casos e 4 mil óbitos. Dez anos depois, esses números decolaram. “Naquele momento, tínhamos tido grandes avanços no controle da tuberculose. Novos testes diagnósticos, mais precisos e mais rápidos. E novas drogas, mais eficazes no tratamento de casos multirresistentes. As metas eram arrojadas, mas viáveis”, analisa Bacha.

“Hoje, observa-se um atraso nas metas iniciais. Teremos que adiar o tempo de ação para alcançar a erradicação. Houve a pandemia de covid-19 e, pior, uma redução muito grande no financiamento de pesquisas de novas técnicas de prevenção e tratamento da doença”, prossegue o infectologista.

Um estudo da Fiocruz, coordenado pelo médico Bruno Bezerril, estima que o Brasil não conseguirá atingir as metas da OMS. O estudo prevê que, em 2030, a taxa de incidência da tuberculose no país será de 42,1 casos por 100 mil habitantes, muito acima do preconizado — 6,7 casos por 100 mil pessoas em um ano.

Entre outros fatores para o não cumprimento do índice, o trabalho aponta o acesso limitado à assistência em saúde, a falta de adesão ao tratamento e o impacto retardatário da pandemia de covid. “Zerar a tuberculose é difícil no mundo inteiro. O que dá para perseguir é eliminar a doença como um problema de saúde pública. Mas isso exige um salto de escala, e não ajustes cosméticos”, afirma Bezerril. “Se mantivermos a trajetória atual, a tendência é continuar alto e não cair.”

Aí que está: para vencer a tuberculose, não basta focar no bacilo em si. “A doença não se resume à bactéria. Tem a desigualdade também. Se o país quiser acabar com a tuberculose, precisa combinar política social, atenção primária e execução das estratégias que já existem, especialmente nas populações mais vulneráveis”, aponta o pesquisador da Fiocruz, para quem a meta da OMS é “eticamente correta e tecnicamente orientadora, mas, no ritmo atual, irrealista.”

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Os números extraídos das investigações ajudam a entender o tamanho do desafio. “Mesmo com um pacote combinado de intervenções, ou seja, melhora dos indicadores de manejo e a redução em populações vulneráveis, a projeção cai para 18,5 casos por 100 mil, o que representa uma melhora grande, porém ainda distante da meta”, expõe Bezerril.

“Só em um cenário extremamente intensivo, algo como a redução anual de 30% de casos em populações vulneráveis e aumento anual de 30% em indicadores críticos, chegaríamos perto do alvo.”

O Programa Brasil Livre da Tuberculose, do Ministério da Saúde, pretende reduzir o número de casos para menos de 10 por 100 mil, limitar o total de mortes para menos de 230 ao ano e zerar o número de pessoas sofrendo custos catastróficos até 2035. O custo é catastrófico quando as despesas diretas e indiretas com a doença ultrapassam 20% da renda anual da família.

Cerca de 48% das famílias brasileiras, segundo artigo da enfermeira Ethel Leonor Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), enfrentam os tais “custos catastróficos”.

“A recente melhora das condições socioeconômicas e a saída do Brasil do mapa da fome podem favorecer a retomada da redução de casos”, acredita o sanitarista Draurio Barreira, diretor do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do ministério.

Só o impacto do Programa Bolsa Família reduziu, segundo cálculo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 41% o número de casos e em 31% o total de mortes. “Estamos atrasados, mas não desistimos”, diz Bacha. “Nunca… Jamais”, como versejou Noel Rosa em outra de suas eternas músicas.

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Pessoas privadas de liberdade, em situação de vulnerabilidade social ou com comprometimento imunológico estão mais sujeitas à tuberculose (Ilustrações: Getty Images e Estúdio Tigre/Veja Saúde)

Quem está em maior risco?

Privados de liberdade
O risco de contágio é 26 vezes maior. Nosso país tem a terceira maior população carcerária do mundo: são 938 mil presos em diferentes regimes.

Em situação de rua
São os mais vulneráveis. Apresentam um risco de contaminação 54 vezes maior do que a população geral. Hoje, o Brasil tem 335 mil pessoas sem teto.

Pessoas com HIV
A infecção pelo vírus da aids é um dos fatores de risco. Dos 85,9 mil novos casos, 11,5% vivem com HIV. O risco é 23 vezes maior do que o da população em geral.

Povos originários
De 1,6 milhão de brasileiros que se autodeclaram indígenas, 16,9 mil tiveram a doença. O risco de adoecimento é quase duas vezes
maior entre eles.

Raio x da doença

Agente causador
É uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, o bacilo de Koch. Ele ataca os pulmões, mas pode atingir outros órgãos.

Transmissão
Os bacilos pegam carona em gotículas expelidas por fala, tosse ou espirro. Uma pessoa com a doença sem tratamento pode contaminar outras 15.

Sintomas
O principal é a tosse persistente, seca ou com catarro. Ela dura ao menos três semanas, e pode ser acompanhada de febre, sudorese noturna e perda de peso.

Prevenção
A vacina BCG protege contra as formas graves da doença, como meningite tuberculosa e tuberculose miliar. Deve ser aplicada logo ao nascer ou até os 5 anos.

Diagnóstico
Além do teste rápido molecular para tuberculose (TRM-TB), um exame de sangue, a avaliação clínica e a radiografia do tórax são fundamentais.

Tratamento
Disponível no SUS, dura, no mínimo, seis meses. São utilizados quatro antibióticos: rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol. Tem cura quando é feito até o final.

Ilustres doentes

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Clique na imagem para ampliar (Ilustração: Estúdio Tigre / Design: Editoria de arte/Veja Saúde)

Estratégias de proteção

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Clique na imagem para ampliar (Editoria de arte/Veja Saúde)



Fonte.:Saúde Abril

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