
- Author, John Fernandez
- Role, BBC News
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Lucy Domaille, que mora em Guernsey, uma ilha britânica na costa oeste do país, abriu mão do anonimato como vítima de um crime sexual para falar publicamente sobre o impacto que o voyeurismo teve sobre ela e sua família.
“Eu não consigo mais dormir”, disse ela à BBC.
“Cada barulho, cada vez que a porta se abre, você sente que alguém está te observando 24 horas por dia. Isso tomou conta da minha vida completamente. Consumiu minha mente”, acrescentou.
Um homem que ela conhecia socialmente há 25 anos a filmou secretamente enquanto ela saía do chuveiro em sua casa, através de uma fresta na cortina e agachado do lado de fora de uma das janelas.

Crédito, Getty Images
Desde então, o incidente ocupa todos os pensamentos de Lucy.
“Não sou mais a mesma pessoa. É devastador para a alma, é torturante”, explicou.
O trauma também lhe roubou qualquer sensação de segurança.
“Quando você chega em casa, o lugar onde você deveria se sentir segura, eu perdi completamente isso”, acrescentou.
“Estou obcecada. Não consigo dormir… Perdi tudo”, disse.
‘Roubaram a inocência dos meus filhos’
Lucy estava fazendo compras em um supermercado quando seu marido ligou dizendo que dois policiais estavam em sua casa procurando por ela.
Mais tarde, ela descobriu que havia sido vítima de Kirk Bishop, cujas violações de privacidade foram descobertas pela polícia local em um site.
Ela disse que o trauma emocional que sofreu fez com que “não fosse mais a mesma pessoa; acho que nunca mais serei”.
Como mãe de duas crianças pequenas, ela disse que a situação também mudou a forma como interage com elas em casa.
“Às vezes, uma criança sai do banheiro e corre pelo corredor até o quarto sem roupa nenhuma. Não quero mais isso. A inocência dos meus filhos foi roubada. Eu me certifico de que eles estejam vestidos.”

Crédito, BBC News
Bishop, de 40 anos, se declarou culpado de um total de 20 acusações relacionadas a 12 vítimas diferentes em um tribunal britânico em 9 de fevereiro.
As acusações incluíam invasão de domicílio com intenção de cometer crime sexual e com intenção criminosa, agressão, voyeurismo e posse de drogas. Tudo isso ocorreu entre 2022 e 2025.
Em alguns casos, ele invadiu casas e filmou as pessoas fazendo sexo.
No entanto, apesar da condenação, Lucy afirmou que sua experiência com a polícia e o sistema judiciário a deixou hesitante em denunciar um crime no futuro.
Ela explicou que um dos conselhos que recebeu dos policiais foi para “se certificar de que as cortinas estivessem bem fechadas”.
Ela também descobriu que uma imagem sua encontrada em um dos dispositivos de Bishop era um frame retirado de um vídeo que havia sido compartilhado anteriormente na delegacia em uma tentativa de identificá-la.
Ela disse que sua privacidade foi violada mais uma vez.
Penalidades para voyeurismo
Lucy disse que também ficou chateada ao saber que a pena máxima para voyeurismo em Guernsey é de dois anos de prisão e multa.
“Ele só pode pegar dois anos, independentemente do número de vítimas”, disse Lucy.
No Brasil, o voyerismo também é crime. De acordo com o Código Penal, “produzir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, conteúdo com cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de caráter íntimo e privado sem autorização dos participantes”, pode levar a uma pena entre seis meses e um ano, além de multa.
Mas se for praticado contra crianças ou adolescentes, como no caso dos filhos de Lucy, a pena prevê reclusão de 4 a 8 anos e multa.
“Eu realmente achei que estava interpretando [a lei de crimes sexuais] errado”, disse ela. “Ele vai cumprir seis semanas de prisão pelo que fez comigo.”
O Comitê de Assuntos Internos de Guernsey anunciou em novembro, em parte devido a este caso, que estava trabalhando em atualizações nas leis de crimes sexuais da ilha para endurecer as penas relacionadas ao voyeurismo.
Em fevereiro, autoridades do governo de Guernsey disseram que estavam trabalhando para realizar um “debate em março ou abril”.
Uma carta de política sobre o assunto ainda não foi publicada.
Lucy disse que, embora essa fosse uma medida positiva, ela estava irritada por não se aplicar ao seu caso.
“Se você está mudando uma lei com base em um crime que alguém cometeu, certamente essa pessoa deveria ser punida de acordo com isso?”, disse ela.
Bishop deve ser sentenciado em 15 de maio.
Lucy concluiu afirmando que uma das melhores coisas de se viver numa ilha era a sensação de segurança, algo que, segundo ela, havia perdido completamente.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


