1:38 PM
8 de junho de 2026

Alcoolismo: como a doença leva à bagunça financeira – 08/06/2026 – Vida de Alcoólatra

Alcoolismo: como a doença leva à bagunça financeira – 08/06/2026 – Vida de Alcoólatra

PUBLICIDADE


No meu alcoolismo ativo, nunca dei a menor bola para dinheiro. Mesmo tendo saldo, não pagava nada em dia: simplesmente ignorava as contas. Não tinha o mínimo controle. Era comum, nos bares, pagar a conta para todo mundo. Bastava beber que eu virava milionária. Quem sentasse comigo tinha a sorte de ter o consumo pago por mim. E, quanto mais eu bebia, mais eu esbanjava.

Após as bebedeiras, não queria nem olhar o extrato do banco. Por mais de uma vez fiquei com o nome sujo na praça, ainda que, repito, tivesse saldo na conta. A bagunça financeira era enorme.

Tive a sorte de contar, bem no auge do meu alcoolismo, com um fundo de garantia que me ajudou com essas catástrofes alcoólicas e até a pagar os gastos com tratamentos. Comecei a trabalhar relativamente cedo e, em um emprego em que fiquei por muitos anos, fiz um acordo para sair e conseguir resgatar um significativo montante de dinheiro.

Essa reserva me salvou por alguns anos, mas só comecei a me reerguer ao longo da recuperação. Entendi, acho que pela primeira vez, o que era ganhar dinheiro. Parece uma fala de criança? Bem, é mais ou menos por aí. Bêbada, eu me comportava como se não tivesse noção do valor do meu trabalho. Se eu ganhasse mais, gastaria mais e não me organizaria para pagar o básico: comida, aluguel, luz.

Ao frequentar os Alcoólicos Anônimos, constatei que não era a única nessas derrapadas financeiras. Ouvi inúmeros depoimentos semelhantes. O álcool vinha em primeiro lugar e todo o resto era ignorado.

Não foi do dia para a noite, porém, que percebi que precisava equilibrar o que ganhava e o que gastava.

Depois de anos de recuperação, ganhando menos, muito menos do que quando comecei a trabalhar, consegui honrar meus compromissos. Isso foi me dando um alívio, uma sensação de crescimento.

Sem o álcool, tudo ficou mais fácil. Porque, na verdade, eu não gastava apenas em litros e litros de bebidas, mas também em coisas inúteis que comprava por impulso. Entrava nas lojas e saía carregada. Depois de ler sobre bipolaridade, aprendi que esses gastos são próprios da doença —talvez alguns traços dela já estivessem se manifestando em mim.

Hoje tenho planilha, sei quanto entra e quanto vou gastar. Em alguns meses consigo guardar algum dinheiro; em outros, fecho o mês no laço. Mas o prazer de saber que não vai chegar nenhuma dívida inesperada não tem preço.

Sabendo também de minhas compulsões, penso duas vezes antes de comprar alguma coisa. Ainda mais hoje, com a facilidade das compras online. Basta um clique e pronto. Mas ter consciência dessa compulsão e a lembrança do passado me ajudam a não perder o controle.

Aliás, para os interessados em bipolaridade, recomendo muito um livro que acabei de ler e que, segundo meu psiquiatra, é uma bíblia no assunto: “Uma Mente Inquieta, de Kay Redfield Jamison. Foi uma leitura de espelho: tudo que a autora sentia me era familiar. E me ajudou demais.

Ter consciência das armadilhas do alcoolismo e da bipolaridade foi essencial. Posso não ser um ás nas finanças, mas hoje me sinto em dia com meus gastos. É um alívio imenso.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Fonte.:Folha de S.Paulo

Leia mais

Rolar para cima