
Crédito, CEFAS
- Author, Georgina Rannard
- Role, Repórter de ciências, BBC News
Tempo de leitura: 7 min
As águas do resplandecente litoral dos territórios britânicos no Caribe foram um mistério por muito tempo.
Agora, um grupo de cientistas se reuniu para a primeira expedição além das águas pouco profundas das ilhas.
Eles descobriram uma cordilheira submarina, um enorme “buraco azul”, com recifes de coral aparentemente intocados pelas mudanças climáticas e criaturas marinhas nunca vistas até então.
Em um trabalho que se estendeu por seis semanas, 24 horas por dia, os pesquisadores submeteram câmeras e outros equipamentos a condições extremas de pressão da água e conseguiram gravar a 6 mil metros de profundidade.
Para navegar pelas ilhas Cayman, Anguilla e Turks e Caicos, eles precisaram contar com mapas de décadas atrás, com graves erros e áreas inteiras não assinaladas.
O Centro para a Ciência do Meio Ambiente, Pesca e Aquicultura do Reino Unido (Cefas, na sigla em inglês) compartilhou suas imagens e descobertas com exclusividade para a BBC.

Crédito, Lawrence Eagling e Programa Blue Belt
O governo britânico compartilha a responsabilidade de proteger a natureza das ilhas e até 90% das espécies únicas do Reino Unido se encontram nestes e em outros territórios britânicos ultramarinos.
Agora, os cientistas alertam que começou a corrida para proteger este ambiente “relativamente intocado” das ameaças da poluição e das mudanças climáticas.
“Este é o primeiro passo rumo a ambientes que nunca ninguém viu e que, em alguns casos, nem sequer se sabia que existiam”, explica James Bell, líder da expedição a bordo do navio de pesquisa britânico RRS James Cook, com cientistas dos três arquipélagos.
“Acabamos de encontrar uma espécie de pepino-do-mar nadador e ainda não sabemos o que ele é”, destaca Bell. Ele define a diversidade observada como “realmente assombrosa”.

Crédito, Cefas
As ilhas Cayman, Anguilla e Turks e Caicos abrigam 146 espécies que só vivem nestes territórios. E a atual expedição de pesquisa deve acrescentar ainda outras a esta lista.
A equipe documentou cerca de 14 mil espécimes individuais e 290 tipos diferentes de criaturas marinhas. Mas são necessárias novas pesquisas científicas para confirmar suas descobertas.
Eles encontraram uma enguia-pelicano com uma cauda rosa brilhante que emite brilhos vermelhos para atrair comida, um peixe-barril com olhos tubulares que apontam para cima, para ver as silhuetas de suas presas, e um peixe-dragão com uma vara brilhante sob o seu queixo.
Em declarações para a BBC enquanto o navio navegava por uma montanha submarina inexplorada, chamada Pickle Bank, Bell declarou que “não sabemos ao certo a que distância estamos. É muito difícil mapeá-la sem correr o risco de encalhar.”

A equipe descobriu posteriormente que essa montanha, localizada ao norte da ilha Pequena Cayman, se eleva a 2,5 mil metros de profundidade até cerca de 20 metros abaixo da superfície do mar.
As imagens revelam uma ladeira de cor azul brilhante, amarela e laranja repleta de vida: torres douradas de coral que crescem ao lado de outros corais que parecem grandes cérebros.
A equipe filmou peixes se movendo entre corais gorgônia e esponjas-marinhas gelatinosas alaranjadas, perto de corais pretos.
Eles encontraram um dos recifes mais saudáveis e diversificados da região, livre dos estragos da doença do coral pétreo que assola o Caribe.
Este recife, por enquanto, provavelmente está protegido pela sua profundidade e pelas ladeiras íngremes da montanha.

Crédito, Cefas

Crédito, Cefas
Causado principalmente pelas mudanças climáticas, o aquecimento oceânico já prejudicou 80% dos corais do planeta desde 2023.
Utilizando câmeras de águas profundas e ecossondas baixadas do costado do navio, os pesquisadores mapearam quase 25 mil km² do fundo do mar e tiraram 20 mil fotografias. Elas incluem peixes-lanterna brilhantes e cefalópodes de aspecto alienígena.
“Conhecemos a superfície de Marte ou da Lua melhor que a do nosso próprio planeta”, destaca Bell. “Você envia para lá um satélite e eles são cartografados em poucas semanas.”
“Por outro lado, não podemos fazer isso com o nosso oceano. Precisamos mapeá-lo pouco a pouco, utilizando instrumentos acústicos a bordo de navios.”
Nas ilhas Turks e Caicos, o equipamento descobriu algo que faltava nas cartas marinhas existentes: uma crista montanhosa extremamente íngreme de 3,2 mil metros de altura, que se estende por 70 km ao longo do leito marinho, a oeste de um lugar chamado Gentry Bank.

Crédito, Cefas
Os pesquisadores também se surpreenderam ao encontrar um enorme sumidouro vertical conhecido como buraco azul, a 75 km ao sul de um banco conhecido como Grande Turk, formado pelo desabamento de uma caverna.
“Imagine tirar uma bola de sorvete do fundo do mar”, descreve Bell. “Foi isso o que vimos: uma cratera de cerca de 300 metros de largura a 550 metros abaixo do nível do mar.”
Eles acreditam que suas paredes escarpadas podem formar o buraco azul mais profundo do Caribe, rivalizando com o famoso Grande Buraco Azul de Belize.
Normalmente, não há vida dentro de um buraco azul. Mas as câmeras instaladas no interior do novo local descoberto mostram pequenas esponjas, uma espécie de ouriço conhecida como Spantagoida grande e diversas espécies de peixes.
E, a 25 km ao norte de Anguilla, os pesquisadores seguiram os rumores difundidos por pescadores locais, que haviam extraído pedaços de coral enquanto trabalhavam. A equipe confirmou a existência de um recife de 4 km com mosaicos de coral crescendo em “jardins” de esponjas.
Eles também encontraram coral negro que poderia ter milhares de anos, o que o torna um dos mais antigos já registrados.
“Isso nos indica que este ambiente realmente é saudável e intocado”, afirma Bell.

Crédito, Cefas

Crédito, Cefas

Crédito, Cefas
Os cientistas estão interessados nestas zonas de águas profundas e montanhas escarpadas porque elas podem canalizar águas ricas em nutrientes até a superfície, fornecendo zonas de alimentação para animais ou locais de pesca.
A bordo do barco, o Cefas colaborou com um grupo de especialistas ambientais das ilhas Cayman, Anguilla e Turks e Caicos. Eles utilizarão as descobertas para melhorar os planos de gestão da biodiversidade e encontrar novas oportunidades de pesca para as comunidades das ilhas.
“Nossas ilhas nasceram literalmente do mar. Mas, em relação ao nosso ambiente marinho, só agora tivemos realmente a oportunidade de descobrir o que há aí fora”, declarou à BBC Kelly Forsythe, do Departamento de Meio Ambiente das ilhas Cayman.
Os governos das ilhas se uniram às pesquisas como parte de um projeto chamado Programa Blue Belt (“Cinturão Azul”).
O trabalho deverá fornecer informações para ajudar o Reino Unido a cumprir seus compromissos legais perante a ONU, de proteger 30% dos oceanos do mundo até 2030, como Áreas Marinhas Protegidas oficialmente designadas.
“Qualquer pessoa pode desenhar um quadrado no mapa e dizer: ‘Esta é uma área marinha protegida'”, explica Bell.
“Mas, a menos que você saiba o que ela contém, não se tem certeza se ela tem alguma utilidade.”
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


