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1 de junho de 2026

Antonio Peticov, em mostra, une psicodelia e contracultura – 01/06/2026 – Ilustrada

Antonio Peticov, em mostra, une psicodelia e contracultura – 01/06/2026 – Ilustrada

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“Eu decidi nunca trabalhar. Só curtir”, diz Antonio Peticov sobre a própria trajetória, enquanto caminha por entre as mais de 400 obras reunidas em sua mostra. Com trabalhos que atravessam o folclore brasileiro, modelos matemáticos, tragédias americanas e o universo psicodélico, ele define sua produção como um lugar em que prazer e experimentação se confundem.

Peticov ganha, agora aos 80 anos, a maior retrospectiva de sua carreira no Centro Cultural São Paulo, na zona sul da cidade. A exposição que abre nesta quarta-feira (3) reúne pinturas, gravuras, capas de discos, esculturas e instalações feitas ao longo de seis décadas.

“Uma vez vi numa exposição uma placa de mármore escrita: ‘Artista sem galeria é artista morto’. E eu acredito muito nisso”, lembra. Sem representação fixa ao longo da carreira, Peticov afirma que sempre construiu sozinho os seus caminhos de circulação. “A galeria divulga o artista, espalha o trabalho. Eu nunca tive isso.”

A retrospectiva, explica, nasce justamente da vontade de reunir em ampla escala uma produção raramente concentrada numa única instituição. Embora aprovado pela Lei Rouanet, o projeto não conseguiu captar patrocínio privado e acabou sendo realizado com a ajuda de amigos do artista.

O resultado é uma mostra que reúne vários núcleos e evidencia uma produção marcada por cruzamentos improváveis. Há séries inspiradas em desastres americanos, releituras de Pablo Picasso, investigações geométricas inspiradas na sequência de Fibonacci e trabalhos ligados ao espectro das cores e à luz. Em uma grande escultura neon em espiral, por exemplo, Peticov dá forma à proporção áurea.

Essa mistura entre experimentação e invenção também aparece na relação do artista com a música. Na juventude, Peticov ajudou a reunir Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias no grupo O’Seis, um embrião do que seria Os Mutantes.

Frequentador da cena musical paulistana dos anos 1960, organizava shows de rock no auditório da Folha e viu de perto o estilo musical se tornar linguagem da contracultura. “O rock’n’roll era um testemunho de oposição, não era business”, afirma. “Era o hino de uma geração que percebia que o mundo ao redor não era exatamente aquilo que prometiam.”

Parte desse universo aparece na seleção de capas de discos na mostra. Ao longo da carreira, Peticov produziu projetos gráficos para artistas como Itamar Assumpção, Alceu Valença, Carmen Miranda, além do O’Seis. Para ele, a capa de álbuns era uma espécie de espaço privilegiado de comunicação cultural.

A investigação visual do artista se desdobra ainda nas esculturas luminosas feitas com neon, material que usa desde os anos 1970. Segundo ele, o interesse surgiu pela capacidade do neon de reproduzir “as cores reais do espectro”.

Esse estudo da luz, das cores e da percepção se conecta diretamente às referências espirituais e psicodélicas que atravessam sua produção. O artista relaciona cogumelos e estados alterados de consciência ao desenvolvimento da percepção humana. “Meu trabalho é psicodélico no conceito. É um olhar diferenciado sobre a realidade”, afirma.

Entre os trabalhos mais políticos da mostra está uma instalação inspirada em torturas utilizadas durante a ditadura militar. Preso em 1970 por porte de ácido lisérgico, o LSD, Peticov lembra ter sido torturado num prédio no centro de São Paulo. “Era no sétimo andar. Você via as pessoas andando na rua sem imaginar o que acontecia ali dentro.”

Apesar do tom crítico, Peticov prefere definir sua trajetória pela ideia de troca. “Eu procuro viver na base do amor. Entregar e receber.”



Fonte.:Folha de S.Paulo

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