É fácil perder o ar em Arequipa, o segundo lugar mais habitado do Peru depois de Lima, capital do país —e não só por uma questão de altitude. Sair do aeroporto é encarar, ao mesmo tempo, os primeiros sinais do ar rarefeito nos pulmões e formas deslumbrantes que emolduram o horizonte cortado pelos aviões.
Estamos em uma cidade orientada por vulcões, e três deles —os imponentes Misti, Chachani e Pichu Pichu— ficam à vista praticamente de todo canto. Quase tudo por ali gira em torno deles, da lenda que os coloca como protagonistas de uma história de amor ao rótulo da cerveja típica da região, a Arequipeña, que exibe a mensagem de que ninguém nasce em vão aos pés dessas estruturas geológicas.
Mas o impacto é, sobretudo, na paisagem. Arequipa é conhecida como a “cidade branca” por ter parte de suas construções, incluindo o aeroporto, feitas com sillar, uma rocha vulcânica de tom claro que nasce do processo de solidificação da lava de erupções antigas.
O resultado aparece principalmente na Plaza de Armas, cercada pelas construções claras da catedral e dos portais —quase uma centena de arcos construídos pelos espanhóis que dominaram o lugar em 1540. Eles transformaram a praça no coração da cidade, vista por eles como um oásis. A 2.300 metros de altitude, encontraram um meio termo entre o litoral e os andes.
Não à toa, estão bem próximas deste ponto a maioria das atrações nos limites da cidade. Na própria praça, a Catedral de Arequipa resistiu a séculos de erupções, terremotos e incêndios e hoje tem sua história contada num passeio turístico que contempla religiosos e curiosos pela história.
A visita passa por um museu e pelo tesouro da catedral —um órgão do artista belga François Bernard Loret com 12 metros de altura e mais de 1.200 tubos que pode ser visto de todos os lados. Tudo termina no terraço, onde estão os sinos e uma bela vista da cidade.
A quatro minutos de caminhada dali, vale a pena desembolsar cerca de R$ 72 para passear pelo Monasterio de Santa Catalina, um universo paralelo de 20 mil metros quadrados criado em 1579. Paredes nas cores terracota e azul cercam o espaço que chegou a ser habitado por cerca de 300 mulheres ao mesmo tempo —ainda hoje algumas vivem lá em confinamento.
As ruelas silenciosas, batizadas com nomes de cidades espanholas, levam a capelas, quartos e outras dependências onde aquelas religiosas viviam, que são reconstruídas como num museu. Do terraço do convento, a luz do pôr do sol que ilumina as paredes terrosas e os vulcões de Arequipa é inesquecível.
À noite, a cidade branca considerada patrimônio cultural do mundo pela Unesco tem energia cosmopolita e de interior ao mesmo tempo. Turistas passeiam pelas ruas de pedra recheadas de antiquários, lojas de lembrancinhas e até de um cassino enquanto cruzam com lhamas e alpacas que circulam com seus donos que vestem trajes típicos —esteja preparado para desembolsar algumas moedas caso queira uma foto com os bichinhos enfeitados.
Os restaurantes [veja dicas abaixo] são vários, dos contemporâneos aos mais tradicionais, e vale à pena caminhar por ruas ao redor da praça principal para conhecer uma parte menos turística da cidade. Para os fãs de música, a dica é dar um pulo na Discos Eternos e conversar com os vendedores, que dão recomendações valiosas de artistas peruanos.
Há muito o que se fazer na cidade, mas perde a melhor parte do passeio quem não aproveita a localização estratégica de Arequipa para explorar a natureza do distrito que leva o mesmo nome da cidade. Com carros alugados ou vans de agências de viagem —a reportagem viajou com a Sun Gate Tours—, chega-se à variedade de paisagens da Reserva Nacional de Salinas y Aguada Blanca.
Antes de entrar nas estradas rodeadas por montanhas vale investir em um pacotinho de folhas de coca (cerca de R$ 8) para rebater o mal de altitude, que passa dos 4.000 metros na região.
Pelo mesmo preço também dá pra tomar o chá da planta, ou uma mistura com outras ervas chamada de chá inca, no vilarejo de Patahuasi. A parada no local simples, com apenas um restaurante e loja de artesanatos, compensa também pelo contato com os poucos moradores, suas alpacas de estimação e a caixa de som tocando wayno, um gênero musical andino.
As estradas sinuosas da reserva são pontos turísticos por si só. Ao longo do caminho de cerca de cinco horas que desemboca no Vale do Colca, chega-se mais perto dos vulcões Misti e Chachani e cruza-se com bandos de guanacos e vicunhas, camelídeos selvagens que vivem soltos por lá. Poucos quilômetros separam uma paisagem desértica e cheia de cactos da neve que cai sobre o mirante natural criado pela cratera do vulcão extinto Chucura, a cerca de 4.800 metros de altitude.
O sol volta no caminho para o Colca, onde estão preservados inúmeros terraços agrícolas, que são sistemas complexos de escadarias criado pelos incas nas encostas das montanhas. Também é na região que fica o monte Nevado Mismi, considerado a nascente do rio Amazonas, e de onde vem a Wititi, tradicional dança folclórica do amor e da fertilidade —com alguma sorte, é possível assistir a uma apresentação na Plaza de Armas de Arequipa no domingo pela manhã.
Vale a pena passar ao menos uma noite em uma hospedagem mais próxima aos povoados da região para se ter uma amostra menos turística da região —uma taxa de preservação que varia entre R$ 65 e R$ 114 é cobrada na entrada do vale.
Em Chivay, por exemplo, a tradição milenar inca se choca com as divertidas pinturas coloridas dos moto-táxis dos moradores, com temas de personagens como Sonic e Naruto.
Em Yanque, uma banquinha na praça central vende ceviche fresco, mas sem frescura —é uma alternativa para forrar a barriga antes de visitar os banhos termais de Chacapi (R$ 24) e relaxar olhando o rio Colca, a menos de 10 minutos de carro do centro do vilarejo.
Na mais povoada Maca, prova-se o típico Colca Sour (cerca de R$ 16), drinque feito com pisco e o nativo fruto de cacto sancayo. A frente da igreja, que passa por uma duradoura reforma por causa do último terremoto, fica mais colorida com uma cerimônia de bênção dos bois antes que eles saiam para trabalhar. Tudo isso no meio de, sim, mais montanhas.
Mas uma das melhores visões dessas formações monumentais fica no mirante Cruz del Condor, onde centenas de pessoas chegam pela manhã para assistir ao voo do condor, a maior ave voadora do mundo. O que se vê é um dos cânions mais profundos do planeta, com 3.200 metros —quase o dobro do que o famoso Grand Canyon, nos Estados Unidos.
É do fundo dele que as aves surgem, planando com a ajuda das correntes quentes de vento, e são recebidas por gritos dos turistas emocionados. Depois do show, mais algumas moedas ficam nas mãos de quem quiser guardar o momento tirando fotos com pessoas fantasiadas como o bicho.
Depois de tantas folhas de colca para minimizar os efeitos da altitude, vale deixar o ponto mais alto para o final do trajeto. O Patapampa, hoje conhecido como o mirante dos vulcões, foi visto no passado como a divisão entre o mundo dos deuses e o nosso.
Num dia de céu limpo, é possível ver no horizonte a 5.000 metros acima do nível do mar o cume de vários vulcões da região —os já citados neste texto e outros gigantes como o Hualca Hualca, o Amparo e o Sabancaya, que está ativo e solta fumaça. Mas outra atração também está ali, no solo, e faz o Patapampa parecer outro planeta.
Ao redor do mirante, um sem-número de amontoados de pedras deixado ao longo dos anos por moradores e turistas completa a paisagem. São as apachetas, tradicionalmente erguidas pelos povos andinos como oferendas à Pachamama, a Mãe Terra, e aos Apus, os espíritos das montanhas.
Depois de deixar uma contribuição, resta se despedir arranhando uma expressão que certamente será aprendida na viagem. Na língua quíchua, uma das oficiais do Peru, não existe adeus, apenas “tupananchiskama” —ou até que a vida faça a gente se encontrar de novo.
Serviços
Basílica Catedral de Arequipa
Plaza de Armas, s/nº. museocatedralarequipa.org.pe
Monasterio de Santa Catalina
Santa Catalina, 301.santacatalina.org.pe
Discos Eternos
Calle San Juan de Dios, 210. instagram.com/discoseternos
Como chegar
Não há voos diretos entre cidades brasileiras e Arequipa, mas a Latam tem voos para Lima saindo de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Porto Alegre e Florianópolis. De Lima, pega-se um vôo 1h30 até Arequipa —a Latam oferece 91 desses semanalmente.
Onde ficar
Arequipa: San Agustín Posada Monasterio
O hotel em frente ao mosteiro está muito bem localizado na parte mais turística da cidade, a uma curta caminhada da Plaza de Armas. Os quartos são simples, mas confortáveis, e o café da manhã tem frutas típicas como tuna. Na reserva, certifique-se de que um ventilador estará disponível para você no quarto.
hotelessanagustin.com
Vale do Colca: Aranwa Pueblito Encantado del Colca
Extremamente confortável, este tranquilo hotel às margens do rio Colca e rodeado por terraços inca vale muito o investimento. O café da manhã e restaurante são excelentes e há boas opções de lazer e relaxamento, como piscinas, área de jogos, fogueira e spa.
aranwahotels.com/pt/aranwa-pueblito-encantado-del-colca
Onde comer
Em Arequipa
13 monjas
O nome do restaurante faz uma brincadeira com o convento próximo a ele e tem energia moderna. Experimente a massa artesanal 13 monjas (cerca de R$ 63), com passata de tomate, pimentão assado, amêndoas, panceta e rúcula. Para beber, aposte em uma das cervejas artesanais da região ou em deliciosos drinques como o Negroni de Altura (R$ 61), feito com os licores matacuy e mistela, o destilado salqa e vermute.
https://13monjas.com
Chicha
O restaurante do premiado chef Gastón Acurio se dedica à cozinha ancestral peruana com toques contemporâneos. É um bom lugar para experimentar o tradicional cuy, porquinho-da-índia consumido por lá —a entrada vem parecida com um pedacinho de panceta e custa R$ 30. Para a sobremesa, experimente o tradicional arequipenho queso helado (R$ 42), sorvete feito à base de leites.
chicha.com.pe
Picantería La Nueva Palomino
Tradicionais de Arequipa e Cusco, restaurantes como esses se dedicam à tradição culinária que vai das receitas aos métodos usados. Neste, todas as comidas são feitos no fogão a lenha e é possível ver funcionários macerando os temperos que serão usados nos pedidos no batán, instrumento inca feito de pedra. Não deixe de provar a entrada picantero caliente (R$ 83), com queijo frito, batata empanada e bolinhos com molho de alho. Para beber, o carro chefe é a ancestral chicha de guinapo (R$ 10), fermentada a partir dos milhos preto e roxo.
instagram.com/lanuevapalomino
Em Chivay
Restaurante Urinsaya
O charmoso restaurante com um condor enorme pintado na parede dos fundos é um buffet com opções tradicionais da cozinha peruana —come-se à vontade por R$ 72. As receitas incluem carne de alpaca e cuy, rocoto relleno e lomo saltado.
Calle Francisco Bolognesi, 1.026
Fonte.:Folha de S.Paulo


