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6 de fevereiro de 2026

Baly Tadala: por que energético “sabor tadalafila” preocupa médicos e expõe riscos no carnaval

Baly Tadala: por que energético “sabor tadalafila” preocupa médicos e expõe riscos no carnaval

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A maior marca brasileira de energéticos lançou para o Carnaval de Salvador de 2026 uma edição limitada de bebidas batizada de “Baly Tadala”. O produto faz alusão ao medicamento tadalafila, usado no tratamento da disfunção erétil.

Viral nas redes sociais, o lançamento chamou a atenção de profissionais de saúde, incluindo o Conselho Federal de Farmácia (CFF), que, na última semana, emitiu uma nota sobre os riscos associados ao produto. 

Como parte da campanha publicitária da bebida, além do nome adotado, a marca também aposta em trocadilhos em postagens nas redes sociais, utilizando frases como “o Baly que te leva para cima”. 

Vale destacar que o energético vem em embalagem azul e acompanha slogans como “o azulzinho mais saboroso do Brasil”, o que remete ao Viagra, também para impotência sexual, mas à base da substância sildenafila. 

Mas, é possível que o energético realmente contenha o medicamento em sua composição? E por que fazer alusão a medicamentos pode ser perigoso?

+Leia também: Uso recreativo de remédios para disfunção erétil eleva risco de AVC, alerta Anvisa

O que tem — e o que não tem — dentro do Baly Tadala

Procurada pela reportagem, a Baly informou que o Tadala é uma bebida energética convencional, regularizada junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), sem qualquer fármaco em sua fórmula.

A empresa alega, ainda, que o termo “Tadala” circula na cultura popular e é usado como sinônimo de disposição e energia, não como remédio. “Tornou-se de uso comum no Brasil para transmitir a ideia de energia e vigor, sendo utilizado cotidianamente”, diz a Baly sobre a expressão.

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Ainda de acordo com a marca, a composição exata do produto é tratada como segredo industrial, mas a empresa afirma que o produto traz apenas ingredientes comuns ao segmento, como extratos de guaraná e catuaba, dentro dos limites legais, além de aromas que conferem “um toque de pimenta”.

Em outras palavras, apesar do nome sugestivo, não há tadalafila na bebida. E nem poderia haver. Misturar medicamento de prescrição com alimento ou bebida é proibido pela Anvisa e configuraria risco sanitário grave.

Por que o Conselho de Farmácia se preocupou

Para o CFF, o problema é, principalmente, simbólico e comportamental, não necessariamente químico.

Na nota divulgada, o conselho afirma que associar um medicamento de prescrição a uma bebida recreativa banaliza o uso de fármacos e pode estimular a automedicação. A situação se agrava especialmente em um contexto como o Carnaval, marcado por álcool, calor e longas horas de folia.

O CFF lembra que a tadalafila não é inofensiva. Ela atua no sistema cardiovascular e pode causar efeitos adversos como:

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  • queda da pressão arterial,
  • cefaleia intensa,
  • alterações visuais,
  • taquicardia,
  • priapismo (ereção prolongada e dolorosa),
  • e, em situações específicas, eventos cardiovasculares graves.

Esses riscos aumentam quando há consumo de álcool ou uso simultâneo de medicamentos como nitratos, comuns em pacientes com doenças cardíacas. “A ideia de um produto com ‘sabor’ que remete ao medicamento reforça no imaginário coletivo a noção equivocada de que seu uso é simples, seguro e livre de consequências”, diz o conselho.

Posso combinar álcool, energético e (ou) tadafila?

Mesmo que o tal “Baly Tadala” não contenha fármacos, é fato que a prática de misturar álcool + energético + tadalafila tem se tornado comum entre foliões que buscam “melhor performance” no carnaval. Mas médicos alertam: essa combinação é arriscada.

A tadalafila é um inibidor da PDE5 que promove vasodilatação, ou seja, relaxa vasos sanguíneos e aumenta o fluxo de sangue. Isso ajuda na ereção durante estímulo sexual e pode melhorar sintomas urinários em homens com próstata aumentada.

No Brasil, esse medicamento só é vendido sob prescrição médico, uma medida importante para evitar possíveis efeitos colaterais. Aliás, ele não só não deve ser consumido por pessoas sem prescrição, como também é indicado somente para casos muito específicos.

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Não costumamos prescrever medicação por causa de uma, duas ou três falhas isoladas, porque isso muitas vezes tem origem emocional ou situacional“, explica Leonardo Seligra, supervisor da Disciplina de Sexualidade do Departamento de Andrologia da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

Em geral, a indicação vem quando há problemas repetidos e prolongados dentro do espaço de, pelo menos, um mês.

O cardiologista Silvio Reggi, assessor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) explica também que as drogas para disfunção erétil são seguras, mas riscos crescem em três cenários: uso excessivo, presença de doença cardiovascular e interação com outros medicamentos que podem potencializar a sua ação.

O médico, assim, lamenta que, no Brasil, esses fármacos sejam frequentemente comprados sem prescrição, o que aumenta riscos, já que muita gente pode ter problemas cardíacos sem saber.

Entenda os problemas das combinações:

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O álcool é um vasodilatador potente, assim como a tadalafila. Juntos, podem provocar queda acentuada de pressão, tontura e até desmaio ao levantar.

De acordo com Reggi, a associação dos medicamentos para impotência com o álcool é um problema “clássico” no meio médico. “Afinal, é comum que, quando os pacientes procuram momentos de intimidade, o álcool esteja envolvido, como ao sair para jantar”, comenta.

E há outros riscos. O álcool pode levar a aumento da frequência cardíaca, arritmias, e, em casos extremos, infarto.

“O álcool é uma substância cardiotóxica, seja quando você faz um uso muito intenso de uma única vez ou usa por um longo período de tempo, no caso dos pacientes alcoolistas”, explica o cardiologista.

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No uso agudo (beber demais de uma vez só), a desidratação favorece queda de pressão, arritmia e insuficiência cardíaca. No uso crônico, pode causar cardiomiopatia alcoólica (doença do músculo cardíaco).

Misturar álcool + energético já é considerado muito problemático. Segundo Reggi, pronto-socorros recebem com frequência pacientes intoxicados, com batimento acelerado e sintomas cardiovasculares.

Mas a associação entre tadalafila, energético e (ou) álcool ainda é uma novidade arriscada. “Não existem estudos ainda, e provavelmente não existirão, porque é um uso recreativo. Mas a prática clínica vai nos dizer”, comenta Reggi.

Segundo o médico, em tese, para pessoas saudáveis, o risco não “explode” além do que já é ruim. “Não é que seja bom. É que não vai piorar muito o que já é péssimo“, diz. É que uma combinação de energético e álcool, por exemplo, já é muita perigosa, mas acrescentar a tadalafila a essa equação continua sendo uma aposta desnecessária.

Seligra destaca que, com os remédios de dinsfução erétil, a dose importa muito. “É muito diferente você tomar 5 miligramas de tadalafila, de tomar 20 ou 40”, explica.

O mesmo vale para energéticos. Para quem não tem doença cardíaca conhecida, o consumo eventual (uma ou duas latas, de vez em quando, sem misturas) tende a ser tolerado. Já o consumo diário e crônico pode elevar pressão e frequência cardíaca ao longo do tempo.

Banalização e impacto na vida sexual

Os impactos da banalização dos medicamentos para a impotência sexual vão além dos riscos ao coração. Eles também atingem a vida sexual.

Seligra lembra que, qualquer homem que utilize essas medicações vai perceber uma diferença positiva na ereção, já que ele aumenta o tempo de relaxamento do músculo. “Isso pode gerar uma comparação irreal”, diz.

Uma hora, a conta chega. “Toda vez que o indivíduo tentar ter uma relação sexual sem o uso da medicação, ele pode achar que a ereção está pior ou mais fraca, o que não é verdade”, completa.

Isso pode gerar impactos negativos, como aumento do estresse e da ansiedade. Por isso, para o urologista, a popularização do uso da tadalafila em contextos festivos traz ainda mais preocupação. “Ela mostra que muitas pessoas estão com dificuldade de iniciar relacionamentos de forma segura e confortável”, diz.

Diante desse cenário, Reggi opina que a alusão a qualquer tipo de medicamento em propagandas deveria ser proibida.

Ele lembra que, no Brasil, é proibida a divulgação de medicamentos que precisam de prescrição médica, caso dos remédios para disfunção erétil.

“Justamente porque são medicamentos, têm indicações e contraindicações. Quando você estimula o uso, de forma direta ou indireta, certamente estaria indo contra a forma como o Brasil regula o uso dos medicamentos“, confirma o cardiologista.

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Fonte.:Saúde Abril

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