A calçada do cruzamento da rua Cardeal Arcoverde com a João Moura, em Pinheiros, região oeste de São Paulo, costuma ficar cheia aos finais de semana, com gente sentada em banquetas de plástico, petiscando uma linguiça feita na chapa e bebendo cerveja gelada.
Quem atrai essa clientela é o Bar do Biu, que quase sempre tem fila. Mas o restaurante, que ocupa aquela esquina desde que abriu as portas há 45 anos e virou queridinho do bairro, vai fechar as portas. O espaço terá o mesmo fim de muitos outros estabelecimentos tradicionais da cidade nos últimos anos: vai virar um prédio (sim, mais um).
O Bar do Biu foi aberto por Severino Gomes da Silva, paraibano, e pela mulher, Edinólia, a Dona Edi, baiana, responsável pela cozinha até hoje. O local ficou famoso por servir deliciosos e fartos pratos nordestinos a preços acessíveis. Entre os carros-chefes da casa estão a feijoada completa, o baião de dois e a vaquejada.
Rogério Biu, filho do casal, que hoje também administra o restaurante, diz que a família soube no fim do ano passado que seria obrigada a deixar o local. A construtora Sinco havia comprado a casa que abriga o restaurante, além de outros imóveis ao lado, e ofereceu isenção de aluguel e IPTU por um ano, até o início da obra.
“A gente não aceitou esse pré-acordo, porque a gente queria alguma coisa sobre o nosso ponto”, explica Rogério. “A gente está ali há 45 anos, meus pais pagaram para abrir o restaurante, para comprar o ponto do antigo dono. E estamos sem esse valor, porque a dona do imóvel vendeu sem negociar nada com a gente.”
Procurada pela Folha, a Sinco afirmou que não vai comentar o caso. O fechamento coloca o Bar do Biu na crescente lista de estabelecimentos tradicionais que deixaram Pinheiros por causa da pressão imobiliária.
O bairro, não à toa, está com os preços nas alturas e as calçadas repletas de tapumes. O metro quadrado do distrito é o segundo mais caro da cidade, R$ 18.338, abaixo apenas do Itaim e seus R$ 19.663, segundo dados de maio do índice FipeZap.
A família ainda não sabe se vai conseguir abrir em outro endereço. “Sem essa grana, como é que eu vou montar outro [espaço]? Estamos nessa dúvida de como seguir”, diz Biu.
Hoje com 43 anos, ele lembra como cresceu dentro do restaurante. A escola pública em que estudou ficava na João Moura e, após as aulas, ia direto para lá. “Comecei desde pequeno. Um dia eu cheguei para o meu pai e falei: ‘Pai, quero uma bicicleta.’ Ele falou: ‘Quer uma bicicleta? Então é assim que se trabalha.'”
Começou lavando copo, enchendo a geladeira. E gostava de estar ali, recebendo os clientes. Mas o negócio passou por altos e baixos. Nos anos 1990, a família enfrentou dificuldades financeiras após o fechamento de empresas que movimentavam o horário de almoço. O restaurante acumulou dívidas e chegou a viver momentos de incerteza.
A virada começou no início dos anos 2000, quando a família decidiu abrir aos domingos e uma jornalista publicou uma reportagem sobre a comida de Dona Edi. “Foi a primeira matéria espontânea sobre a gente. A gente colocou aquilo na parede do bar. Foi quando as pessoas começaram a descobrir o restaurante”, lembra Biu.
A partir dali, o Bar do Biu passou a atrair novos frequentadores e consolidou sua reputação como um dos principais redutos da culinária nordestina da cidade. Hoje, quem entra no salão encontra um lugar que parece resistir ao tempo. As paredes azul-claras são cobertas por adereços do Corinthians —Biu é corintiano fanático— e por desenhos feitos pelo pai, todos emoldurados. Uma grande tela exibe fotos de clientes, amigos e momentos marcantes da trajetória da casa.
O espaço se tornou ponto de encontro para transmissões de jogos do Corinthians, eventos musicais e reuniões de amigos. Até mesmo a banda americana Offspring passou pelo local durante a gravação de um videoclipe. “Bar é isso, né? É um lugar para juntar pessoas. Hoje, praticamente todos os meus amigos vieram do bar.”
Hoje, Biu vê a filha e o sobrinho correndo pelo salão e se lembra de si mesmo e da irmã, pequenos, brincando no mesmo lugar. “É praticamente uma vida toda aqui dentro”, diz ele. “É difícil [sair]. Foi o meu único trabalho da minha vida inteira. Desde que eu saí da escola, sempre foquei o bar. Sempre foi meu ganha-pão, aprendi tudo ali”, lamenta.
Biu pensa em um futuro com novos formatos. Sonha em aposentar os pais e, quem sabe, realizar eventos gastronômicos com a mãe nos fins de semana ou encontrar um parceiro para tirar do papel um novo projeto. Para os clientes, ainda dá tempo de se despedir da comida de Dona Edi: o bar funcionará até o dia 20 de dezembro.
Bar do Biu
R. Cardeal Arcoverde, 772/776, Pinheiros, região oeste. @bardobiu
Fonte.:Folha de São Paulo


