
Um bar na Lapa, reduto boêmio do centro do Rio de Janeiro, virou notícia neste fim de semana após colocar um quadro na entrada com os seguintes dizeres, em inglês: Us & Israel citzens are not welcome (“Cidadãos dos EUA e de Israel não são bem-vindos”).
O aviso foi fotografado, postado nas redes sociais e rapidamente viralizou. Ainda na noite de sábado (4), o Procon carioca multou o estabelecimento, chamado Bar Partisan, em R$ 9.520.
Para a Secretaria Municipal de Proteção e Defesa do Consumidor, a conduta configura prática abusiva e discriminatória, proibida pelo Código de Defesa do Consumidor. Segundo a lei, nenhum negócio pode recusar atendimento sem justificativa legítima nem fazer distinções baseadas em origem ou nacionalidade.
O vereador Pedro Duarte (PSD), que acionou a secretaria após receber a denúncia, chamou a situação pelo nome: “Não vamos tolerar xenofobia e antissemitismo em nossa cidade”.
Já o vereador Flávio Valle, do mesmo partido e presidente da frente parlamentar de combate ao antissemitismo na Câmara do Rio, foi além. Encaminhou um ofício ao secretário de Ordem Pública pedindo a cassação do alvará do Partisan e prestou uma queixa formal na delegacia.
“Cansado de judeus”
O episódio não é isolado. Na mesma semana, uma cliente relatou ter ouvido de um funcionário da delicatessen Delly Gil, no bairro do Leblon, que o lugar havia parado de vender itens da culinária judaica porque o dono estava “cansado dos judeus”.
A Federação Israelita do Rio (Fierj) notificou extrajudicialmente a loja e acompanhará a testemunha à Delegacia de Crimes Raciais. O presidente da Fierj, Bruno Feigelson, disse que “críticas às guerras são legítimas, mas não é isso que essas ações representam”.
Detalhe: os dois casos ocorreram em plena celebração do Pessach, a festa judaica que marca a libertação dos hebreus da escravidão no Egito.
Gonzaguinha e Madame Satã
Em seu perfil no Instagram, o Partisan se apresenta como um “ambiente antifascista” e chama seus clientes de “camaradas”.
“Partisanos” eram guerrilheiros, muitos deles judeus, que combateram o nazismo na Europa durante a Segunda Guerra. Ironicamente, os autoproclamados herdeiros cariocas dessa resistência agora querem barrar israelenses na porta.
Além de bar, o espaço funciona como livraria, cineclube e centro de debates políticos. Uma das postagens convida o público a conhecer o acervo literário: “Sim, o Partisan também é uma livraria da esquerda. Se você ainda não sabia, está na hora de nos visitar e conhecer o que pode fortalecer sua luta”.
Entre as organizações que já realizaram eventos por lá estão a União da Juventude Comunista, o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, o Cineclube Madame Satã, o Grupo de Estudo de Ecologia e Marxismo e o Coletivo Gonzaguinha (dedicado a debates sobre violência de Estado).
A programação inclui discussões sobre temas como o “genocídio” em Gaza, “posseiros do campo brasileiro” e o “sequestro de Maduro” pelos EUA. Mas também há espaço para a esquerdismo identitário: segundo outra postagem, “o capitalismo racista e o Estado burguês impõem um isolamento estratégico sobre a mulher negra periférica”.
A imprensa do Rio afirma que os donos do Partisan se recusam a esclarecer o episódio da placa discriminatória. Deve ser o que os camaradas chamam de “silêncio revolucionário”.
Fonte. Gazeta do Povo


