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Introdução
O mercado de bebidas “funcionais” cresce, prometendo saúde e performance. Contudo, especialistas da nutrição alertam: muitas são ultraprocessadas e suas alegações, como “com fibras” ou “com vitaminas”, carecem de evidências científicas. É crucial ler rótulos e priorizar água e alimentos in natura, pois a saúde não vem em doses isoladas.
- A ascensão global das bebidas “funcionais” impulsionada pela busca por saúde e conveniência.
- Alerta de especialistas: muitas alegações de funcionalidade em produtos ultraprocessados carecem de base científica sólida.
- Riscos do consumo inadequado: excesso de nutrientes, desconforto gastrointestinal e falsa sensação de uma dieta equilibrada.
- Priorize opções realmente benéficas: água com gás, chás artesanais, kombuchas naturais e drinks sem álcool com poucos aditivos.
- A verdade: água fresca e alimentos in natura e minimamente processados são insubstituíveis para uma saúde genuína.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
O café que inicia o dia, a cerveja que marca celebrações ou o chá das pausas e rituais: é fato, as bebidas nunca serviram apenas para matar a sede.
Papéis sociais, culturais e até simbólicos sempre estiveram intimamente ligados ao ato de degustar copos e xícaras.
“O consumo alimentar vai muito além do componente nutricional, estando relacionado a ambiente, convivência e marketing”, diz a nutricionista Lara Natacci, Ph.D. pela Faculdade de Saúde Pública da USP.
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Nos últimos anos, porém, escolher bebidas ganhou uma nova camada de significado: a promessa de funcionalidade. O que está no copo não se limita a sabor, hidratação ou mera vontade. Agora carrega também expectativas de desempenho e saúde.
Essa é uma tendência global: estima-se que o mercado das chamadas “bebidas funcionais” movimente cerca de 200 bilhões de dólares por ano. Se o crescimento esperado se mantiver, esse valor pode chegar perto de meio trilhão de dólares na próxima década!
E isso é resultado de uma demanda crescente por estilo de vida equilibrado e conveniência: consumidores querem algo prático e nutritivo.
Mas, afinal, o que exatamente é uma bebida funcional? “Em nutrição baseada em evidências, só faz sentido usar esse termo se houver um componente benéfico definido e uma evidência clínica consistente de vantagem em desfechos relevantes, levando em conta dose e forma de consumo realistas”, explica a nutricionista Manuela Dolinsky, presidente do Conselho Federal de Nutrição (CFN).
“Mas, na prática, essa categoria é ampla e heterogênea: muitas bebidas se autodenominam ‘funcionais’, mas variam bastante em composição e qualidade.”
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Nesse cenário, a atenção aos rótulos e propagandas é crucial. “Do ponto de vista do Guia Alimentar para a População Brasileira, é importante lembrar que ‘funcional’ não é sinônimo de saudável”, pondera Dolinsky.
“Bebidas artificiais podem carregar alegações como ‘com fibra’, ‘com vitaminas’ ou ‘com probióticos’ e, ainda assim, manter características indesejáveis como presença de aditivos e excesso de açúcar”, esclarece.
Ou seja, a pergunta para matar nossa sede de curiosidade é: um produto ultraprocessado como um refrigerante se torna mais benéfico (ou menos prejudicial) por dispor de nutrientes adicionados à fórmula? A resposta pode ser um banho de água fria: embora o chamariz aumente o valor agregado e o preço, não há estudos capazes de sustentar a maioria das promessas.
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Entre o marketing e a vida real, essa transformação no setor de bebidas faz parte de um movimento comportamental mais amplo e, sob certos aspectos, bem-vindo à saúde pública.
Um dos fenômenos mais evidentes, puxados pela geração Z, é o menor consumo de álcool com uma maior aceitação social. “Isso significa menor risco de desenvolver doenças hepáticas, cardiovasculares e câncer com o tempo”, afirma Laura Cury, coordenadora do projeto Controle do Álcool da ACT Promoção da Saúde.
E essa mudança de gosto vai ao encontro da onda das bebidas com pegada funcional. “Para além da socialização, muita gente gosta de drinks alcoólicos por serem bebidas sensorialmente complexas, misturando acidez, dulçor, amargor e picância”, nota o empresário Roberto Meirelles.
Foi buscando atender a esse paladar mais complexo sem as desvantagens do álcool que o paulistano criou a marca Kiro, pertencente à categoria dos switchels, isto é, drinks sem álcool. As receitas trazem combinações ousadas como cupuaçu e cumaru ou maracujá com cúrcuma, aprovadas pelo público.
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Mas, se nesse caso o apelo é pela experiência sensorial, há inúmeros outros lançamentos vendendo saúde que deixam a desejar…
Sim, pode até parecer positivo tomar uma bebida com doses concentradas de fibras, vitaminas ou compostos bioativos. Mas, acredite, esses “suplementos líquidos” exigem cautela.
Dolinsky explica que seu consumo pode levar a um excesso inadvertido de nutrientes, efeitos gastrointestinais e a falsa sensação de que podem substituir uma dieta equilibrada.
Além disso, a ingestão inadequada em alguns grupos — gestantes, adolescentes, pessoas com doenças crônicas… — pode bagunçar o organismo. “No caso das bebidas energéticas e cafeinadas, revisões recentes apontam potenciais impactos cardiovasculares”, alerta a presidente do CFN. “Isso reforça que a alegação de ‘natural’ ou ‘funcional’ não isenta o consumo de riscos.”
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Aliás, quando se pretende substituir uma bebida industrializada que não entrega nutrientes por outra cheia de promessas, é preciso avaliar se a mudança compensa. “Trocar açúcar por edulcorantes e outros aditivos não é a melhor opção”, ilustra Cury.
Outra novidade nas gôndolas para a qual especialistas vêm torcendo o nariz são as águas com proteína. O líquido é indispensável à hidratação da maneira que vem ao mundo e com o tratamento básico. Não há nenhuma vantagem comprovada de acrescentar proteína, fibra ou o que for.
Se você malha e precisa de uma cota maior desse nutriente, é provável que esses goles enriquecidos não farão grande diferença.
Por falar em água, a versão com gás se popularizou nos últimos anos, inclusive para atender pessoas que querem deixar os refrigerantes tradicionais de lado.
“Do ponto de vista nutricional, é uma boa troca, porque vai hidratar e não contém álcool nem açúcar”, analisa Natacci.
No entanto, a nutricionista pondera: para quem tem sensibilidade a bebidas gaseificadas, pode causar estufamento. “Os estudos não são conclusivos, mas na prática clínica há relatos de desconforto e refluxo, então a conduta é avaliar caso a caso”, expõe.
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Um dos argumentos para lustrar a reputação das novas bebidas funcionais é que elas poderiam agregar nutrientes em falta na dieta do brasileiro. O melhor exemplo são as fibras.
Realmente, a ingestão insuficiente de frutas e hortaliças e a redução no consumo de feijão são aspectos negativos da alimentação atual no país. Porém, não é tomando refrigerante com fibras que você vai suprir a necessidade.
“Alimentos como legumes e grãos integrais entregam um pacote de componentes e benefícios, inclusive tipos diferentes de fibra, algo que uma bebida com ingredientes isolados não pode reproduzir”, diz Dolinsky.
A invasão das bebidas funcionais, inclusive nas mesas de refeição, chegou até a despertar uma antiga preocupação entre os consumidores.
Afinal, almoçar ou jantar bebericando algo faz mal à saúde ou isso não passa de mito? Muita gente cresceu ouvindo essa história, mas a boa notícia é que ela não procede do ponto de vista científico.
“Líquidos não estragam a digestão, muito menos diluem enzimas a ponto de causar prejuízo clínico”, desmitifica Natacci.
“O que funciona bem para a maioria das pessoas são pequenos goles durante a refeição, pois muita gente relata que não consegue ingerir só a comida ‘seca’”, comenta a nutricionista. Para quem tem estômago sensível ou sente desconforto, claro, cabe limitar ou evitar o consumo — nada melhor do que deixar a bebida para depois da refeição.
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Agora, quem faz sucesso até nas happy hours e festas são os chamados mocktails, os coquetéis sem álcool.
Eles isoladamente não bastam para nutrir o corpo, até porque esse nem é seu objetivo, mas são ótimas opções para momentos de socialização, para quem quer provar sabores diferentes ou só tomar algo docinho ou azedinho junto à refeição.
De novo, olho no rótulo: sempre que possível, priorize preparos mais naturais e artesanais — se houver muitos aditivos, já sabe.
Outras categorias que têm se espalhado com força são as das bebidas fermentadas e dos chás gelados. O kombucha, por exemplo, oferece prebióticos, ou seja, tem potencial de melhorar a saúde intestinal, porém é essencial o cuidado com a quantidade e a procedência desses alimentos.
“Além dos traços de álcool pela fermentação, muitos são acrescidos de açúcar, e as versões caseiras muitas vezes carregam um risco alto de contaminação”, observa Natacci. Ou seja, até mesmo o que faz bem precisa ser consumido com consciência.
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O que fica disso tudo é o básico. Bebidas ditas funcionais podem até fazer parte de um cardápio saudável, mas não substituem água fresca, alimentos in natura e minimamente processados, receitas naturais e o equilíbrio e a diversidade entre as refeições.
A nutricionista Manuela Dolinsky orienta que, para tomar decisões melhores, a prudência manda verificar no rótulo se o alimento é ou não ultraprocessado, para quem é indicado e se há contraindicações.
Afinal, a inovação só faz sentido quando vem para facilitar, não confundir a vida do consumidor.
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Confira abaixo um resumão sobre as bebidas mais famosas:

Água e Água de Coco proteica
A deficiência de proteínas não é um problema prevalente na dieta da maioria dos brasileiros. Ainda assim, cresce a oferta de produtos essencialmente voltados à hidratação, como água, acrescidos desse nutriente. O lançamento da primeira água de coco proteica do mercado, com 5 gramas de proteína em 80 calorias, chama a atenção como estratégia de marketing, mas oferece pouco ganho prático do ponto de vista da saúde. Para boa parte da população, hidratar-se não exige nada além de água. Nem toda bebida precisa ser um suplemento.
Refrigerante com fibras
Atenta às tendências de consumo, a indústria costuma incorporar o nutriente da vez para impulsionar vendas. Depois do boom das proteínas, o foco são as fibras. O problema é que acrescentar polidextrose à fórmula de refris tradicionais não gera um ganho nutricional relevante. A inulina, outra queridinha das novas formulações, também exige ressalvas, já que a tolerância a esses compostos varia. Bebidas com fibras podem estar na rotina, mas vale ler o rótulo e considerar o conjunto da receita, não só o destaque da embalagem.

Shots matinais
A ideia é antiga, mas sempre reaparece com nova roupagem e embalagem: não, você não precisa de doses concentradas de limão com cúrcuma, vinagre de maçã, gengibre ou própolis para garantir imunidade, melhorar a digestão ou acelerar o metabolismo. Esses ingredientes podem fazer parte de uma alimentação equilibrada, mas isoladamente não têm efeito terapêutico comprovado. Quando concentrados em shots diários, podem inclusive causar desconforto gastrointestinal, erosão dentária ou interações indesejadas. Saúde não vem em doses, é o todo que a define.
Nootrópicos
Bebidas com nootrópicos prometem foco, memória e desempenho mental, mas essas alegações não dispõem de respaldo científico. Muitos dos compostos, como cafeína concentrada, L-teanina, colina ou extratos vegetais, têm efeitos modestos ou mesmo inexistentes. O discurso também abarca os chamados adaptógenos, como ashwagandha, rhodiola, ginseng e cogumelos funcionais, associados à promessa de equilíbrio mental e redução do estresse. No entanto, esses efeitos tendem a ser sutis, variáveis e pouco previsíveis em bebidas prontas.

Drinks sem álcool
Há ótimas opções para escolher pela qualidade dos ingredientes, pelo equilíbrio de sabores e pela criatividade das combinações — não pelas alegações “funcionais” estampadas em diversos rótulos. Vale explorar novos aromas, testar marcas e estilos e encarar essas bebidas como parte de uma experiência sensorial e social. O foco deve estar sempre no prazer, na companhia e no contexto: a bebida entra como complemento, não como atalho para conquistar saúde, bem-estar ou desempenho. Ao menos, com esses drinks, o álcool já saiu da jogada.
Kombuchas naturais
Boa pedida entre as bebidas fermentadas, especialmente quando elaborada de forma simples e cuidadosa. O benefício potencial está no processo de fermentação, não em versões adoçadas ou cheias de aromas artificiais. Por isso, vale priorizar rótulos sem adição de açúcar, corantes ou outros compostos desnecessários, além de verificar o resquício alcoólico, que deve ser baixo e informado. A procedência também importa: práticas adequadas de produção reduzem o risco de contaminação e garantem um produto mais seguro.

Água com gás
Alternativa interessante para quem quer reduzir a ingestão de refrigerantes e bebidas adoçadas. Sem açúcar, álcool ou aditivos, cumpre bem sua principal função: hidratar. Pode ser combinada com limão, ervas ou frutas para agregar sabor, sem transformar a bebida em um produto ultraprocessado. A única ressalva vale para pessoas sensíveis a bebidas com gás, que podem apresentar estufamento ou desconforto gastrointestinal. Fora esses casos, a boa e velha água gaseificada segue sendo uma escolha simples, segura e realmente funcional, no sentido mais básico da palavra.
Chás artesanais
Preparados a partir de folhas, ervas ou raízes, sem adição de açúcar ou aditivos, são opções simples e interessantes para variar a hidratação diária. Além do sabor, podem oferecer compostos bioativos naturalmente presentes nas plantas, sem promessas exageradas ou necessidade de processamento industrial. Ainda assim, convém lembrar que chá não é remédio: seus efeitos tendem a ser sutis e dependem da frequência, da quantidade e da tolerância individual. Priorizar versões naturais, observar a procedência das ervas e respeitar o próprio corpo é o que funciona.

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Fonte.:Saúde Abril


