Duas associações de servidores da Bahia que teriam dado origem às carteiras falsas de crédito repassadas pelo Banco Master ao BRB (Banco de Brasília) receberam, juntas, cerca de R$ 8,2 milhões em pagamentos da instituição de Daniel Vorcaro entre 2022 e 2025, segundo dados da Receita Federal.
Os pagamentos constam nas DIRFs (Declarações do Imposto sobre a Renda Retido na Fonte) do Master, entregues pelo Fisco à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado, do Senado, e obtidas pela Folha.
A Asseba (Associação dos Servidores da Saúde Afins da Administração Direta do Estado da Bahia) e a Asteba (Associação dos Servidores Técnico-Administrativos e Afins do Estado da Bahia) foram alvo de busca e apreensão na primeira fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, em novembro do ano passado.
A Polícia Federal afirma que elas foram criadas e são controladas por Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master. O empresário baiano chegou a ser preso em novembro, mas foi solto e está com tornozeleira eletrônica.
Os dados enviados pela Receita Federal indicam que a Asteba recebeu pagamentos do Master nos últimos três anos: R$ 1,63 milhão em 2025, R$ 2,99 milhões em 2024 e R$ 1,33 milhão em 2023, totalizando R$ 5,95 milhões.
Já a Asseba recebeu cerca de R$ 2,3 milhões ao todo: R$ 553 mil em 2025, R$ 1,2 milhão em 2024 e R$ 533 mil em 2022. Não há registros no ano de 2023.
Segundo o código do Fisco, os repasses de 2025 seriam decorrentes de aplicações financeiras de renda fixa feitas pelas associações no Master. As declarações anteriores, de 2024 a 2022, não detalham o motivo das transferências —apenas a quantia e o valor do imposto retido na fonte.
A Folha tentou contato com as duas associações por email, na noite de quinta (9), e por ligação e mensagem via WhatsApp na tarde desta sexta (10). Uma funcionária da Asseba, que se identificou como Rebeca, atendeu a ligação e afirmou que o setor responsável não estava disponível. “Não tem nenhum diretor presente”, disse.
Questionada sobre um email para contato, ela disse que ia checar e desligou. Na segunda ligação, uma funcionária chamada Luana atendeu, mas desligou quando a reportagem se identificou.
A presidente da Asseba, Maria Helena Santos Ferreira, também foi procurada por mensagem, ligação e email, mas não houve resposta. A defesa da associação não foi localizada.
Na Asteba, uma funcionária que se identificou como Gabriela disse, por telefone, que o número disponível no site da instituição era apenas para atender os associados e que ela não poderia redirecionar para um superior ou outro setor da associação. Afirmou também que o contato deveria ser feito exclusivamente por email, mas disse que não saberia dizer qual.
A presidente da Asteba, Nanci Maria Prates Pereira, foi procurada por email, telefone e mensagem via WhatsApp, mas também não respondeu. A defesa de Lima foi procurada, mas não quis se manifestar.
Na representação que embasou a primeira fase da Operação Compliance Zero, a PF afirmou que o ex-sócio de Vorcaro é procurador da Asteba e da Asseba perante instituições financeiras, com poderes para movimentar recursos.
Além disso, as duas associações informaram à Receita Federal o telefone e o email do grupo empresarial de Lima, o Terra Firme, como mostrou o Painel. A PF também ressaltou que a Asseba e a Terra Firme compartilham o mesmo telefone de contato perante o Fisco.
O MPF (Ministério Público Federal) identificou que os descontos realizados nos contracheques do estado são referentes a mensalidades e serviços associativos de baixo valor e jamais poderiam ter gerado R$ 6,7 bilhões em carteiras de empréstimos consignados (além de R$ 5,5 bilhões em prêmios, o valor que supostamente a carteira valeria, mais um bônus).
“Por serem controladas por Augusto Lima, a Asteba e Asseba foram utilizadas pelo Banco Master, em ofício dirigido ao BCB [Banco Central do Brasil], de 25/03/2025, como originadoras dos créditos vendidos ao BRB”, disse a PF no documento.
Fonte.:Folha de S.Paulo


