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8 de abril de 2026

Buenos Aires, depois de todos esses anos – 08/04/2026 – Zeca Camargo

Buenos Aires, depois de todos esses anos – 08/04/2026 – Zeca Camargo

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“O passado foi mais forte do que minha necessidade de me libertar dele.” Se eu acordo lendo uma frase dessas e durmo depois de comer um indescritível melt de carne maturada, devo estar em Buenos Aires, certo?

Às vésperas de celebrar 63 anos, a idade que finalmente encontra o ano em que nasci (1963), eu estava novamente no lugar em que comemorei meus 40 anos com um punhado de amigos, uma brincadeira que virou uma tradição (mais sobre isso daqui a pouco). E foi fenomenal, “tal cual”.


Primeiro porque eu estava com saudades, fazia dois anos que não ia a terras portenhas. Segundo porque a Argentina foi o primeiro país estrangeiro que visitei, aos 9 anos de idade, uma conexão afetiva com “los hermanos”.

Terceiro porque, como a experiência me ensinou, você espera qualquer coisa de um destino apaixonado por cultura como Buenos Aires. O livro que comprei na Eterna Cadência e o sanduíche que comi no Ácido, citados no início do texto de hoje, são apenas dois exemplos disso.


Depois, fui também porque recebi um convite para me hospedar num dos hotéis mais incríveis por lá, o Be Jardín Escondido, instalado na casa de um certo Francis Ford Coppola. Como diria o próprio Don Corleone em “O Poderoso Chefão”, uma oferta que você não pode recusar.

Fiquei, me contaram, no quarto onde já dormiu Sofia, a filha do cineasta, ela mesma, diretora de mão cheia. Verdade ou lenda, estava feliz com a vista da janela, o tal jardim, um oásis no vertiginoso e sedutor bairro de Palermo Soho.

Estar numa casa tão charmosa trouxe-me um dilema inesperado: desfrutar daquele aconchego ou sair pelas quadras oitavadas de Buenos Aires? Enquanto passava “dulce de leche” na terceira medialuna do café da manhã, calculava como equilibrar as duas tentações.

Inevitavelmente, o chamado das ruas falou mais alto e logo na primeira manhã eu já estava na Eterna Cadência, minha livraria preferida na cidade que, não raro, tem mais de uma por quarteirão. A frase que abre a coluna é de um dos livros que comprei lá —”Bali”, de Federico Jeanmarie— e me encheu de inspiração para mais um passeio aleatório.


Não uso o adjetivo da moda gratuitamente. Andar por Buenos Aires é jogar fora seus roteiros programados. Porque você passa numa cava, digamos Anchoíta, que praticamente pede para você entrar e tomar uma taça de vinho. Ou uma galeria, digamos Quorum, onde seus olhos são sequestrados pela beleza das obras na vitrine.

Claro que algumas coisas exigem planejamento. Para comer no Ácido, por exemplo, que não aceita reservas, cheguei uma hora antes de o restaurante abrir, com “Bali” na mão, e fiquei lendo enquanto esperava pelo melhor jantar de 2026 (até agora).

Mas no Restô SCA, no El Imperfecto, no Naranjo e em tantos outros lugares, eu só cheguei, comi, bebi e fui feliz. Tanto ou mais do que naquela viagem dos meus 40 anos.


Foi ela que começou a tradição de levar, a cada cinco anos, um grupo de amigos pelo mundo para comemorar meu aniversário. Depois de Buenos Aires vieram Lisboa (45), Istambul (50), Bancoc (55) e Paris (60). Aliás, minhas cinco cidades favoritas no mundo.

E a turma já está perguntado: para onde vamos nos 65? Um jardim escondido não seria uma má ideia… Mas antes deixa eu aproveitar meus 63 que acabaram de chegar.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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