São Paulo
Na Vila Buarque, região central de São Paulo, o mural na entrada de uma cafeteria exibe uma jovem de ponta-cabeça segurando uma xícara. Ao lado, a frase: “café bom não precisa ser chato”.
O slogan da Waku Waku sintetiza o espírito da geração Z, que subverte a tradição ao buscar nos cafés gelados uma maneira de conhecer misturas mais criativas.

Café gelado do Empírico Café, em Pinheiros, com limão e expresso
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Rafaela Araújo/Folhapress
Segundo pesquisa feita pela Nielsen para a Nestlé, 12% das xícaras consumidas fora de casa são de cafés gelados —percentual que sobe para 18% entre os consumidores da geração Z. O interesse também se reflete no comportamento online. Segundo o Google Trends, as buscas por cold brew dispararam 1.250% no primeiro bimestre de 2026 em comparação ao mesmo período do ano anterior.
Essa tendência indica uma mudança de comportamento significativa em um país com forte tradição do cafezinho quente. O movimento tem sido percebido pelas cafeterias, que veem um aumento na demanda, sobretudo no verão.
A rede The Coffee, com centenas de lojas pelo país, registrou crescimento de 13% na venda de bebidas geladas com café no ano passado.
Andrea Ferraz, proprietária da Waku Waku, diz que no verão já vende mais bebidas geladas do que quentes. Sua clientela é majoritariamente jovem, o que ajuda a explicar o fato de os cafés gelados sempre terem muita saída, mesmo em estações frias.
Para Guilherme Duarte, dono da Empírico, o consumidor tem perdido o medo de experimentar bebidas geladas. Segundo ele, a apresentação visual do produto —geralmente servido em copos transparentes, com camadas de ingredientes à mostra— ajuda a aumentar as vendas.
Essas bebidas tornam-se ainda mais atrativas para redes sociais como TikTok e Instagram, dando o empurrão que faltava para impulsionar a venda entre os jovens.
Com isso, as cafeterias aproveitam para criar coquetéis autorais, que vão além da antiga ementa café, leite e xarope.
No Empírico, há uma limonada com café. No Caffè Anarcord, o cold brew é infusionado com cajuína. Na Waku Waku, o café é extraído na Aeropress —método que combina filtragem com pressão— sobre um copo com gelo e xarope de laranja.
Até os clássicos se sofisticaram. Pato Rei e Catarina fabricam a própria tônica para o cold brew tônica. No Coffee Lab, o affogato leva soft cream de receita própria, enquanto o Café com Fé (da Momo Gelato) aposta em um frapê com gelato da casa e blend exclusivo da Orfeu.
O movimento transbordou para o matchá. No Empírico, o chá verde japonês vira o macoco, com água de coco e xarope de laranja.

Macoco, bebida gelada de matcha com água de coco, do Empírico Café
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Rafaela Araújo/Folhapress
Embora comum nos EUA e Japão, o café gelado demorou a ganhar força no Brasil devido à herança cultural do café sempre fumegante. Para o brasileiro, café é rotina. Bebida tradicional, está arraigada no dia a dia de quase toda a população —algo como ocorre com o chá na China. Café gelado, no imaginário popular, é sinônimo de café velho ou excentricidade estrangeira.
“Café gelado, chá gelado, mate gelado, são formas anômalas, deduções de mentalidade relativamente moderna contra o velho uso e abuso da bebida aquecida”, escreveu na década de 1960 Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) em sua “História da Alimentação no Brasil” (Global Editora).
Para Pavel Cardoso, presidente da Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café), a ascensão das bebidas geladas não deve ser vista como ameaça à tradição do cafezinho, mas sim como uma ampliação de mercado.
“Tendo em vista que a relação do brasileiro com o café existe há quase 300 anos, o café filtrado, quente, característico do brasileiro, com o famoso pão na chapa, o pão de queijo, continuará fazendo parte da cultura do país”, afirma Cardoso.
A seguir, veja 13 lugares tomar café gelado em São Paulo.
Botanikafé
Além de clássicos como expresso tônica, cold brew e iced latte (R$ 19 cada um), a casa especializada em brunch serve um expresso batido com leite de aveia, capim-santo, mel e gelo (R$ 24).
Al. Lorena, 1.765, Jardim Paulista, região oeste. @botanikafe
Café com Fé/Momo Gelato
Para quem gosta de bebidas doces, o Momo Frappé (R$ 29) funciona como uma sobremesa: leva gelato de leite, calda de caramelo e expresso feito com grãos da Orfeu, finalizado com chantili.
R. dos Pinheiros, 436, Pinheiros, região oeste. @cafecomfebymom
Caffè Anarcord
O misto de cafeteria e bar anexo ao restaurante Bottega Bernacca serve cold brew com grapefruit (R$ 22), gengibre (R$ 22) ou cajuína (R$ 28), além de clássicos como o iced latte e o shakerato (R$ 19 cada um).
R. Padre João Manoel, 826, Jardim Paulista, região oeste. @caffeanarcord
Casa Hario
O destaque é o cold brew shandy, feito com limonada mista e servido em uma elegante taça (R$ 28). O cold brew também pode sair com mix cítrico e xarope de baunilha (R$ 25) ou gengibre (R$ 28).
R. Manuel Guedes, 426, Itaim Bibi, região oeste. @casahario
Catarina Café e Amor
Além de bebidas que se revezam em seu menu rotativo, a casa faz a própria água tônica do cold brew tônica (R$ 18).
R. Flavio de Melo, 109, casa 1, Vila Mariana, região sul. @catarina.cafeeamor
The Coffee
Rede com centenas de lojas pelo Brasil faz expresso tônica com gengibre (R$ 19,50) e iced latte com cumaru (R$ 18,90).
R. Voluntários da Pátria, 2.607, Santana, região norte. @thecoffee.jp
Coffee Lab
Tem sorvete no estilo soft cream nos sabores café, leitinho da vovó (baunilha com especiarias) ou misto. Pode ser servido na casquinha (R$ 20) ou como affogato, ou seja, sobre mais café ou leitinho da vovó quente (R$ 23).
R. Aspicuelta, 227, Vila Madalena, região oeste. @coffeelab_br
Coffee Walk
Entre as opções geladas está o latte cumaru, com leite condensado e essência de cumaru (R$ 18,90).
R. Fradique Coutinho, 165, Pinheiros, região oeste. @coffeewalkbr
Empírico Café
O café tropical traz a refrescância de uma limonada feita com diferentes tipos de limão finalizada com um expresso (R$ 18). O iced mocha tem café, leite e calda de chocolate (R$ 22). À base de matchá, o macoco leva água de coco e xarope de laranja (R$ 24).
R. Piauí, 103, Higienópolis, região central. @empiricocafesp
Mediterrain Padaria Artesanal
Aposta nos clássicos, como o aerocano (expresso duplo vaporizado em gelo, R$ 20) e o expresso tônica (R$ 24). O cappuccino gelado leva espuma de leite aromatizada com noz-moscada e canela, finalizado com cacau em pó (R$ 22).
R. Gabriele D’Annunzio, 1.263, Campo Belo, região sul. @mediterrainpadaria
Na Fila do Pão
O affogato é servido com sorvete de nata (R$ 18). O cliente recebe o expresso e o sorvete separados para finalizar na mesa. Já o matchá à mineira leva leite e calda de goiabada (R$ 20).
R. Jaguaribe, 627, Higienópolis, região central. @na.filadopao
Pato Rei
A casa tem cold brew feito com diferentes grãos (de R$ 20 a R$ 21), além do nude brew (R$ 26), receita na qual o café é infusionado em leite de aveia por 18 horas.
Av. Engenheiro Luís Carlos Berrini, 1.127, Berrini, região sul. @patoreisp
Waku Waku
Além de clássicos como iced latte e milk-shake, serve café extraído na Aeropress com bastante gelo com xarope de laranja (R$ 17,50).
R. Jaguaribe, 761, Consolação, região central. @wakuwaku.coffee
Conheça as receitas clássicas de café gelado
Iced coffee
Café extraído com água quente e posteriormente resfriado. Geralmente servido com bastante gelo
Iced latte
Café extraído com água quente (normalmente expresso), com leite e gelo
Cold brew
Café extraído a frio. A água, fria ou gelada, fica em contato com o pó durante horas (em geral entre 8 e 18 horas, a depender da receita)
Affogato
Dose de café (normalmente expresso) sobre uma bola de sorvete
Frappé
Café, leite e gelo batidos no liquidificador, frequentemente acrescidos de xaropes de diversos sabores, como chocolate e caramelo. Ficou famoso mundialmente com os frappuccinos lançados pela rede de cafeteria Starbucks
Expresso tônica
Dose de expresso extraído sobre copo com gelo e água tônica
Fonte.:Folha de São Paulo


