Virar o ano olhando para o futuro do consumo de carnes exige mais do que números. Para entender as tendências para 2026, conversei com três especialistas de gerações diferentes e com atuações complementares na cadeia da carne: Amália Sechis, produtora e sócia-fundadora da Beef Passion; Alder Lopes, açougueiro e empresário do varejo de carnes; e Istvan Wessel, comerciante de carnes há 47 anos.
Apesar dos olhares distintos, há convergências claras entre os três. A principal delas: o consumidor caminha para menos quantidade e mais intenção.
“A saúde e o bem-estar deixaram de ser nichos e passaram a ser pilares na escolha dos alimentos”, afirma Amália. Para ela, a carne passou a ser avaliada não só pelo sabor, mas também pelo impacto que gera no corpo e no sistema alimentar.
Alder observa que fatores econômicos e culturais ampliaram esse movimento. “Com a alta no preço do boi, o consumidor passou a olhar para outras proteínas. O suíno, tradicional nas festas, cresceu no dia a dia e até no churrasco de fim de semana.”
Já Istvan discorda da ideia de redução de consumo: “Não acredito em menos quantidade. A obsessão por qualidade deve continuar, junto com a busca por novos cortes, aquilo que eu chamo de o novo churrasco.”
Nesse cenário, cortes antes considerados “secundários” ganham protagonismo. “Quando o boi é bom, não existe carne de segunda”, argumenta Amália, que considera o termo carne de segunda inadequado. Ela cita o acém como um dos cortes de maior valor agregado hoje e aposta no patinho, “tão magro quanto o filé-mignon, mas mais saboroso e com alta concentração de proteína”.
Alder confirma a mudança no balcão. “A procura por peito bovino, raquete da paleta e acém cresceu, impulsionada pela influência de culturas culinárias internacionais”.
Istvan argumenta que essa tese é antiga: “Eu já questionava o conceito de carnes de segunda em meu livro de 1982. Existem animais de primeira e cozinheiros de primeira, não carnes.”
Quando o tema é rastreabilidade e bem-estar animal, surgem nuances entre os especialistas. “A compra deixa de ser apenas uma transação e se torna um ato de apoio a práticas sustentáveis”, diz Amália. Alder percebe um consumidor mais curioso: “Hoje ele quer saber se a carne é a pasto ou confinada, a genética, o clima da região. O QR Code traz segurança.” Mas já Istvan é mais cético: “Reconheço a importância, mas no balcão ainda prevalecem qualidade aparente, marmoreio e preço.”
O conceito de carne premium é consenso entre os três. “O consumidor paga quando o produto entrega valor”, resume Amália. Alder vê açougues tradicionais evoluindo para atender essa demanda. Istvan
Já sustentabilidade e produção regenerativa deixam de ser tendência. “Não é mais diferencial, é pré-requisito competitivo”, afirma Alder. “É um caminho sem volta”, concorda Amália. Istvan pondera: “Na relação entre pecuarista e frigorífico, já é realidade. No varejo, ainda é uma conversa em construção.”
O futuro da carne em 2026 será definido menos por discursos e mais por coerência entre o que se produz, o que se comunica e o que se coloca no prato.
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Fonte.:Folha de São Paulo


