Vítimas de Jeffrey Epstein apontaram o que veem como falhas na condução do caso e exigiram a responsabilização dos envolvidos em entrevista a jornalistas realizada na manhã desta quarta-feira (11), horas antes da audiência da secretária de Justiça no Congresso dos Estados Unidos.
A revolta se intensificou após a divulgação de cerca de três milhões de documentos do caso, no dia 30 de janeiro. As vítimas descobriram que seus dados pessoais — incluindo endereços residenciais — foram expostos publicamente. Ao identificar o vazamento, o Departamento de Justiça removeu milhares de informações do site.
A brasileira Marina Lacerda, 37, que afirma ter sido abusada por Epstein aos 14, declarou que ela e outras sobreviventes reivindicam questões básicas: “segurança e dignidade”. “Como o Departamento de Justiça foi capaz de ser tão cuidadoso em censurar o nome de homens poderosos [acusados de abusos sexuais] e, ainda assim, falhou em proteger as sobreviventes?”, questionou.
“Nós temos vidas, famílias, e não escolhemos esses crimes. Não deveríamos pagar o preço novamente. Se outros documentos forem liberados, solicitamos que o Departamento de Justiça faça isso corretamente, censurando a identidade das sobreviventes”, disse Lacerda.
A falta de investigação e responsabilização de políticos e figuras poderosas mencionados nos documentos foi outro ponto levantado por ela e demais vítimas presentes.
Enquanto isso, outros países avançam em apurações. Na Noruega, os diplomatas Terje Rod-Larsen e Mona Juul são investigados por suspeitas de corrupção relacionadas a benefícios recebidos de Epstein; o ex-primeiro-ministro Thorbjorn Jagland também aparece nos arquivos.
Na França, o ministro das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, anunciou ter comunicado à Justiça “fatos presumidos” envolvendo um diplomata francês. Ele teria fornecido “informações diplomáticas” a Epstein, o criminoso sexual americano encontrado morto na prisão em 2019. “Estou estupefato”, disse o ministro.
No Reino Unido, o príncipe Andrew, irmão do rei Charles 3], permanece sob investigação por relatos de envolvimento com Epstein, após resolver judicialmente um processo civil movido por uma das vítimas.
“Outros países já estão tomando providências. Por que os EUA ficaram para trás? Quando o Departamento de Justiça vai iniciar as investigações contra os homens poderosos que permanecem impunes?”, cobrou Lacerda.
Os arquivos de Epstein citam diversos políticos e bilionários, entre eles o presidente dos EUA, Donald Trump, o ex-presidente Bill Clinton e o atual secretário de Comércio, Howard Lutnick. Entre empresários, aparecem nomes como Elon Musk, Bill Gates e Les Wexner.
Nesta semana, o Departamento de Justiça autorizou que congressistas visualizassem os documentos dos arquivos do caso Epstein sem censuras. A deputada democrata Pramila Jayapal afirmou, durante a entrevista, que os documentos mostram pessoas que lideram governos, bilionários, secretários de gabinetes trocando e-mails com Epstein e demonstrando que sentiam que “estavam acima da lei”.
“Nesses e-mails, eles faziam piada sobre pedófilos, sobre atos sexuais horríveis com meninas jovens, e muitos achavam que fossem sair impunes. Mas a terra está se mexendo. Pelo mundo, princípes, embaixadores e até primeiros-ministros estão caindo. Aqui nos EUA, isso também precisa acontecer. Não vamos parar até que haja Justiça e responsabilidade”, afirmou a deputada.
Fonte.:Folha de S.Paulo


