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10 de abril de 2026

Cativeiro financeiro: casais separados sob o mesmo teto – 10/04/2026 – Mariliz Pereira Jorge

Cativeiro financeiro: casais separados sob o mesmo teto – 10/04/2026 – Mariliz Pereira Jorge

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A coisa mais difícil da minha segunda separação foi pagar o aluguel sozinha. Finalmente eu estava livre da dor de cabeça provocada por um chifre, mas ganhei outra quando as contas do mês ficaram bem mais difíceis de fechar.

Era o começo do Airbnb no Brasil e eu decidi alugar um quarto para desconhecidos. Tive sorte de só hospedar gente bacana. Uma italiana que passou dois meses comigo virou amiga, me esperava com jantar e a gente se entendia no improviso, apesar da língua. Nos falamos até hoje, quase 20 anos depois. Recebi também uma carioca que ficou um ano e hoje mora nos Estados Unidos, com dois filhos, de um casamento que eu vi nascer.

Não era exatamente o plano de vida que eu tinha imaginado naquela altura, mas funcionou. E, principalmente, me tirou de um lugar onde eu já não queria mais estar: fisicamente casada. O custo emocional teria sido muito maior.

O problema é que essa conta nem sempre fecha. E não fecha para muita gente. O número de divórcios cresceu, mas o que aumentou também foi o volume de casais que já romperam emocionalmente e permanecem na mesma residência porque é a solução que cabe no bolso. Não é falta de clareza, apego ou indecisão sobre o que fazer. É dinheiro. Ou melhor, a falta dele.

Ao mesmo tempo, o preço do aluguel disparou, o que empurra ainda mais para o limite quem precisa reorganizar a vida sozinho. E aí nasce esse arranjo triste e constrangedor. Gente que já terminou, mas continua ali, dividindo o mesmo teto, o mesmo Wi-Fi e, muitas vezes, um silêncio que pesa mais do que qualquer discussão. A casa vira um espaço estranho. Não é mais um lar, mas também não chega a ser um campo de batalha declarado. Vira um limbo doméstico, onde ninguém quer estar, mas ninguém consegue sair.

Mais da metade das mulheres brasileiras, segundo dados do DataSenado, aponta a dependência financeira como um dos principais obstáculos para sair de uma relação. E tem uma camada ainda mais dura nisso tudo, que costuma ficar escondida atrás das contas do mês. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a maior parte dos casos de violência acontece dentro de casa, muitas vezes cometida por parceiros ou ex-parceiros. Permanecer sob o mesmo teto, mesmo depois do fim, não é só um detalhe logístico. Pode ser um risco, uma questão de vida ou morte.

Claro que a dependência financeira não aparece só na hora da separação. Sempre foi uma ferramenta de controle. Quem paga decide. Quem não tem para onde ir aguenta mais do que deveria. Gostamos de repetir que hoje é mais fácil sair de um relacionamento ruim. Que as mulheres estão mais livres, mais independentes, mais donas de si. E, em muitos aspectos, isso é verdade. Mas existe um detalhe bem concreto que costuma desmontar esse discurso bonito: o aluguel vence todo mês.

Eu dei sorte. Dei um jeito meio improvisado, meio caótico, mas dei. Nem todo mundo tem um quarto sobrando, disposição para dividir a casa com desconhecidos ou dinheiro para começar do zero e com a bagagem que, muitas vezes, inclui filhos. Tem muita mulher que não fica porque quer. Fica porque não consegue sair. Sem dinheiro no bolso e um lugar para existir, a liberdade é apenas uma palavra bonita. A emancipação feminina não sobrevive ao despejo. O que nos liberta não é um novo amor, é o teto seguro que o dinheiro do outro não pode nos tirar.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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