
- Author, Jordan Dunbar
- Role, BBC World Service
- Reporting from, Chernobyl, Estônia e Alemanha
Tempo de leitura: 11 min
Era pouco depois da meia-noite. Iryna Stetsenko tinha terminado de fazer as unhas para o casamento, abriu a porta da varanda e tentava acalmar o nervosismo para conseguir dormir.
Em um apartamento próximo, cheio de convidados, seu noivo, Serhiy Lobanov, dormia em um colchão na cozinha.
Então, um “estrondo” quebrou o silêncio, conta Iryna. “Era como se muitos aviões estivessem passando sobre nós, tudo vibrava e o vidro das janelas tremia.”
Serhiy diz que “sentiu um tremor, como se algum tipo de onda tivesse passado”, pensou que pudesse ser um leve terremoto e voltou a dormir.
A jovem de 19 anos, professora em formação, e o engenheiro de usina, de 25, aguardavam ansiosos pela vida de casados na recém-construída cidade soviética de Pripyat. Eles não tinham ideia de que o pior acidente nuclear da história estava acontecendo a menos de 4 km dali.

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O reator número quatro da usina de Chernobyl — no que hoje é o norte da Ucrânia — havia explodido, liberando material radioativo que se espalharia por grandes áreas da Europa.
Quarenta anos depois, os restos altamente radioativos da usina estão em uma zona de guerra. O casal agora vive em Berlim, após ter reconstruído a vida pela segunda vez — desta vez para fugir de um conflito, e não de um desastre nuclear.
Mas, na manhã de 26 de abril de 1986, Serhiy lembra de ter acordado por volta das 6h, cheio de entusiasmo, ao perceber que o dia do seu casamento amanhecia com um céu lindamente ensolarado.
Ele tinha tarefas a cumprir — levar roupa de cama para o apartamento de um amigo, onde ele e Iryna planejavam passar a noite, e comprar flores.

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Ele conta que viu soldados com máscaras de gás do lado de fora e homens lavando a rua com uma solução espumosa. Alguns conhecidos do seu trabalho na usina nuclear disseram que haviam sido chamados com urgência porque “algo tinha acontecido”, mas não sabiam o quê.
Ao olhar da sacada do apartamento do amigo, em um prédio alto, ele viu fumaça saindo do reator número quatro.
Mais tarde, ficaria claro que bombeiros e trabalhadores da usina haviam passado a noite expostos a níveis letais de radiação, tentando conter um grande incêndio tóxico.
“Fiquei um pouco apreensivo”, diz ele. Usando seus conhecimentos técnicos, pegou um pano, molhou e colocou na entrada do apartamento como precaução, para reter poeira radioativa.
Em seguida, correu até o mercado. De forma incomum para uma manhã de sábado, o local estava vazio — então ele escolheu cinco tulipas para o buquê.
Iryna, que estava com a mãe no apartamento da família, conta que o telefone tocou a noite toda. A mãe parecia “alarmada”, diz ela, com vizinhos ligando para avisar que “algo terrível” havia acontecido — mas sem muitos detalhes.
As informações eram rigidamente controladas na União Soviética. Elas ligaram o rádio, mas não havia qualquer menção a um incidente.
Pela manhã, a mãe entrou em contato com as autoridades: “Disseram para ela não entrar em pânico, que todos os eventos planejados na cidade deveriam continuar.”
Oficialmente, tudo seguia como se nada tivesse acontecido. As crianças foram enviadas para a escola.

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Mais tarde naquele dia, os noivos e os convidados seguiram em fila de carros até o Palácio da Cultura, conhecido por sediar tanto eventos cerimoniais quanto discotecas populares.
Eles fizeram seus votos sobre um pano bordado com seus nomes e depois seguiram com os convidados para um café próximo.
Mas o banquete de casamento teve um clima “triste”, nada festivo, diz Serhiy. “Todos entendiam que algo havia acontecido, mas ninguém sabia os detalhes.”
Para a primeira dança, haviam ensaiado uma valsa tradicional. Mas, à medida que crescia a percepção de que uma tragédia estava em curso, “desde os primeiros passos perdemos o ritmo”, lembra Iryna. “Apenas nos abraçamos e ficamos nos movendo assim, abraçados.”

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Depois — exaustos, mas finalmente marido e mulher — eles voltaram para o apartamento do amigo.
Mas, segundo Serhiy, nas primeiras horas da manhã de domingo, outro amigo bateu à porta, avisando que eles precisavam correr para um trem de evacuação, que partiria às 5h.
A única roupa extra que Iryna tinha era um vestido leve para o segundo dia das comemorações, então ela voltou a vestir o vestido de noiva para correr até o apartamento da mãe e trocar de roupa. Além disso, os sapatos haviam causado bolhas nos pés. “Eu estava de vestido de noiva, correndo descalça pelas poças”, conta Iryna.
Ainda estava escuro quando, do trem, eles viram o brilho do reator destruído. Era “como se você estivesse olhando para o olho de um vulcão”, diz Serhiy.
Quando veio o anúncio oficial, a evacuação foi descrita como “temporária”.
“Saímos por três dias, mas acabamos indo embora para o resto da vida”, acrescenta.

A União Soviética foi duramente criticada pela demora em revelar a dimensão do desastre. Só dois dias após a explosão — depois que níveis de radiação foram detectados na Suécia — admitiu que um acidente havia ocorrido. Levou mais de duas semanas até que o líder soviético Mikhail Gorbachev se pronunciasse publicamente.
Um teste de segurança havia dado terrivelmente errado. Uma estimativa citada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e pela Organização Mundial da Saúde indica que as explosões liberaram 400 vezes mais material radioativo do que a bomba de Hiroshima.
Nikolai Solovyov trabalhava como engenheiro-chefe na sala de turbinas no momento do acidente.
“Foi como um terremoto debaixo de nós”, lembra. “Vimos o teto desabar… Uma onda de ar veio em nossa direção trazendo toda aquela poeira preta… E a sirene começou a tocar.”
Ele diz que ele e seus colegas correram para o local achando que um gerador havia explodido — sem imaginar que poderia ser o próprio reator.
Um deles checou os monitores e disse que os níveis de radiação estavam “fora de escala”, recorda Nikolai.
Eles encontraram outro colega em cima de uma das turbinas, aparentemente ileso, mas vomitando — um sinal de doença causada por radiação. “Ele foi um dos primeiros a morrer”, diz.

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O número oficial de mortos no incidente é de 31 pessoas — duas morreram na explosão, enquanto 28 faleceram nas semanas seguintes devido à síndrome aguda da radiação, e uma por parada cardíaca.
O impacto mais amplo do desastre é controverso e difícil de determinar. Na época, não foi realizado um estudo médico abrangente de longo prazo.
Em 2005, um estudo de várias agências da Organização das Nações Unidas concluiu que cerca de 4 mil pessoas poderiam morrer em decorrência do acidente. Outras estimativas sugerem que o número pode chegar a dezenas de milhares.
Uma operação foi lançada para impedir que o reator exposto continuasse liberando radiação.
Helicópteros despejaram areia e outros materiais sobre a estrutura. As autoridades mobilizaram centenas de milhares de pessoas de toda a União Soviética para conter o desastre.

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Níveis extremos de radiação fizeram com que máquinas parassem de funcionar, e parte do trabalho precisou ser feita manualmente.
Jaan Krinal e Rein Klaar foram enviados da Estônia, então parte da União Soviética, e integraram um grupo encarregado de remover destroços do telhado do reator três.
“Você usava placas de chumbo — uma na frente, outra nas costas e uma entre as pernas. Era pesado, 20 kg ou mais”, diz Jaan.
“Na cabeça, um capacete de construção soviético padrão — óculos de proteção, luvas e um dosímetro [para medir radiação] no bolso”, acrescenta.
Rein lembra que eram enviados para trabalhar em intervalos de apenas um minuto, para limitar a exposição. “Ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo… Não havia tempo para pensar”, diz.

Enquanto a limpeza começava, Iryna e Serhiy estavam hospedados na casa da avó dela, a cerca de 300 km de distância, na região de Poltava, a leste de Kyiv.
Poucos dias depois da chegada, médicos que monitoravam os evacuados para detectar exposição à radiação deram uma notícia inesperada: Iryna estava grávida de três meses.
Ela lembra de ter chorado ao descobrir que os médicos alertavam que a radiação poderia afetar os bebês ainda não nascidos e recomendavam que mulheres expostas considerassem o aborto: “Eu tinha medo de ter o bebê e medo de interromper a gravidez.”
Mas uma médica compreensiva a incentivou a seguir com a gestação, e Iryna deu à luz uma menina saudável, Katya. Décadas depois, Katya também se tornou mãe — e hoje Serhiy e Iryna têm uma neta de 15 anos.

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O casal acredita que o acidente nuclear afetou sua saúde, embora isso não tenha sido confirmado por médicos.
Iryna precisou substituir os dois joelhos e acredita que a radiação pode ter enfraquecido seus ossos. Eles também acham que a radiação pode ter contribuído para um ataque cardíaco que Serhiy sofreu em 2016, uma semana após visitar sua antiga cidade, Pripyat.
Jaan, que lidera uma organização de ex-“liquidadores” da Estônia, diz que alguns tiveram problemas de saúde, mas não observaram “câncer por toda parte”, como temiam inicialmente. Ele afirma que, em 1991, 51 liquidadores estonianos morreram, incluindo 17 que tiraram a própria vida.
Nikolai, o engenheiro de turbinas, era casado e tinha dois filhos na época do acidente. Ele voltou a trabalhar na usina e se aposentou recentemente. Seu filho mais novo ingressou nas forças armadas da Ucrânia após a invasão em larga escala pela Rússia em 2022, mas está desaparecido em combate desde setembro de 2023.

A própria usina nuclear exige monitoramento e manutenção constantes.
Um sarcófago de concreto sobre o reator quatro foi concluído em apenas sete meses após o acidente. Mas a estrutura tornou-se instável e, em 2016, um novo escudo metálico de £1,3 bilhão (US$ 1,8 bilhão) foi instalado sobre ele para conter vazamentos.
A radiação em grande parte da chamada “zona de exclusão” ao redor da usina está hoje em níveis suficientemente baixos para visitas de curta duração, mas ninguém pode viver ali legalmente. Ainda existem pontos com níveis perigosamente altos de radiação, tanto dentro quanto nas proximidades do reator destruído, além de áreas como a “Floresta Vermelha”, que foi fortemente contaminada.
Os edifícios de Pripyat — que já foi vista como um símbolo de otimismo juvenil e da tecnologia soviética — hoje estão em ruínas e abandonados, incluindo o Palácio da Cultura onde Serhiy e Iryna fizeram seus votos.
Dentro da nova cúpula, a chaminé do reator quatro permanece como uma ruína impressionante, coberta por uma estrutura bruta de concreto cinza, sob o domo metálico brilhante, alto o suficiente para abrigar a Estátua da Liberdade.

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Em 2022, forças russas avançaram sobre o complexo da usina com tanques, fizeram funcionários reféns por cinco semanas, instalaram minas e cavaram trincheiras.
E, no ano passado, um drone abriu um buraco no novo escudo de proteção. A Ucrânia acusou a Rússia de atacar a usina — o que o Kremlin negou. Os níveis de radiação não aumentaram, mas a Agência Internacional de Energia Atômica afirma que o escudo perdeu sua “função primária de segurança”.
Serhiy e Iryna se mudaram para a Alemanha em 2022, depois que o apartamento da filha deles em Kyiv foi atingido por um míssil. O casamento, iniciado em meio à incerteza e à tragédia, continua sendo um ponto de apoio.
“Acho que realmente tivemos que passar por algumas dificuldades na vida para entender que… realmente não podemos viver um sem o outro.”
“Depois de 40 anos, posso dizer com certeza que somos como linha e agulha”, diz Iryna. “Fazemos tudo juntos.”
Reportagem adicional de Paul Harris e Ellie Jacobs
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


