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A cidade de Pequim se transformará em palco de um grande espetáculo de demonstração do poderio militar chinês na próxima quarta-feira (3/9).
Tanques e mísseis nucleares desfilarão pela Praça da Paz Celestial, na capital chinesa, enquanto jatos de combate de quinta geração passarão riscando o céu.
No desfile chinês do “Dia da Vitória”, muitos olhares não estarão, contudo, atentos apenas à tecnologia de combate sendo exibida.
Kim e Putin raramente têm viajado ao exterior nos últimos anos. O que o seu comparecimento ao evento — que marca o 80° aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial — nos diz sobre o relacionamento entre as três nações e seus planos para o futuro?
Para explicar melhor, reunimos especialistas dos serviços coreano, russo e chinês da BBC, que compartilharam suas visões sobre o desfile.

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Turismo e prestígio para a Coreia
“O encontro entre Kim e Xi será o primeiro em cerca de seis anos”, diz Juna Moon, da BBC News Coreia.
“Kim visitou a China pela última vez antes de viajar para a cúpula de Hanói [no Vietnã] em 2019, para se encontrar com Donald Trump durante o primeiro mandato [do presidente americano]”, relembra ela.
“E Xi visitou Pyongyang posteriormente, no mesmo ano.”
O evento atual é inédito em vários sentidos. Esta será a primeira vez em que os líderes da Coreia do Norte, da China e da Rússia serão vistos juntos, por exemplo.
É um encontro incomum para os líderes norte-coreanos. Afinal, tanto Kim Jong Un quanto seu pai e predecessor, Kim Jong Il (1941-2011), se restringiram a manter reuniões diplomáticas com apenas um governante de cada vez.
Além disso, esta é a primeira vez em que um líder norte-coreano comparece a um desfile militar chinês desde 1959.
“A visita ocorre em um momento em que a Coreia do Norte enfrenta sérias dificuldades econômicas e se prepara para aniversários políticos importantes, o que torna fundamental o auxílio chinês”, explica Moon. Ela destaca os preços do arroz, que dispararam no país.
Kim Jong Un certamente deseja garantir que a ajuda chinesa faça com que o 80° aniversário de fundação do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte, em outubro, e o nono congresso do partido, esperado para o ano que vem, sejam marcados pela grandiosidade, não pela austeridade.

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A participação da Coreia do Norte possivelmente envolve também uma dimensão econômica que se beneficiaria de ajuda chinesa.
“Pyongyang espera atrair grandes quantidades de turistas chineses para a recém-inaugurada Zona Turística Costeira de Wonsan Kalma, o que precisaria da bênção do Partido Comunista Chinês”, destaca Moon.
Mas a viagem do líder norte-coreano para Pequim envolverá muito mais do que apenas dinheiro.
Kim geralmente gosta de equilibrar seu relacionamento entre Pequim e Moscou. Por isso, ele não deposita excessiva confiança em nenhum dos dois.
Este evento fornecerá a ele uma rara oportunidade de ser visto com os dois presidentes.
“Ao se alinhar com Xi e Putin, Kim tenta se apresentar como parceiro das superpotências e sinalizar a posição central da Coreia do Norte em um possível eixo China-Coreia do Norte-Rússia”, explica Moon.
Kim Jong Un pode até esperar que o presidente Xi compareça às comemorações do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte em outubro, o que aumentaria sua importância dentro e fora do país.
“A visita de Kim também é amplamente interpretada como uma reação estratégica à crescente cooperação entre os Estados Unidos, a Coreia do Sul e o Japão”, afirma Moon, “e um sinal de que Pyongyang está pronta para aprofundar seu alinhamento tripartite com a China e a Rússia.”
“Se a visita de Kim no Dia da Vitória fortalecer a cooperação entre a Coreia do Norte, a Rússia e a China, pode haver graves consequências para a segurança da Coreia do Sul”, segundo ela.
“O risco de uma cooperação mais profunda, mesmo que não oficial, entre Pyongyang, Pequim e Moscou, em termos de sistemas de armas, tecnologia militar, inteligência e logística, vem crescendo progressivamente.”

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A Rússia de volta ao cenário mundial
O convite para visitar Pequim, logo após a cúpula no Alasca com o presidente americano, Donald Trump, é “música para os ouvidos de Vladimir Putin”, segundo Alexey Kalmykov, da BBC News Rússia.
“A Rússia vem sendo cada vez mais isolada do mundo há anos, pelas sanções derivadas de sua invasão da Ucrânia”, destaca ele.
Agora, em curto espaço de tempo duas importantes potências mundiais estendem o tapete vermelho para ele.
“Até recentemente, as autoridades russas não conseguiriam sonhar com um sucesso tão grande no cenário internacional”, segundo Kalmykov. “Hoje é uma realidade.”
Comparecer ao desfile em Pequim irá consolidar a posição de Putin no panorama global e também tranquilizar o povo russo em relação à posição internacional do país.
“Numerosos apertos de mão, abraços cordiais e tapetes vermelhos devem mostrar ao público russo que Moscou não é um parceiro menor de Pequim, mas um igual”, explica Kalmykov.
Além dos relacionamentos pessoais, também haverá outro aspecto importante no desfile do “Dia da Vitória” na China, que marca os 80 anos da rendição japonesa e o fim da Segunda Guerra Mundial.
“A demonstração de força na China enviará um sinal importante para o resto do mundo”, segundo Kalmykov. “O Sul Global está unido em torno de Xi e Putin e é uma força que deve ser reconhecida.”
Outra mensagem importante também será enviada para a Casa Branca, sinalizando que qualquer tentativa de induzir a cisão entre Moscou e Pequim irá fracassar.

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A China exibe seu poderio militar
Durante o desfile, a China pretenderá demonstrar ao mundo que é uma moderna potência militar global.
“Autoridades chinesas anunciaram que o desfile terá 70 minutos e apresentará a nova geração de armas do Exército de Libertação Popular”, relata a BBC News China, “incluindo avançados sistemas hipersônicos, aéreos e de defesa antimísseis, além de mísseis estratégicos, todos selecionados dos atuais equipamentos chineses de combate.”
Antes do evento, um porta-voz do governo chinês declarou que uma quantidade significativa de equipamentos novos será exibida pela primeira vez.
Isso certamente atrairá a atenção de todo o mundo, pois, segundo o Boletim dos Cientistas Atômicos, a China atualmente está expandindo e modernizando suas armas nucleares, com mais rapidez do que qualquer outro país.
Já no campo diplomático, a China terá menos problemas com sua lista de convidados que em eventos anteriores.
O Tribunal Penal Internacional (TPI) tem uma ordem de prisão ativa contra o presidente Putin e a China já foi condenada anteriormente por convidar pessoas procuradas pelo TPI para este tipo de evento.
Mas a decisão do presidente Trump de convidar o líder russo para o Alasca, poucas semanas atrás, dificulta fazer críticas à China, avalia o serviço chinês da BBC, já que “soldados americanos estenderam o tapete vermelho para Putin”.
E o importante não são só as pessoas que estão comparecendo. Também é significativo observar quem ficará de fora.
Dez anos atrás, um convidado importante para o mesmo desfile foi o ex-presidente do partido taiwanês KMT, que, na época, estava no governo do país. O convite ocorreu “durante o período de lua de mel nas relações no estreito de Taiwan”, relembra a BBC News China.
Mas, desde 2016, Taiwan é governado pelo Partido Democrático Progressista, que tipicamente mantém relações mais frias com Pequim.
E devido, em parte, à repressão chinesa aos dissidentes em Hong Kong, “Taiwan proibiu as autoridades públicas de viajar a Pequim para o desfile militar”, segundo informa o serviço chinês da BBC.
Por isso, nenhum representante taiwanês estará ao lado dos 26 chefes de Estado esperados para assistir ao evento.
A China defende que a ilha autogovernada de Taiwan faz parte do território chinês e prometeu, há muito tempo, a sua “reunificação”.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL